História oral temática: particularidades metodológicas

Por Marcela Boni

É comum nos referirmos à história oral e imediatamente estabelecer relações com as histórias de vida dos entrevistados. A centralidade da entrevista e sua forma de realização diferenciada e pautada em aspectos éticos de fato confere especial atenção à narrativa dos colaboradores.

Apesar disso, é preciso considerar a existência de diferentes gêneros em história oral, o que implica na adoção de procedimentos específicos. O gêneros em história oral, de acordo com MEIHY & RIBEIRO (2011) são: história oral de vida, temática, testemunhal e tradição oral.

A escolha pelo gênero que servirá de base para o trabalho deve ser indicada desde a elaboração do projeto de pesquisa. A importância de tal definição, por sua vez, apresenta desdobramentos que comprometem todo o andamento do estudo proposto. Para além da evidente diferença de objetivos, os gêneros de história oral guardam particulares na condução das entrevistas e, consequentemente, nas posteriores análises que o material coletado pode proporcionar.

É interessante notar que existe certa resistência por parte de pesquisadores que privilegiam a história oral de vida enquanto a melhor forma de desempenhar trabalhos na área. Não é raro que desvalorizemos a utilização de questionários, por exemplo.

Contudo, importa lembrar a ampliação dos usos da história oral em diferentes meios, o que afeta diretamente aspectos relacionados à profissionalização de pesquisadores que se especializam na área. Diferentes objetivos podem ser evocados e, para cada situação, mostra-se mais conveniente a utilização de um ou outro gênero de história oral. Nada impede, contudo, que diversos trabalhos apresentem características de mais de um gênero, os quais podem em muitos casos se complementarem.

aditiva[1]

 

A história oral temática, por sua maior proximidade com soluções encontradas em outras áreas do conhecimento, exige maior clareza em seus procedimentos específicos. Além disso, é este o gênero que mais atende às demandas de grande número de projetos, desde aqueles desenvolvidos academicamente até os que têm ganhado espaço em instituições e comunidades.

Um dos pontos mais relevantes diz respeito à preparação das entrevistas e sua condução. Se em trabalhos que se apóiam em histórias de vida privilegia-se o fluxo narrativo do colaborador e a utilização de estímulos, em história oral temática utiliza-se o recurso de roteiros e questionários que delimitam os temas a serem abordados durante a entrevista.

Percebe-se ainda maior interferência do entrevistador, que direciona os temas de interesse. Tais diferenças não significam que há interrupções bruscas na fala do entrevistado, nem tampouco falta de respeito por sua subjetividade. Contudo, são importantes particularidades, que demonstram a necessidade indiscutível de uma base teórica e metodológica para a realização de tais projetos.

Há ainda, em muitos casos, a análise do material produzido em diálogo com outros documentos. “Dado seu caráter específico, a história oral temática ressalta detalhes da história pessoal do narrador que interessam por revelarem aspectos úteis à instrução dos assuntos centrais.”

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Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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