História oral: um trabalho para além da entrevista

Muitos pesquisadores se interessam pela história oral e isto se dá nas mais diferentes áreas de atuação. Tendo o entrevistado como colaborador, informante, depoente, interlocutor ou objeto de estudo, sabe-se que é a entrevista o ponto central destes trabalhos.

São muitos os procedimentos que devem ser adotados para que se fale em história oral. Entretanto, ampliando a noção do termo, temos diversos estudos que se apóiam no registro de narrativas para fins que vão da ilustração de hipóteses à análise de temas e reflexões teóricas. Em muitos casos, as gravações dão origens a novos documentos, sejam eles escritos ou, mais recentemente, audiovisuais. Neste sentido, as transcrições, textualizações e transcriações são instrumentos para que se estabeleçam tais registros.

Mas, o trabalho de história oral não se esgota na entrevista. Nem tampouco nas transcrições que reproduzem o código oral na escrita. Falamos de uma complexa relação que se estabelece entre entrevistador e entrevistado, na qual estão em jogo interesses diversos, e que não são apenas os da pesquisa em andamento.

O trato com pessoas ou com o que chamamos “documento vivo” demanda posicionamentos éticos que precisam ser considerados. Neste ponto, a mediação e a negociação são instrumentos indispensáveis para que os resultados obtidos possam satisfazer as expectativas de todos os envolvidos.

Quando falamos em histórias de vida tais aspectos são ainda mais intensos, afinal é a história de alguém que se tornará pública para que a pesquisa da qual faz parte possa se concretizar. O que fazer quando o entrevistado não concorda com a divulgação da narrativa completa? Que medidas devem ser tomadas quando ao pesquisador é solicitada a revisão do que foi gravado? A autorização concedida por escrito pelo entrevistado é suficiente para que se desconsidere seu pedido de revisão?

A dificuldade em responder tais questões é inerente ao processo de trabalho em história oral. Diante disso, procuramos a cada caso buscar as melhores alternativas de forma colaborativa.

Em recente projeto desenvolvido em parceria pela Fala Escrita e o Museu da Imigração, ocorreu um caso que pode servir como exemplo. Trata-se de uma entrevista em que a colaboradora, depois de conceder sua autorização pediu para ser excluída do projeto. O motivo apontado foi a preocupação em ter momentos muito pessoais e dolorosos da narrativa divulgados para um público desconhecido, o que ultrapassaria os objetivos iniciais do registro, o qual deveria se concentrar na experiência da imigração. Dada a relevância de sua participação e os procedimentos adotados, buscou-se uma negociação em que ambas as partes pudessem ser consideradas. A solução para este caso foi oferecer à entrevistada o vídeo gravado e sua transcrição para que a entrevistada pudesse indicar os momentos que gostaria que não fossem a público. O resultado oferecido, por não comprometer a narrativa como um todo foi aceito pelos coordenadores da pesquisa e utilizado como base para a edição do material.

Certamente tratou-se de um processo trabalhoso e delicado. Porém, prevaleceu o respeito pela história do outro e pelos objetivos do projeto. O produto final, para além da entrevista, permitiu a aplicação de novas estratégias na produção de um tipo de conhecimento que se dá de forma colaborativa.

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Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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