Lançamento de livro da Coleção Testemunhos aborda luta contra o nazismo

Fonte: Agência USP de Notícias

Durante a Segunda Guerra Mundial, o judeu polonês David Lorber Rolnik fugiu do nazismo e do stalinismo, foi prisioneiro na Sibéria, enfrentou frio, fome, humilhações e a perda da família. Ao escrever a biografia do pai, a jornalista Blima Rajzla Lorber contabilizou catorze situações em que o patriarca quase morreu. Para celebrar essa insistência em sobreviver, ela e o irmão, o também jornalista Szyja Ber Lorber, escreveram o livro “As Catorze Vidas de David – O Menino que Tinha Nome de Rei” (Editora Sefer, 304 páginas).

O livro faz parte da Coleção Testemunhos, projeto do Arquivo Virtual do Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah) do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O lançamento será no próximo dia 9 de agosto, às 19 horas, na Livraria Cultura do Shopping Curitiba (R. Brigadeiro Franco, 2.300, Curitiba) e em 16 de agosto, às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073, Cerqueira César), em São Paulo.

“Acreditamos que este livro mostra aos leitores até onde a intolerância e o preconceito podem levar. É uma maneira de contribuir para que genocídios não voltem a acontecer”, destaca Blima. Para Szyja Ber Lorber, “O livro é um alerta sobre os males que as perseguições trazem para a humanidade. Outros povos, países e religiões sofreram e ainda sofrem com isso. É assustador saber que em pleno século 20 tivemos tentativas de extermínio em Ruanda”, aponta o jornalista, referindo-se ao genocídio ocorrido no país africano em 1994, quando cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas devido às diferenças étnicas entre os povos tutsi e hutu. “E agora isto está acontecendo no Sudão”, complementa.

Coleção Testemunhos

De acordo com a professora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do LEER, a Coleção Testemunhos investe, atualmente, na recuperação das histórias daqueles que testemunharam a intolerância praticada pelos nazistas e países colaboracionistas. “Mas também está aberta a todos os testemunhos que expressem situações de intolerância e resistência política, ética religiosa, cultural, etc”, aponta. “Esses testemunhos são verdadeiras doações para a história, pois ‘reza o ditado’: um povo sem história é um povo sem identidade.”

Dentro da Coleção Testemunhos já foram lançados os livros “Vida e luta de uma sobrevivente do Holocausto”, de Sabina Kustin (Humanitas); e “Nos campos da memória”, de Rosana Kozuchowicz Meiches (Humanitas).

Marcha da morte

David Lorber Rolnik nasceu em Chelm, Polônia, em 1920. Sua vida mudou em 1° de setembro de 1939, quando começou a Segunda Guerra Mundial e a União Soviética invadiu a cidade, a partir de um acordo firmado com os nazistas. Semanas depois, quando as tropas comunistas saíram de Chelm, David Rolnik foi com eles, fugindo dos nazistas. Retornou dias depois a fim de buscar a família. Os nazistas haviam ocupado a cidade e ordenaram aos judeus do sexo masculino que se apresentassem para trabalhar. Mas era, na realidade, a Marcha da Morte, uma caminhada que levou quatro dias sob o rigor do inverno sem comida e água. Primeiro, em direção a Hrubieszów, a 50 quilômetros de Chelm, e depois até Sokal, na fronteira com a Ucrânia. Os que caiam eram mortos impiedosamente. “Dos 2.600 homens que marcharam, apenas uns 200 sobreviveram. Meu pai foi um deles”, conta Blima.

David Rolnik conseguiu cruzar a fronteira da Ucrânia, mas foi preso pelos soviéticos. Na juventude, ele havia sido militante de um partido político socialista (o Bund) e por conta disso corria novamente risco de vida. Foi enviado para gulags na Sibéria, que eram campos de trabalho forçado da União Soviética, onde ficou até o final da guerra, em 1945.

Em 1946, David Rolnik se casou em Berlim, Alemanha, com a antiga namorada, Malka. Poucos anos depois, vieram para a América do Sul e se fixaram na Bolívia e, posteriormente, no Brasil, primeiro no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, depois no Paraná (Ponta Grossa e então Curitiba). Morreu em 2008, aos 88 anos, em São Paulo.

David Rolnik fazia questão de contar as histórias do que vivenciou e testemunhou. Fez diversas viagens à Polônia, onde ministrou palestras sobre o tema. Ele também deu seu depoimento para a Fundação Shoah, do diretor de cinema Steven Spielberg. “Meu pai costumava dizer que ‘não existe tinta no mundo suficiente para escrever tudo o que aconteceu’ ”, finaliza a jornalista.

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Sobre falaeescrita

Doutora em História Oral pela FFLCH da USP Ver todos os artigos de falaeescrita

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