História oral, subjetividade e política pública: mediação e profissionalização

Diante da visível tendência da utilização do termo “história oral” para definir grande número de trabalhos em diferentes áreas do conhecimento, cabe-nos o seguinte questionamento: “Quem de fato exerce a história oral como profissão?”. A pergunta pode parecer ingênua, mas as reflexões aqui apresentadas procurarão mostrar a complexidade inerente a tal interrogação.

A utilização de metodologias variadas que se valem da realização de entrevistas para finalidades acadêmicas, ou não, é uma realidade em muitos aspectos positiva. As variações nos usos da história oral, no entanto, merecem atenção. É importante, num primeiro plano, identificar que tanto no Brasil como internacionalmente existem diferentes abordagens de história oral. A que nos referimos no momento diz respeito à adotada pelo Núcleo de Estudos em História Oral da USP, cuja definição é apropriada para os argumentos que serão expostos

História oral é um conjunto de procedimentos que se inicia com a elaboração de um projeto e que continua com o estabelecimento de um grupo de pessoas a serem entrevistadas. O projeto prevê: planejamento da condução das gravações com definição de locais, tempo de duração e demais fatores ambientais; transcrição e estabelecimento de textos; conferência do produto escrito; autorização para o uso; arquivamento e, sempre que possível, a publicação dos resultados que devem, em primeiro lugar, voltar ao grupo que gerou as entrevistas. (MEIHY; HOLANDA, 2007, p. 15).

A partir do conceito acima, procuramos afunilar a produção, a fim de corroborar a proposição de uma profissionalização do fazer da história oral. Neste sentido, o ouvir o outro não tem somente caráter complementar, mas de comprometimento com a proposição de políticas públicas.

É neste momento que muitos se questionam… “Mas como se comprometer com algo tão aquém das possibilidades? Afinal, podemos somente com o que temos em mãos.

O que se propõe diz respeito justamente a uma transformação na relação entre saber e fazer. A questão é possibilitar uma forma de produção de conhecimentos que esteja sim aliada à discussão acadêmica, mas que se apresente como possibilidade para além da Academia.

As histórias das comunidades com as quais nos relacionamos durante nossas pesquisas merecem mais que nossas dissertações e teses. Ainda que enquanto simples intelectuais não consigamos ir além desses muros, cabe salientar a necessidade de uma profissionalização.

A mediação se mostra terreno promissor e, sem levar em conta situações polarizadas, é importante considerar o potencial do ouvir o outro e, mais que isso, ouvir as partes que constituem as realidades vivenciadas.

Por Marcela Boni

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Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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