Bate-papo

 

com Luiz Salgado Ribeiro

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Pau pra toda Obra

 21 de julho de 2014

Na estrada do Ribeirão Grande havia uma ponte de madeira que, todo ano,  era levada pelas enchentes. A solução – uma ponte de concreto –  era sempre adiada por falta de recursos da Prefeitura.

Um dia, com algumas economias e com a colaboração dos fazendeiros do bairro, Manoel Ribeiro conseguiu o dinheiro para a obra. E não perdeu tempo. Era mês de junho, sem chuvas, época ideal para trabalhar com concreto.

Sempre apressado, chamou o chefe de obras da Prefeitura, Abel Guimarães, e disse:

“Vamos começar a construção da  ponte amanhã de manhã. Às 7 horas eu quero que você esteja lá com uns dez camaradas, madeira e pregos para fazer as armações do concreto. E não se esqueça de levar o teodolito [1].”

No dia seguinte  lá estava o Abel, com o caminhão carregado de tábuas, os trabalhadores e mais  o sr. Teodorico Cavalcanti.

Abel não tinha entendido bem a ordem do prefeito; não lembrou que, para marcar a posição da ponte,  iria precisar do instrumento de topografia. Mas, não se esqueceu que o velho Teodorico Cavalcanti era “pau pra toda obra” e estava sempre disposto a colaborar com os melhoramentos feitos no bairro.

Teodorico, mesmo sem entender as razões de o prefeito querer sua presença no início daquelas obras, lá estava – tirado da cama, todo encapotado, para enfrentar aquele frio danado. E, com a disposição de um jovem, estava pronto para cortar tábuas e pregar pregos.

 

[1] Aparelho de topografia, parecido com uma luneta, que serve para medir ângulos

 

 

Cruzeiros ao Alasca oferecem

aventuras com  todo conforto

 26 de junho de 2014

São raras as vezes em que as aventuras são acompanhadas pelo conforto. Os cruzeiros ao Alasca são uma delas. Conforto de não passar frio, nem calor; conforto de ir a vários lugares sem precisar arrumar e desarrumar malas; conforto de cama e mesa da melhor qualidade, banho quentinho e amplos salões envidraçados para apreciar as paisagens sem sair do navio. De quebra, ótimos espetáculos de música, dança e humor – todas as noites – nos teatros dos transatlânticos.

Ninguém precisa temer balanços de mares bravios. Entre ilhas altas e baixas, a costa do Pacífico no Canadá e Alasca é uma renda de canais, passagens, baías e estreitos. Suavemente, o navio desliza por esses labirintos de águas abrigadas, calmas como se fossem de um lago.

DSCN2207 (2) DSCN2091 (2) DSCN2079 (3) DSCN2070 (3) DSCN1874 (3) AK6 BAIA AUKE AK3 NO FRIO DO CONVÉS AK JUNEAU AK 1ORCAS

As aventuras,das mais variadas, são oferecidas nos próprios navios ou nos portos, para serem vividas em amplas regiões dos seus entornos. São excursões em helicópteros, pequenos hidroaviões, barcos, trem e até trenós puxados por cães. Tem passeios para todos os gostos e todos os bolsos.

Fiz um tour de catamarã, por quatro horas e meia, pela maravilhosa baia de Auke, uns 20 km a noroeste de Juneau, capital do Alasca. O passeio foi para observar as brincalhonas baleias orcas. Naquele dia, elas não estavam muito exibicionistas. Mostraram apenas seus dorsos, barbatanas e caudas, soltaram esguichos de água e nadaram em formação. Não deram nenhum daqueles espetaculares saltos para fora d’água, que fazem a realização de fotógrafos e o deslumbramento de todos os observadores. Mesmo sem espetáculo das orcas, o passeio valeu a pena, pois é fantástica a paisagem  de montanhas sempre nevadas, cercando a baía de águas limpas e calmas.

Em Ketchikan, fiz um city tour em um ônibus anfíbio, apelidado de Duck, ou pato, em inglês. Depois de circular pela pequena cidade, o Duck desliza pelo mar. ao lado de hidroaviões decolando, ou de iates a vela ou motor.

