Transcriação em história oral e a economia das palavras

O trabalho de transcriação, característico de algumas abordagens da história oral brasileira, tem suas origens em reflexões relacionadas à tradução. Foi a partir de escritos dos irmãos Campos, que discutem a tradução enquanto um processo criativo em que pesam elementos que vão além da simples substituição de termos de uma língua para outra, que o historiador José Carlos Sebe Bom Meihy, fundador do Núcleo de Estudos em História Oral da USP, introduziu ao fazer da história oral a ideia de transcriação.

Trata-se de um ponto que vem acionando posicionamentos diversos por parte de pesquisadores que se utilizam de entrevistas. A grande polêmica gira em torno de uma suposta falta de objetividade no texto transcriado, à medida que este não reflete exatamente as palavras proferidas pelo entrevistado.

Tal objetividade se encontraria na transcrição literal da fala. Entretanto, falamos se não de duas línguas distintas, como no caso da tradução, de dois códigos cujas origens são amplamente diferentes. Ao falar fazemos uso de vícios de linguagem, repetimos termos e passagens que se mostram importantes no momento, ficamos em silêncio por motivações diversas, enfim, nos utilizamos do código oral e suas especificidades. A transcrição literal de uma fala, por sua vez, ilustra estas características e a leitura do texto produzido tende a ser cansativa e, em muitos casos, dificulta o entendimento de situações que foram contadas pelo entrevistado.

 

Ainda que este documento tenha sua importância enquanto registro, basta indagar ao entrevistado se este pudesse escrever o que fora dito oralmente, o faria daquela maneira. O pesquisador que se apoia nos procedimentos da transcriação realiza um trabalho diferenciado e comprometido. Mas, seu compromisso não está na reprodução de sons, mas de sentidos. E, com isso, sua presença se faz sentir no processo de colaboração que perpassa a transcriação.

Para além dos aspectos éticos envolvidos neste tipo de atuação, aqui abordamos outra questão cuja relevância nem sempre é ressaltada. Trata-se de uma minuciosa investida nas possibilidades oferecidas pela escrita.

A transcriação não é simplesmente uma edição (já que a ideia subjacente não está relacionada a cortes ou mesmo a considerações acerca do que pode ser julgado mais ou menos importante). Falamos de uma tradução do texto oral para o escrito e, desta forma, ao nos apoiarmos na escrita, utilizamos abundantemente seus recursos.

Conjunções, preposições e nova pontuação conferem ritmo e valorizam os episódios narrados. Da mesma forma, buscam concatenar os momentos que contados oralmente, nem sempre estão ligados de forma inteligível para uma leitura. Temos verdadeira economia de palavras e, paralelamente, profunda valorização de sentidos.

Os trabalhos realizados pela Fala Escrita, por sua amplitude e compromisso com os entrevistados e realizadores, tem como suporte teórico os procedimentos da história oral e as diferentes etapas do processo de registro de histórias de vida. Além das gravações em suporte audiovisual, os documentos produzidos são as transcrições literais mas, também, os textos transcriados. Os procedimentos adotados podem, com isso, oferecer diferentes possibilidades aos pesquisadores e interessados nos temas abordados nos trabalhos desenvolvidos.

 

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Sobre falaeescrita

Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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