A história oral e o retrato multifacetado das histórias dos lugares: o bairro de Pinheiros

Por Marcela Boni

Finalizar um trabalho de história oral nem sempre significa concluir a realização das entrevistas previstas. Ao contrário, ainda que seja este um momento de definições fundamentais, há sempre o “depois”. Escrever sobre as etapas do projeto e o trabalho de campo é ferramenta norteadora, porém o que fazer com todo o material coletado?

Encontramo-nos exatamente neste momento. O projeto sobre a história do bairro de Pinheiros, realizado pela Fala Escrita nos últimos meses, acaba de encerrar sua fase crucial, a coleta de histórias de pessoas que vivem ou viveram nestes espaços. Lugares de memória e em constante transformação, cuja relevância pode ser percebida com ênfase cada vez maior à medida em que conhecíamos diferentes narradores e suas experiências. O cenário das histórias era aparentemente o mesmo – as ruas, o Largo da Batata, a igreja Nossa Senhora de Mont Serrat, o Mercado, as casas noturnas, o Colégio Fernão Dias… Mas, quantas eram as temporalidades!

A seleção dos entrevistados é sempre um processo delicado. Contemplar diferenças mostra-se de fundamental importância, uma vez que o que se busca é um retrato multifacetado desta história. Assim, mulheres e homens de diferentes gerações, formações e convicções foram nossos colaboradores nesta iniciativa. Cada um, a partir de seu lugar, nos mostrou seu bairro de Pinheiros e, assim, passamos e construir o nosso. Este, certamente o resultado das tantas histórias que ouvimos e que nos ressignificaram cada espaço por onde passamos.

Imagem produzida pela Trupe Olho da Rua

Imagem produzida pela Trupe Olho da Rua

As ruas Teodoro Sampaio e Cardeal Arcoverde passaram a ser também aquelas por onde passavam os bondes. A dos Pinheiros, de terra e paralelepípedo outrora, tornou-se aos poucos centro gastronômico da cidade e importante ponto de casas noturnas e badalação, situação somente modificada com a mudança de foco para a Vila Madalena.

O Largo da Batata e suas adjacências, importante centro comercial desde a extinta Cooperativa Agrícola de Cotia, mostrou-se espaço de incerteza, sobretudo para antigos comerciantes, que veem na revitalização impulsionada também pelo metrô a perda de um espaço há muito tempo referência para suas atividades. A imponência da verticalização indicando uma nova paisagem, mudança sentida pelo lado positivo e negativo. Novas preocupações surgindo, como questões ambientais e de qualidade de vida.

Pinheiros, através das falas de nossos colaboradores, é também aquele lugar que de tanto mudar não é mais sentido como a antiga “casa”, a perda de identidade aflorada pela instalação de redes comerciais que não mais lembram aquele contato pessoal entre comerciantes e moradores. Não se negam as vantagens das mudanças vindas com a modernização, mas muito disso fica agora somente na lembrança.

Mas, Pinheiros também se descortinou aos nossos olhos como o bairro cosmopolita, privilegiado como morada por estudantes e profissionais estrangeiros, dada sua proximidade com o centro de São Paulo, além da grande variedade de serviços oferecidos em todas as áreas. Passou a ser, ainda, o lugar da diversidade, onde as diversas tribos têm seu espaço e convivem com harmonia suas diferenças e orientações.

O metrô, grande mote de nossa pesquisa, foi apontado por todos como uma mudança importante e que, a despeito dos pontos negativos, representa uma necessidade urbana e que pode facilitar não somente o deslocamento dos moradores locais, mas contribuir com a democratização dos espaços da cidade, permitindo que pessoas de outros lugares possam ver e viver experiência também ali, em Pinheiros.

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Sobre falaeescrita

Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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