No passeio mais bonito – o do Parque Nacional da Baía dos Glaciares –não é preciso (nem possível) sair do navio. Ele para junto aos gigantescos paredões de blocos de gelo (alguns maiores que edifícios de 10 andares), que se despencam no mar, em um espetáculo inesquecível. Isto pode ser apreciado nos salões envidraçados, com ar condicionado. Mas, a maior parte dos passageiros prefere sair no frio dos conveses para ouvir bem forte o emocionante estrondo da queda dos blocos de gelo.

Ninguém reclama do vento e do frio, entre 8 e 12 graus, na primavera/verão.. Afinal, um mínimo de desconforto serve para reforçar o sentido de aventura.

Na linda Punta del Este,

o Uruguai ainda é Suíça

16 de maio de 2014

No século passado – do começo, até um pouco além da metade – o Uruguai se orgulhava de ser “a Suiça sulamericana”. Assim o país era conhecido em todo o mundo.

Bons motivos justificavam esse apelido elogioso: elevados índices de desenvolvimento social e de ensino, estabilidade político-econômica e até um sistema – semelhante ao da Suíça – que substituía o presidente da República pelo Conselho Nacional de Governo de nove integrantes, eleitos diretamente pelo povo, para mandatos de quatro anos.

Este sistema de governo colegiado vigorou de 1952 a 1966 e as demais semelhanças com o país europeu foram levadas pela torrente de crises econômicas e políticas, que foram desde a grande desvalorização dos principais produtos nacionais – o couro e a lã, substituídos pelo nylon nos anos pós guerra – até uma sangrenta ditadura militar, que se prolongou de 1973 a 1984.

Salvou-se dessa enxurrada lastimável,  o sistema de contas bancárias numeradas – semelhante ao da Suíça – que não quer saber o nome do correntista e, muito menos, de onde vieram ou para onde vão os milhões de dólares que diariamente passam por lá.

Como pátria segura e acolhedora do capital de origens e destinos desconhecidos, o Uruguai também passou a ser o refúgio de muitos conhecidíssimos donos dessa enormidade de dinheiro. E, para passar férias em local agradável, onde podem andar pelas ruas sem guarda-costas, nem carros blindados muitos desses bilionários, enormemente populares, donos de megaempresas multinacionais, escolheram Punta del Este,  situada na margem norte da foz do gigantesco Rio da Prata, no Oceano Atlântico. Lá construíram mansões cinematográficas, em meio a vastos gramados que vão até as ruas, sem interrupção de muros ou cercas.

Casa Pueblo, um misto de  residência, galeria e hotel, erguida pelo falecido artista uruguaio Carlos Vilaró.

Casa Pueblo, um misto de residência, galeria e hotel, erguida pelo falecido artista uruguaio Carlos Vilaró.

A mais extraordinária dessas construções é a Casa Pueblo, misto de residência, hotel e ateliê do famoso artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró, que morreu no último 24 de fevereiro, aos 91 anos de idade. É uma enorme construção – toda em branco, cheia de domos, terraços e torres. Por dentro, um labirinto de corredores, escadas, salões, salinhas, quartos e alcovas. Lembra uma cidade lá das ilhas gregas e ocupa uma face inteira da península de Punta Ballenas, a 15 km do centro de Punta del Este. Carlos Vilaró definia seu imóvel como “uma escultura habitável”.

Outro marco importante na paisagem da cidade é a escultura de cinco dedos de uma mão gigantesca, soterrada na Praia Brava, a principal da cidade.

Ponto turístico obrigatório aos visitantes da luxuosa Punta del Leste, o Monumento ao Afogado.

Ponto turístico obrigatório aos visitantes da luxuosa Punta del Leste, o Monumento ao Afogado.

Punta del Este tem 12 mil habitantes permanentes e mais uns duzentos e tantos mil, na temporada de verão. Comércio elegante e movimentado; zero de violência urbana; nenhum sinal de pobreza;nenhum pedacinho de papel ou ponta de cigarro, nas ruas, nas praias,ou nas praças bem floridas e arborizadas.

