História oral e sensibilização do conhecimento: mudança de paradigmas e profissionalização

Falar em história oral, memória e história de vida cada vez mais tem se tornado algo corriqueiro. Os estudos empreendidos nas universidades demonstram que estes são temas que têm tido atenção contínua. Entretanto, ainda são poucos os que se preocupam com o aspecto profissional dessa prática.

Trazer à tona questões relacionadas ao cotidiano e às experiências das pessoas é parte de uma mudança de paradigmas nos estudos das Ciências Humanas que nos remete aos anos 60. Momento marcado por transformações que introduzem novos atores para o cenário da História.

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Ainda que haja resistências no que diz respeito à cientificidade desses estudos, paulatinamente foram sendo conquistados novos espaços. A abertura democrática no Brasil foi elemento fundamental para que pesquisas sobre índios, mulheres, negros, homossexuais, pessoas com deficiências e minorias assim entendidas por condições econômicas, pudessem se manifestar publicamente. Neste sentido, os trabalhos de história oral demonstraram novo potencial acerca de temas e objetos de pesquisa.

Atualmente, vemos a evidência destas transformações materializadas no interesse crescente de diversos setores da sociedade por trabalhos que têm como base teórica os procedimentos de história oral. Falamos tanto de comunidades interessadas em registrar suas experiências como de instituições que buscam produzir materiais que contam suas trajetórias a partir de novos parâmetros, estes provenientes das pessoas que vivenciaram sua história e não somente de documentos burocráticos.

Com isso, ampliam-se as possibilidades profissionais para aqueles que se dedicam aos estudos do cotidiano e que se apoiam em narrativas para produzirem novos documentos e conhecimentos.

A Fala Escrita tem se destacado no desenvolvimento de projetos que estão atentos a esta mudança e as atividades realizadas contemplam não somente a demanda social evidenciada, mas também um compromisso com a sensibilização e humanização na produção de conhecimentos.

A profissionalização dos pesquisadores nas áreas afins é algo que merece atenção e acreditamos, com nosso fazer, estimular esta tendência que só esperamos crescer!

Fazer um balanço dos trabalhos representa não apenas intensificar o que foi dito, mas substanciar o que pode ser feito. Motivo de satisfação, nossos trabalhos indicam nova abordagem e comprometimento.

As parcerias com museus nos colocam em situação mais que interessante, pois intensificam uma mudança na visão acerca do que são esses espaços, os quais se pluralizam e constróem novos acervos, preocupados não somente com a cultura material, mas também com os significados atribuídos aos materiais e às experiências humanas. Os relatos orais inovam e dão margem a novas e inéditas reflexões sobre a história.

Assim se fizeram parcerias com o Museu Paulista, que agregou à história oral elementos de arqueologia; o Museu do Café, cuja investida busca apresentar novas perspectivas sobre a História do Brasil e do porto de Santos, palco para tantos outros desdobramentos; o Museu da Imigração, que tem como nova proposta abarcar todas as formas de deslocamentos humanos, em que a história de vida é recurso, se não único, imprescindível para tentar entender as migrações, cujas particularidades e sensibilidades requerem atenção e tratamento singular.

Para além das ações que envolvem locais de memória assim considerados pela comunidade geral, ressaltamos as iniciativas que estes mesmos espaços ofereceram para uma formação e capacitação tanto de seus quadros de funcionários quanto para a comunidade. Importa enfatizar as pesquisas que desenvolvemos e que tiveram desdobramentos significativos junto a Museus e Secretarias Municipais de Cultura.

Projeto empreendido pela Secretaria dos Direito da Pessoa com Deficiência (SDPD) reuniu cerca de 40 entrevistas de histórias de vida que se desdobraram em exposição e material de acervo que documentam os 30 anos do Ano Internacional da Pessoa com Deficiência. Mais que entrevistar as pessoas que participaram desse processo, o projeto se valeu da experiência da pesquisadora Suzana Ribeiro para absorver experiências que, a despeito de serem adversas, trouxeram novas cores ao tema das pessoas com deficiência.

Ressaltamos ainda as iniciativas educativas que tiveram parcerias como a Secretaria de Estado da Cultura e Secretarias municipais dos municípios de Barra Bonita, Jundiaí, Araçatuba, Andradina, Pindamonhangaba e Salto Grande. Os resultados podem ser visualizados em sites e blogs criados em função dessas atividades e que indicam seu potencial de multiplicação.

Para além de iniciativas governamentais, nos valemos de promissoras parcerias com a Códice, cujos projetos nos levaram à Duke Energy e, paralelamente, a reflexões acerca de formas de implementação de projetos de história oral em ambiente institucional.

Complementando ações institucionais e comunitárias, novos caminhos se abriram através de trabalhos junto a grupos artísticos. Este é o caso da atividade realizada com a Trupe Sinhá Zózima, cujo processo de criação dramatúrgica tem buscado nos procedimentos da história oral novas formas de produzir narrativas teatrais. Vale ressaltar o comprometimento social que este fazer demonstra, uma vez que propõe captar nas experiências cotidianas dos sujeitos a fonte para a publicização de histórias de vida.

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Temos, com isso, apenas mostra a respeito de nossos fazeres, os quais se inserem em nova tendência procedimental, mas que buscam mais que isso, maior aprofundamento de saberes, bem como intensificação de aspectos subjetivos das experiências que, uma vez registradas com cuidado e sensibilidade, permitem uma produção de conhecimentos  comprometida com teoria e prática.

Assim, fazemos um balanço que reúne reflexão e ação. Acompanhe nossas atividades!

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Sobre falaeescrita

Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

5 respostas para “História oral e sensibilização do conhecimento: mudança de paradigmas e profissionalização

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