Entrevistas e transcriação: intenções da fala e comprometimento com as histórias de vida

O interminável e indispensável debate sobre transcriação segue rendendo reflexões. Para quem está familiarizado com o termo e, mais que isso, com essa forma de produzir textos escritos a partir de entrevistas, sabe o quanto ele é envolto em polêmicas.

A mais resistente delas se baseia na imcomparabilidade entre o que foi dito pelas pessoas presentes durante a entrevista e o texto escrito que se oferece à leitura de um público maior. Esta consideração é verdadeira à medida que a proposta não é uma transposição de códigos, mas tanto quanto possível, de sentidos e intenções presentes no ato da fala.

Temos, com isso, grupos que se pautam nas transcrições literais como forma de “documentar” oficialmente e “veridicamente” o que foi dito. Sem dúvida, etapa necessária no trabalho que tem início com uma interação intersubjetiva (a entrevista) e que pode se projetar em objetivos diversos, tais como a composição de bancos de histórias, a montagem de acervos em centros de memória e instituições, a análise de situações sociais, além da produção acadêmica.

No entanto, quando os objetivos da realização de projetos que se utilizam de procedimentos de história oral ou se baseiam na realização de entrevistas, tem como horizonte a recepção pública dos resultados, outras são as possibilidades de constituição documental que podem ser exploradas.

A título de exemplo, o que pode ajudar a esclarecer alguns pontos, em recente projeto desenvolvido pelo Museu da Imigração sob a consultoria da Fala Escrita, foram realizadas cerca de 25 entrevistas com representantes de diferentes comunidades de imigrantes, a maioria oriundos de países cuja língua nacional não é o português.

Desnecessário mencionar a imensa variedade de sotaques e, em alguns casos, como os dos imigrantes mais recentes, as grandes dificuldades em pronunciar determinadas palavras e mesmo para expressar através da fala suas ideias, convicções e experiências.

Esta pesquisa tem diversos desdobramentos: a ampliação do acervo do Museu da Imigração, a abordagem de novas temáticas, como é o caso das migrações contemporâneas, além de uma exposição de longa duração que será inaugurada juntamente com as novas instalações do Museu, prevista para o ano de 2013.

Sendo assim, as entrevistas são gravadas em suporte audiovisual e, posteriormente, editadas para exposição. Além disso, todas são transcritas literalmente e transcriadas. A importância da transcriação, a qual pode ser suscitada independente da especificidade do projeto, neste caso mostra-se necessidade ainda mais imperiosa.

Uma vez que o objetivo é oferecer ao público (da comunidade em geral até pesquisadores do tema) material em que estão registradas as experiências destas pessoas e seus grupos nos processos de deslocamentos no mundo contemporâneo, essas histórias somente produzem o efeito desejado se forem compreendidas em seus sentidos e intenções, o que pode ser aproximado com o recurso transcriativo.

Este trabalho cuja sensibilidade é exigida constantemente se aproxima de um mergulho na história de vida do entrevistado, com a tentativa de compreender não somente o que foi dito durante a entrevista, mas como os episódios narrados podem ser encadeados de modo a conferir ao texto inteligibilidade. Sem pieguice, trata-se antes de um tipo de comprometimento ético com a vida que passa a ser pública e que poderá resultar em questionamentos que dizem respeito à sociedade contemporânea.

Por Marcela Boni

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Sobre falaeescrita

Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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