Lá, o Uruguai ainda parece ser Suiça…

Buenos Aires,

paraíso das compras

29 de abril de 2014

Buenos Aires tem grandes parques. lindos jardins, ricos museus, fabulosos espetáculos de tango e mil outras coisas que sempre atraem e encantam os  turistas brasileiros. Mas, agora, com a desvalorização do peso – muito mais acelerada que a do real – todos  estes atrativos perderam a primazia para as compras que se tornaram irresistíveis, desde o comércio  mais popular, ate às elegantes lojas da elitizada Calle Florida, no centro da capital argentina.

Além da baixa cotação do peso (variando de 3.10 a 4,50 pesos por real) a temporada de liquidações, na virada de fevereiro para março, fez de Buenos Aires o paraíso das compras, especialmente para as turistas brasileiras. Era fácil reconhecê-las na Calle Florida, e outras ruas centrais da capital portenha: eram sempre as mais carregadas de sacolas e as mais atentas às tentações expostas nas vitrinas.

Não é vantagem trocar reais por pesos nas casas de câmbio, porque a moeda brasileira é aceita diretamente nos balcões das lojas, por cotação bem melhor. Até há dois anos, poucas lojas tinham plaquetas nas vitrinas, comunicando que aceitavam “reales, euros e US$”. Hoje. Estas plaquetas não existem mais. Motivo: todas as lojas recebem as moedas estrangeiras, como meio de pagamento até preferível, ante o peso, que derrete como gelo ao Sol.

COMPRAS1COMPRAS3

COMPRAS8A meia dúzia de quadras da Calle Florida, está uma das mais belas e modernas atrações de Buenos Aires: Puerto Madero, o centenário porto da cidade, construído em 1882, pelo engenheiro Eduardo Madero, contratado pelo Governo Federal. O ancoradouro ficou superado, foi abandonado, ajudou a deteriorar toda a região central e, no final do século passado, começou a ser inteiramente restaurado, em operação conjunta da prefeitura e do governo nacional. A restauração seguiu plano vencedor de concorrência pública internacional, com um projeto que atraiu grandes investimentos do exterior e se converteu em referência mundial na recuperação de áreas urbanas degradadas.

Em meio a jardins muito floridos, antigos e belos armazéns de tijolos à vista foram transformados em modernos e elegantes escritórios, restaurantes, bares e salões de festas. Arranha-céus, arrojados, retos e espelhados deram vida e cara nova  ao aspecto envelhecido da arquitetura portenha.

Para completar os atrativos de Puerto Madero, lá está o majestoso veleiro “Presidente Sarmento”, construído na Inglaterra em 1882. Durante quase um século  esta fragata foi navio-escola da Marinha Argentina e fez dezenas de voltas ao mundo. Hoje é museu e tem velhos instrumentos náuticos, muitas coisas interessantes para mostrar e histórias fantásticas para contar.

Puerto Maderos

Puerto Maderos

Professor José Milad, um mestre

muito além das retas e curvas

24 de fevereiro de 2014

Um desenho geométrico na lousa,um cigarro aceso entre os dedos e outro – ainda queimando – na beira da mesa do professor ou de alguma carteira de aluno.

Aqui neste mesmo palacete, onde estamos,ainda vejo o professor José Wadie Milad, dando sua aula. Grizalho, sempre elegante, sempre de paletó e gravata, nunca em manga de camisa ou com alguma roupa informal.

Falava pouco. Era objetivo. Entre uma baforada e outra, só o essencial daquilo que estava explicando. E tudo sempre ficava muito claro com os exemplos que ele dava. Exigente como poucos mestres. Queria que os alunos mantivessem tudo em ordem. Os lápis bem apontados; régua, transferidor e esquadros, bem limpos; caderno sem dobras, sem rabiscos, sem manchas.

Nos desenhos, se uma linha, simplesmente, tinha de encontrar a outra, elas nunca podiam se cruzar, nem por menos de um milímetro. Isso era erro grave, que merecia um círculo vermelho para destacá-lo e uma redução na nota, que ficava lá embaixo, pertinho do zero.

Foi assim que eu conheci professor José Wadie Milad e aprendi a admirá-lo, lá no remoto 1956, quando comecei a cursar o então Colégio Estadual e Escola Normal “João Gomes de Araújo”.

