O teatro da vida: da subjetividade do eu à ocupação criativa de espaços públicos

Por Marcela Boni

A finalização da temporada do espetáculo “Dentro é Lugar Longe” não interrompeu a intensidade das reflexões que causou. Peça aparentemente prosaica, com figurino e cenário compostos por coisas que a maioria de nós temos em nossas casas, tem na suposta simplicidade uma janela que se abre para muitos mundos vividos e sentidos por atores e espectadores.

A começar pelo “teatro em movimento”, afinal a peça acontece dentro de um ônibus, o que segue é sempre marcado pela novidade. Assim como a vida de cada um que ali está, o texto transcorre tal qual o tráfego, que hora é de calmaria e solidão, hora é de intensidade e compartilhamento de emoções.

Cada detalhe remete a lembranças e diferentes temporalidades. Ao evocar, a partir de recordações, familiares e pessoas queridas, cada passagem do texto nos transporta para dentro de nossa própria história. História esta tantas vezes esquecida em meio ao turbilhão de informações e sensações que nos atingem no cotidiano contemporâneo.

O que poucos sabem, no entanto, é que para chegar até este ponto, o grupo precisou trilhar por estes caminhos tão conhecidos e, por vezes, tão pouco revisitados. Contar nossa própria história é uma forma de reviver de forma inédita todos aqueles momentos que afinal nos fizeram ser quem somos. Só que para isso é preciso olhar de novo aquela fotografia amarelada que faz a saudade apertar, chorar ao cantar aquela música que fora cantada por outras vozes, sorrir e voltar a ser criança mesmo sem as companhias de outras épocas… Impossível não se emocionar revivendo a própria vida! O espetáculo “Dentro é Lugar Longe” faz exatamente isso: nos permite reviver nossas próprias vidas a partir das vidas de seus personagens…

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Mas, até que ponto estamos falando de personagens?  Evidente que a dúvida é mérito da bela dramaturgia. Entretanto, o trabalho de composição teve como suporte muita pesquisa teórica e metodológica. Foi a partir dos procedimentos da história oral que, após uma formação realizada por pesquisadoras da Fala Escrita e do Núcleo de Estudos em História Oral da USP, a Trupe Sinhá Zózima partiu para uma nova prática. Construir um espetáculo pautado em histórias de vida reais era a meta e os ingredientes estavam ali mesmo – os atores!

O resultado é parecido com a vida – tem realidade, tem ficção, tem invenção e, certamente, muita emoção!

Para além disso, não podemos deixar de enfatizar todo o comprometimento social envolvido neste processo. Propor a utilização de um equipamento público como o ônibus requer sensibilidade para visualizar em meio à multidão, aqueles grupos que o utilizam somente como meio de locomoção. Ao ressignificar o espaço do transporte público, o trabalho de todo o grupo se torna mais sugestivo e criativo – passa a suscitar a possibilidade de ressignificação de muito mais espaços e situações. É um espaço público que passa a ser, de fato, apropriado pelo público.

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Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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