Ouvir e contar histórias: possibilidades narrativas na contemporaneidade

Por Marcela Boni

Ouvir e contar histórias são aspectos inerentes à humanidade desde tempos imemoriais. Podemos nos remeter aos moldes mais distantes cronologicamente desta prática até os mais atuais e que lançam mão cada vez com maior intensidade das novas tecnologias.

Tradição e modernidade se misturam e observamos ao longo do tempo um interesse permanente em conhecer histórias em suas mais variadas modalidades. Para além da formalidade do mundo acadêmico, em que teorias e métodos amparam pesquisas sobre os processos históricos, a sociedade permanentemente aponta demandas por conhecer a experiência humana.

Se durante muito tempo foram as figuras públicas o foco da atenção do grande público, as histórias de vida das pessoas “comuns” sempre tiveram espaço em sociedades marcadas pela oralidade, em que a experiência humana continuamente fora fonte de ensinamentos e descobertas. A figura do griot é exemplar no caso de diversos grupos sociais africanos e atualmente tem ganhado espaço, inclusive, em propostas oferecidas pelas universidades.

Ao nos direcionarmos para a comunicação de massa a tendência não é diferente. A despeito da qualidade no trato com as histórias e com seus protagonistas, podemos verificar no rádio, na televisão, no cinema e em tantos outros meios um apelo crescente à realidade vivenciada por sujeitos em seu cotidiano.

A história oral, por sua vez, apresenta-se como procedimento utilizado por grande número de profissionais de diferente áreas do conhecimento, que buscam nesta metodologia um tratamento apropriado para lidar com as histórias de vida. Seu aspecto amplamente transdisciplinar nos convida a refletir acerca das conexões entre formas diferentes de produzir conhecimentos, mas que têm em comum a mesma fonte de inspiração: a experiência humana, seus conflitos e suas conquistas.

A realização de entrevistas, enquanto procedimento compartilhado apresenta diferenças mas, mais que isso, nos aproxima enquanto sujeitos que ouvimos e contamos histórias. A identificação não para por aí! O comprometimento em tornar públicas as experiências das pessoas requer antes de tudo o compromisso em fazê-lo de forma competente e sensível.

Sendo mais formal e acadêmico ou literário e poético, os trabalhos com narrativas na contemporaneidade têm produzido resultados que demonstram novas formas de conhecer os processos sociais e históricos e chama atenção a multiplicidade tanto na coleta de material quanto em suas formas de publicização.

Fala Escrita recentemente iniciou um frutífero diálogo com projetos que se apóiam tanto na criação de lugares de memória e elaboração de performances teatrais, quanto na produção de iniciativas que mesclam entrevistas, gêneros literários e, sobretudo, atestam o compromisso com a pluralidade de pontos de vista e respeito à diversidade.

Assim foi com o projeto Impressões Humanasidealizado por Marcia Nicolau e que mistura a realização de entrevistas de história de vida com a produção literária pautada numa visão humanizada das narrativas. A poeticidade se agrega à pesquisa e os resultado nos aproxima do modelo novelístico.

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Os protagonistas das minisséries literárias se deparam com uma nova versão de suas vidas. Apresentadas em capítulos, são narrativas que indicam os episódios que marcaram tanto a vida dos narradores quanto da ouvinte-narradora. As imagens selecionadas ilustram momentos especiais e o resultado disso tudo é surpreendente.

A parceria que se travou entre a Fala Escrita e o Impressões Humanas foi além das expectativas e pesquisadoras da Fala Escrita se tornaram protagonistas da última minissérie literária. A experiência mesclou a troca de informações e emoções, elementos que contribuíram para novas reflexões práticas e teóricas sobre o fazer da história oral e sobre os caminhos que se abrem para as narrativas na contemporaneidade.

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Sobre falaeescrita

Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

2 respostas para “Ouvir e contar histórias: possibilidades narrativas na contemporaneidade

  • otto

    me gusta esta linea de trabajo me acerco a ella desde la antropología narrativa que ya tiene a investigadores chilenos proponiendo su ampliación y uso en la vida cotidiana….

    • falaeescrita

      Olá, Otto! Que bom receber seu comentário e saber que não estamos nadando sozinhos neste mar! Se quiser ou puder encaminhe links destes trabalhos de pesquisadores chilenos, vai ser um grande prazer estabelecer este contato, e passar a conhecer um pouco mais do que é produzido por aí!

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