Em tempos de vídeo, o que fazer com os ouvidos?

Por Marcela Boni

Em tempos em que a história oral vem ampliando significativamente seu espaço em meios acadêmicos e comunitários, a discussão sobre o formato do registro de entrevistas é algo que chama a atenção para aqueles que se envolvem com trabalhos desta espécie.

As questões que envolvem os dispositivos audiovisuais são temas recorrentes e dizem respeito, entre outras coisas, às possibilidades disponibilizadas pelas novas tecnologias. O assunto se aquece a cada novo formato de captação e divulgação de que podemos lançar mão, os quais requerem antes de tudo aprofundamento teórico e metodológico.

Nesta seara, a despeito dos equívocos resultantes de ações pouco projetadas, cabe traçar um panorama sobre o que nos trouxe até aqui. As origens da chamada moderna história oral e seus desdobramentos nos oferecem elementos pertinentes para uma discussão que se coloca à contrapelo.

Tendo como ponto de partida nos trabalhos de história oral o recurso do registro em áudio, como problematizar na atualidade as vantagens e peculiaridades deste suporte, quando há variedade indiscutível nos recursos de captação de entrevistas e sua publicização?

A reflexão acerca deste assunto depende de um exercício que, em primeiro momento, parece simples. Basta acompanhar uma gravação em vídeo e outra somente em áudio. Contudo, quantas são as impressões que esta experiência pode causar!

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Ao assistir a uma entrevista gravada com o recurso audiovisual, temos a possibilidade de “conhecer” o protagonista da história e, em muitos casos, ver suas características físicas e detalhes de sua forma de expressar a experiência contada. 

Entretanto, o aparato técnico que envolve tal procedimento tem, em muitos casos, influência justamente nos resultados obtidos. Isto pode ser verificado em elementos que vão da escolha das roupas e posturas à maneira como o entrevistado se coloca diante da câmera. Sem dúvidas, podemos nos deparar com discursos prontos previamente e muito bem articulados, mas também com situações de intimidação e constrangimento. Em ambos os casos, a influência dos aparatos técnicos deve ser considerada tanto em seus aspectos positivos quanto negativos.

As possibilidades de publicizacão, neste caso, também fazem parte das escolhas procedimentais e certamente há uma ampliação do alcance público destas narrativas, sobretudo a partir de edições e da utilização do material em outras atividades educativas e produções culturais variadas.

Porém, basta uma breve volta às “origens” para o surgimento novas reflexões. Ouvir uma história é muito diferente de assistir a uma narração. E aqui falamos do ato de ouvir desprovido das responsabilidades inerentes ao trabalho do pesquisador que conduz uma entrevista. Pensamos, neste momento, no aspecto da recepção pública das narrativas. E quantas são as impressões causadas pela simples tarefa de ouvir!

Em momento marcado pela proliferação das imagens, o ato de se concentrar para ouvir é verdadeiramente um desafio. Exige envolvimento e criatividade, um exercício de imaginação. Tarefa na qual estão envolvidos todos os sentidos. Podemos mesmo dizer que se trata de mais um nível do processo transcriativo, em que diferentes interpretações passam a fazer parte do jogo de significados.

Ouvir uma história pela experiência de uma gravação em áudio implica em refletir sobre a idéia de sugestão. O que é dito pelo narrador se apresenta como fonte indiscutível da construção de imagens, sempre inéditas porque em relação íntima com o repertório de informações e impressões do ouvinte.  Há, neste processo, o convite para que o o espectador participe do processo de um imaginário coletivo ativamente, através da interação que estabelece com aquela história cujos sons se constituem em imagens.

A esta participação diferenciada podemos incluir ainda outro apontamento, que nos convida a pensar sobre a seguinte questão: “Seria a imagem que conduz à narrativa ou a narrativa que conduz à imagem?”. Podemos afirmar que a experiência auditiva remete a inúmeras possibilidades imagéticas que nos são vetadas com a apresentação proporcionada pelo audiovisual. Também interessa pensar na existência de uma participação menos indispensável do interlocutor quando a imagem nos conduz à história, embora nos desvende quem é o dono ou dona daquela experiência.

Diante de tais possibilidades, os recursos contemporâneos nos permitem transitar por entre opções, as quais podem ser mais ou menos adequadas em função de temas e objetivos de pesquisas. De toda forma, esta ampliação técnica indica novas necessidades em termos teóricos e metodológicos, os quais não devem ser ignorados pelos pesquisadores.

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Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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