“Dar voz aos oprimidos”? Revisitando o papel do intelectual

Por Marcela Boni

A expressão “dar voz aos oprimidos” ou “excluídos” tem sido fartamente utilizada na maioria – senão todas – as áreas de conhecimento que lidam com a realização de entrevistas. Em muitos destes casos, o termo “história oral” é também adotado enquanto definidor metodológico, mesmo que nem sempre o trabalho esteja afinado com os preceitos da área em questão.

Apesar disto, e talvez inspirado por este estado de coisas, tem ganhado espaço uma discussão que se mostra promissora sobre a pertinência da utilização de tal expressão. Afinal, quem somos nós, além de pesquisadores, para dar voz a alguém? Não seria exatamente o contrário? É importante lembrar que muitas pesquisas somente são possíveis graças a estas vozes “oprimidas” e/ou “excluídas” e que ganha voz com isso são precisamente os pesquisadores.

Certamente, a escolha das palavras não precisa ser vista como intencionalmente negativa. Contudo, é necessário problematizar a questão, sobretudo se temos em vista ideias como as de empoderamento e desvitimização, temáticas recorrentes em estudos das humanidades.

Partindo deste princípio, se temos referências teóricas e metodológicas comprometidas com o protagonismo dos grupos com os quais nos envolvemos durante nossos estudos, não se mostra contraditório um posicionamento quase “salvacionista”?

De acordo com a teoria que embasa a análise do discurso, a voz é algo inerente ao processo de construção narrativa. Assim, todos aqueles que elaboram um discurso possuem voz. Se avançamos neste questão, podemos mesmo considerar que cada ação realizada já configura um discurso.

Assim, mesmo pessoas marginalizadas socialmente têm voz e, a despeito de carências evidentes, são capazes de elaborar seus próprios discursos e sua versão dos acontecimentos e condições que vivenciam.

O que fazemos, então, em nossas pesquisas?

dar voz

Muitos são os termos que poderiam ser elencados, obviamente a partir de critérios afinados com o que se busca enfatizar. Seja qual for a palavra adotada, contudo, alguns pontos contemplam aspectos comuns a muitas pesquisas que se valem de entrevistas. A ideia de visibilidade, por exemplo, confere sentido amplo e condiz, sobretudo, com estudos comprometidos com a publicização das experiências registradas e não somente com discussões estritamente acadêmicas. De fato, tais formatos de pesquisa tendem a projetar as experiências e pontos de vista da comunidade estudada.

E ainda que a projeção seja realmente grandiosa, devemos problematizar nosso papel enquanto intelectuais e revisitar nossas atribuições, ações e compromissos. Não “damos voz” aos oprimidos. Eles já a têm. Mas, quando buscamos conquistar uma história pública e democrática em termos de produção e difusão, certamente fazemos com que estas tantas vozes ecoem e se projetem por espaços até então não trilhados.

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Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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