Só muito tempo depois pude avaliar o trabalho que ele tinha para ensinar, àquela criançada inquieta. muita coisa além de como traçar retas e curvas.

Ele ensinou capricho; ele ensinou estética; ele ensinou ética; ele ensinou criatividade; ele ensinou que sempre as coisas precisam ser bem feitas, com muita atenção, com muita dedicação; ele ensinou amor à arte; ele ensinou como aquela criançada precisava se esmerar para enfrentar o desafio da vida com amplas possibilidades de vencê-lo.

Estas lições ele não deu apenas para seus alunos. Deu para o povo de Pindamonhangaba, ao remodelar e dar mais vida à Praça Monsenhor Marcondes, a principal da cidade. em 1955,  durante a administração do prefeito Dr. Caio Gomes Figueiredo.

Aí, ao projetar o novo coreto- que lá está, até hoje – ele deu também lições de bom gosto, ousadia, e antevisão do que seriam as linhas que – alguns anos depois – iriam dominar a arquitetura de Brasília.

O professor José Milad também dava lições de arte e bom gosto, cotidianamente, no balcão de sua grande loja na praça principal. Com vistosos papéis coloridos, flores e grandes laços de fita, ele e sua família embalavam cada coisa vendida, como se fosse um presente muito especial a uma pessoa muito querida.

Estas suas lições, que recebi como menino,me orientaram a vida. E – em grande parte – são responsáveis por eu chegar até esta Academia, justamente para ocupar a cadeira que tem como patrono este amado e inesquecível mestre.

Como é praxe nesta e outras academias, a fala de um empossado deve sempre conter os dados biográficos do patrono de sua cadeira. Isso me exigiria um amplo trabalho de pesquisa e coleta de depoimentos, especialmente de seus filhos, os meus amigos Emir, Sergio e Olenka.

Mas, como foi curto o tempo entre o convite para vir para a APL e a minha posse; e como tive o privilégio de ter sido aluno, por 5 anos, do professor José Milad, preferi retratá-lo com os traços que fui pinçando na minha memória.

Entretanto, para não deixar de cumprir a praxe – pelo menos em parte – recorri ao discurso de meu antecessor, na cadeira, o caro e ilustre presidente Alberto Marcondes Santiago. E aí, estão alguns dados:

José Wadie Milad era descendente de libaneses:o sexto filho de uma família de imigrantes chegados ao Brasil no final do século 19. Nasceu em Lorena, em 02 de abril de 1910 e faleceu em Pinda, em 4 de maio de 1986, com 76 anos de idade.

Em 6 de abril de 1937, com 27 anos de idade, casou-se com Helena Nazareth Merly com quem viveu até seus últimos dias, sempre muito dedicado à sua família. Dona Nazaré lhe deu os filhos Emir, Sérgio. Olenka e Zézinho, o caçula que faleceu ainda muito jovem e, por isso, amargurou os últimos anos do professor José Milad.

Durante 32 anos foi professor no Instituto de Educação “João Gomes de Araújo”. Era considerado um mestre duro, rígido, exigente, mas era muito amoroso, acompanhava seus alunos como se fossem seus próprios filhos.

Milad escreveu vários livros de poesia como: “Poemas que a Vida me Inspirou”, “Para as Lindas Mãos de Minha Amada”, “Pequenos Poemas à Moda Oriental”, “Lágrimas em Verso”, todos esgotados. Alguns desses livros foram elogiados por membros da Academia Brasileira de Letras.

Como pintor teve varias telas premiadas em diversas exposições.

Sem qualquer remuneração, foi Secretário de Turismo do município nas duas administrações do Dr. Caio. Na sua gestão deu inicio à expansão turística de Pinda. Propiciou à cidade os mais belos carnavais de sua história; foi o responsável pelas duas reformas da Praça Monsenhor Marcondes

Foi responsável, também, pela reforma do Bosque da Princesa.

Junto com o prof. Mario Cesar e Davi Moura foi o criador da bandeira de Pindamonhangaba;

Este é o patrono da minha cadeira. Este é o Mestre que tenho de honrar. Isso é um grande desafio. Mas – estou certo – vou vencê-lo, com a torcida de todos vocês.

