Entre o audiovisual e o registro escrito: substituição ou complementaridade?

É comum, ao falar em história oral, nos remetermos a sua origem no que poderíamos identificar como a modalidade “moderna”, uma vez que desde sempre a História tem sido construída a partir da oralidade.

Contudo, a imposição da escrita enquanto versão oficial desta História se projetou indiscutivelmente ao longo do tempo, valorizando não somente os documentos cujo registro era escrito, mas sobretudo aqueles que dominavam a leitura e a escrita.

O nascimento da moderna história oral atrelado às possibilidades técnicas pós Segunda Guerra Mundial, teve no gravador de áudio seu meio de captação e no potencial midiático das rádios sua difusão. O interesse pelos relatos orais e pelas experiências vivenciadas ganhou novas dimensões capazes de estimular o interesse pelas histórias e memórias de grupos marginalizados socialmente e, em muitos casos, excluídos dos registros oficiais e escritos.

Este é um dos muitos aspectos que conectam a história oral a um fazer mais democrático. Ao valorizar os saberes transmitidos oralmente, passa a ser ampliado um campo de conhecimentos ainda por ser aprofundado.

Discussão complementar diz respeito à aproximação dos procedimentos da história oral com as tecnologias de seu tempo, o que intensifica o diálogo que se abre acerca dos usos de equipamentos audiovisuais, tanto no registro das narrativas como nas novas possibilidades de disseminação de informações e experiências.

Embora sejam estes pontos cruciais do debate que emerge dos trabalhos em história oral é importante ressaltar a manutenção dos procedimentos de transposição de códigos. Sendo assim, as histórias narradas oralmente e captadas seja em áudio ou audiovisual são, na grande parte das situações, transcritas. Tem-se, assim, o registro escrito daquela experiência, a partir do qual podem ser gerados novos documentos, como os textos transcriados, por exemplo.

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Neste sentido, surge nova preocupação, que remonta à necessidade da documentação escrita como garantia de que aquelas narrativas não se perderão. Isto se dá pois o suporte de áudio e vídeo não possui a mesma durabilidade e requer novo tratamento dos acervos, o que merece atenção especial. Aqui nos interessa refletir sobre a importância do registro escrito, mas não como superior a outras manifestações. O que se salienta é a importância de produzir material que poderá ser posteriormente a fonte de novas reflexões.

Cabe ainda lembrar as diferenças existentes na apreciação destes diferentes tipos de suportes. Paralelamente, a indiscutível proliferação de ações que buscam produzir gravações de histórias sobre os mais diversos assuntos. O considerável acúmulo de material produzido pode, com isso, significar seu total desconhecimento público, sobretudo, se estiverem descolados de projetos sustentados em objetivos claros e socialmente relevantes.

Pensemos, por exemplo, como seria assistir cerca de 30 entrevistas de aproximadamente três horas cada uma que estejam vinculadas a um mesmo projeto. Possivelmente, o material acumulado servirá tão somente para pessoas interessadas especificamente no tema subjacente. Com isso, surge nova demanda para que tais narrativas tenham alcance público, que está relacionada com o processo de edição de vídeos.

Este novo formato conferido à entrevista de história oral, entretanto, contraria o compromisso de muitos pesquisadores em manter a íntegra das narrativas, o que nos faz retomar menos a substituição de formas de captação e mais a exploração de seu potencial de complementaridade. Assim, registros em áudio e vídeo podem ter seu potencial de divulgação pública evidenciado ao mesmo tempo que os textos escritos permitem a integralidade das narrativas, a garantia de sua guarda e a continuidade de procedimentos metodológicos caros à história oral.

Por Marcela Boni

Sobre falaeescrita

Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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