MUITO OBRIGADO

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Pós 70

17 de fevereiro de 2014

Mais velhinho.

Mais velinhas.

De repente elas chegaram a 70! (um incêndio!)

E consegui apagar todas elas com a força de um sopro só.

Isso mostra ( pelo menos pra mim) que, surpreendentemente, estou bem de saúde.

Meus sorrisos, registrados nas fotos, mostram que estou muito feliz com meus 70 anos. Feliz com todos eles.

Desde os anos da minha infância, feitos de poucas brincadeiras e muitas descobertas que, alegremente, me marcaram a vida.

Sou feliz pelos pais que tive. Eloyna e Manoel são exemplos que sempre norteiam minha vida.

Sou feliz pelos meus irmãos, irmãos de verdade, irmãos de amor. Não apenas irmãos de sangue.

Sou feliz porque tive a graça de encontrar, conquistar, e ser conquistado, amar e ser amado pela Aninha, mãe dos meus filhos, minha companheira a toda prova.

Sou feliz, porque meus filhos, Luiz Eduardo e Suzana, me dão muito mais alegrias e orgulhos que um pai pode querer.

Sou feliz porque minha nora Adriana e meu genro Ioka se tornaram filhos muito queridos e muito carinhosos comigo.

Sou feliz porque meus netos, João Pedro, Gabriel e Gustavo, já me deram muitas alegrias e ainda vão me dar muito, muito mais.

Sou feliz porque não tive sogra, mas uma segunda mãe. Dona Wanda me adotou como filho e assim me trata até hoje.

Sou feliz com a profissão de jornalista que me permitiu levar a vida, do jeito que eu sempre quis levar.

Sem rotinas.

No lugar delas, sequências de aventuras.

Cada dia, uma vida diferente.

Cada dia, novos desafios.

Novas vitórias ou novas derrotas,

Sempre novas emoções!

Sou feliz porque tenho muitos amigos, que me acham um cara legal. Justamente, porque são caras muito, muito legais!

Por tudo isso dou graças a Alguém Lá de Cima que Gosta Muito de Mim

Ainda mais, porque chego a esse número grande e redondo, apesar da  vida desregrada que levei, das imprudências que fazia, dos riscos que corria e me davam satisfação.

E de coisas que só me faziam mal. Como fumar por uns 50 anos, perdendo a conta dos maços queimados todos os dias.

Mas…

nada a lamentar nestes primeiros 70.

Tudo merece comemoração.

Não pelo fato de eu estar ficando mais velho. Mas, por mais um ano de sucesso nos dribles à alternativa de ficar mais velho!

Ao comemorar a vida feliz que já vivi, quero comemorar também a vida feliz que ainda vou viver!

E quero compartilhar toda esta felicidade com os amigos que sempre me dão mais motivos para ser feliz.

A todos, muito obrigado, muita saúde e muita felicidade!

Abraços,

     Luiz


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Capadócia,só a Lua

pode ser mais exótica

27 de janeiro de 2014

Somente os astronautas que já foram à Lua podem ter pisado e visto de perto alguma paisagem mais exótica, que a das “chaminés de fadas” da Capadócia, no interior da Turquia.  Ninguém mais.

Formações rochosas em forma de chaminés dão a medida da peculiaridade da paisagem local.

Formações rochosas em forma de chaminés dão a medida da peculiar paisagem local.

As “chaminés” são cones rosados de poeira vulcânica solidificada e erodida pelos ventos e chuvas, Elas dominam a paisagem por muitos quilômetros e não têm semelhança com o relevo de outros lugares do mundo. Alguns cones equilibram grandes blocos rochosos em seus cumes. Outros são escavados para dar lugar a casas subterrâneas. Grandes barrancos chegaram a abrigar cidades-esconderijos de cristãos lá pelo quarto século da nossa era e ainda hoje servem para muita gente morar.

As coisas são tão absurdas que a gente chega a não acreditar naquilo que está vendo. Ou também no que está ouvindo. Quando a guia turística falou de ”cidade subterrânea”, achei que era exagero dela. Depois, vi igrejas – bem decoradas com pinturas rupestres – escavadas na poeira vulcânica solidificada, bem como salões e túneis, abertos para todos os lados. Parecia que eu estava no meio de um gigantesco formigueiro. Aquilo realmente era uma “cidade subterrânea”, pois chegou a abrigar mais de 12 mil moradores e possuía mosteiros, padarias e estábulos.

Permanece até hoje costume de escavar a poeira vulcânica solidificada, tanto que ela abriga um grande hotel e um luxuoso restaurante e casa de shows.

A melhor para conhecer a Capadócia é fazendo

Voos de balões: a melhor maneira para apreciar a região é também um espetáculo a parte.

A melhor maneira de apreciar esta paisagem extraordinária é sobrevoando-a em um balão de ar quente. Existem muitos deles disputando turistas para um voo de pouco mais de uma hora, a uns cem dólares por pessoa. Os balões partem ao amanhecer, quando a atmosfera mais fria facilita a ascensão. Cada um leva 20 passageiros mais o piloto. Todos vão em pé em uma cesta de vime. É um espetáculo lindo a subida ao mesmo tempo de mais de uma dezena de balões coloridos, iluminados, em um céu ainda roxo escuro, onde começa o despontar do sol.

Tudo é calmo e silencioso, mas assustei-me um pouco quando a brisa levou o nosso balão para bem perto de um grande paredão de rocha. Parecia que íamos bater nele. Aí, o piloto abriu todo o gás, o grande maçarico aumentou a intensidade das chamas e o balão passou a subir mais rapidamente, suplantando, tranquilamente, a escarpa.

O CASTELO DE ALGODÃO

Cleópatra e Marco Antônio teriam se deliciado nessas águas termais, lá por volta de trinta e tantos anos antes de Cristo, garantem os guias turísticos do lugar, apontando como prova, ali mesmo, as ruínas de Hierápolis, cidade greco-romana que teria hospedado o ilustre casal e foi famosa em todo o Oriente Médio, como meca de doentes que buscavam cura em águas medicinais.

Pamukale:

Pamukkale ou Castelo de Algodão.

Pode-se discutir se as águas curam e se Marco Antonio e Cleópatra banharam-se nelas, mas é inquestionável que elas são parte de um cenário único e maravilhoso. Partindo de uma fonte termal situada no meio de uma grande encosta, onde estão as ruínas de Hierápolis, as águas azuis muito límpidas e ricas em minério de cálcio vão formando bacias, absolutamente brancas, em algumas centenas de metros morro abaixo. O nome dessa maravilha é Pamukkale, que, em turco, quer dizer castelo de algodão.

RELÍQUIAS DA ROTA DA SEDA

De oeste a leste, por todo o interior da Turquia, estão espalhadas majestosas relíquias da rota da seda, a milenar ligação entre ocidente e oriente, que perdeu sua importância, quando os portugueses descobriram o caminho marítimo para as Índias, no fim do século XIII.

São os palácios das caravanas, ou Caravan Sarayi, grandes construções de pedra – com chafarizes, salões, aposentos e estábulos – separados uns dos outros pela distância de uma jornada de burro ou camelo. Em desertos ou pradarias sem fim, esses eram os pontos de apoio para os mercadores e suas tropas. Há séculos sem ter mais o uso para o qual foram criados, muitos palácios das caravanas viraram ruínas, pelo menos um virou mosteiro dos místicos muçulmanos derviches dançantes e outro. um luxuoso hotel em frente ao porto da cidade de veraneio de Kussadassi, no Mar Egeu

CIDADE DOS SANTOS

Arena onde, no passado, gladiadores

A arena de Éfeso dá o ar da grandeza que a cidade detinha no passado.

Pelo menos dois grandes santos da Igreja Católica – São Paulo e São João Evangelista – frequentaram Éfeso, na época bíblica a 2ªmaior cidade do Império Romano, logo após Roma, a capital. E as pedras pisadas por estes santos ainda estão lá em uma longa avenida, cercada pelos mármores e granitos que restaram de casas de banho, sanitário público, ricas residências e prédios públicos, em uma das maiores e melhor conservadas ruínas de cidades greco-romanas. Pelo que lá está, dá bem para imaginar como era movimentada esta cidade que chegou a ter 250 mil habitantes e era um dos principais portos do Império Romano. A arena dos gladiadores e o teatro ao ar livre estão muito bem conservados, com seus degraus de granito inteiros e alinhados.  A bela e gigantesca ruína da biblioteca, dá idéia de quanto saber havia por lá.

Local considerado sagrado por muitos recebe milhares de orações em forma de bilhetes presos à cerca.

Local considerado sagrado por muitos recebe milhares de orações em forma de bilhetes presos à cerca.

No alto de uma colina, perto das ruínas de Éfeso está uma capela católica muito frequentada inclusive por muçulmanos que são maioria na Turquia. A tradição diz que o pequeno templo foi instalado na casa em que Nossa Senhora, mãe de Jesus, viveu seus últimos anos. Em uma cerca viva ao lado da capela, fiéis deixam milhares de bilhetinhos com orações e pedidos especiais de graças.

A Turquia está repleta de maravilhas naturais e históricas. Mas tem uma que não se pode fotografar, mas é sentida pelos visitantes com muita satisfação: é a respeitosa e harmoniosa convivência entre muçulmanos e cristãos. Esta, possivelmente, é a maior riqueza do país, que está cercado por outros, onde questões religiosas geram frequentes guerras e genocídios.

RUYA, UMA GUIA EXEMPLAR

Minhas boas impressões sobre a Turquia foram reforçadas pela atuação da guia Ruya Akkar,  que cuidou carinhosamente do nosso grupo durante todo o giro pelo país. Ela fala um bom português (passou uns meses no Recife, em um programa de intercâmbio estudantil), é professora de história com mestrado em Antigas Civilizações da Ásia Menor e muito bem humorada. Sempre brincava de nos ensinar palavras e frases em turco.

Ela não fez apenas seu trabalho de guia. Foi muito além disso.  Na noite que chegamos à Capadócia, durante o jantar, uma senhora idosa que integrava nosso grupo lamentou-se, contando que a máquina fotográfica digital,  que ganhara  do neto, parou de funcionar, exibindo um aviso de cardfull . Dissemos a ela, que a câmera não tinha qualquer defeito e, para voltar a funcionar, bastava substituir o cartão cheio por outro novo ou conseguir alguém com um computador capaz de descarregar as fotos do cartão cheio para um CD. Mas onde conseguir uma coisa ou outra com o comércio fechado àquela hora da noite?

Ruya apenas ouviu estas conversas sobre o problema, ninguém pediu nada a ela. Mas, minutos depois, lá estava Ruya apresentando um fotógrafo à senhora, para descarregar as fotos para um CD, que logo ao  amanhecer foi entregue à idosa, juntamente com o cartão livre para as novas fotos que ela bateu, durante os próximos dias. Isso é excelência de serviço prestado.

Muito pode ser dito sobre Ruya Akkar. Mas ela pode ser definida em uma palavra só: “encantadora”.

Turquia, uma surpresa

muito, muito agradável

20 de janeiro de 2014

A Turquia não estava nos meus planos, mas estava no pacote turístico que incluía Grécia e Egito, justamente os países que sempre tive mais vontade de conhecer. Assim, acabei indo parar naquela terra que já não tem mais sultões, mas continua tendo maravilhas naturais e históricas, que surpreendem e impressionam, tanto pela raridade como pela beleza. Sob o ponto de vista histórico, as surpresas começam pela quantidade e pelo bom estado de conservação de restos milenares de construções e de cidades inteiras erguidas pelos romanos. São relíquias que escaparam da depredação dos povos bárbaros – que dominaram a Europa, mas não atingiram o oriente. Também foram ajudadas em sua preservação pelo fato de o Império Bizantino ou Império Romano do Oriente ter durado mil anos a mais que o Império Romano do Ocidente.

As maravilhas naturais são muitas e, entre elas destacam-se a originalíssima topografia da Capadócia – no centro do país – e Pamukkale, ou “castelo de algodão”, as formações calcárias de bacias de águas termais, absolutamente brancas, sobrepostas ao longo de centenas de metros da encosta de uma montanha no sudeste da Turquia.

O Estreito de Bósforo.

O Estreito de Bósforo.

Uma visita à Turquia é uma sequência de queixos caídos. Ela começa quando você desce do avião, em Istambul, centro de uma região metropolitana com mais de 13 milhões de habitantes, dividida entre dois continentes: Europa e Ásia. Esta divisão é feita pelo Estreito de Bósforo, que liga o Mar Negro, ao Mar de Mármara, por onde as embarcações chegam ao Mar Egeu e, de lá, ao Mediterrâneo. Muito utilizado por barcos de vários tipos, o estreito tem aproximadamente 31 km de comprimento por uma largura de 650 metros a 2,5 km. Tem águas limpas e calmas. Está cercado de palácios ricos e majestosos. O Topkapi é o mais rico entre eles. Seu nome significa “porta do canhão”. Foi construído logo após as tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453 e permaneceu como residência dos sultões durante mais de três séculos Hoje é um museu repleto de preciosidades, principalmente joias, entre elas um dos maiores diamantes do mundo, com 83 quilates.

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Mosaico remanescente das origens cristãs da catedral.

Outro museu importantíssimo é o de Santa Sofia, que já foi basílica e mesquita. Sofia não se refere a uma santa, mas à Sagrada Sabedoria de Deus. E haja sabedoria humana para projetar e construir a enorme abóboda do templo entre os anos de 532 e 537da era cristã. Se com a tecnologia e os recursos de hoje, já seria muito difícil fazer um vão tão majestoso, não dá para imaginar como foi feita esta proeza há quase 1.500 anos e como, durante todos esses séculos, o templo sobreviveu e foi recuperado de incêndios, terremotos, guerras, saques e vandalismos diversos, inclusive de cristãos.

Da sua construção, até 1453, foi a catedral de Constantinopla, antigo nome de Istambul. Depois, os turcos a transformaram em Mesquita. Com camadas de gesso, apagaram seus preciosos mosaicos com figuras sagradas para os cristãos. O templo recebeu quatro minaretes ao seu redor e passou a servir de modelo para a construção de mesquitas espalhadas pelo mundo. Em 1927. Mustafá Ataturk, fundou a República da Turquia, fazendo questão de que ela não se vinculasse a alguma religião. Então, transformou Santa Sofia no Museu da República.

Jardim forrado de tulipas.

Jardim forrado de tulipas.

Inspirada em Santa Sofia e em frente dela está a belíssima Mesquita Azul, construída entre 1609 e 1616, revestida internamente por lindos mosaicos azuis e externamente por um vasto jardim repleto de tulipas vermelhas e rosas. Ela é a única mesquita de Istambul com seis minaretes. Uma história popular diz que isto se deve a uma confusão com as palavras ouro e seis, que, em turco, têm sons semelhantes. O Sultão Ahmed que a mandou construir e a queria mais imponente que Santa Sofia, teria determinado que ela tivesse minaretes de ouro. E entendeu-se que ela deveria ter seis minaretes. Se houve mesmo esta confusão, ela deveria ter sido elogiada pelo sultão, pois proporcionou uma enorme economia para ele.

Interior da Cisterna da Basílica

Interior da Cisterna da Basílica

Outra grande maravilha de Istambul está muito perto do Museu de Santa Sofia, bem escondida sob a terra e com uma porta de acesso muito discreta. É a Cisterna da Basílica ou Yerebatan Sarayi, como se diz Palácio Subterrâneo, em turco. É uma construção majestosa e surpreendente. Tem 336 artísticas colunas de mármore com oito metros de altura, sustentando a cobertura de uma área de 10 mil metros quadrados e pode acumular 30 milhões de litros de água.

Como parte de um sistema para garantir o suplemento de água da cidade, mesmo sob cercos de guerra ela é uma das centenas de cisternas de Istambul, mas tem características muito especiais. Foi construída em poucos meses, no ano de 532, e suas colunas foram retiradas de templos pagãos da região da Anatólia. Como se vê, na época, praticava-se o “canibalismo arquitetônico.”

Canadá, país aberto

para todos os povos

13 de janeiro de 2014

Toronto, Montreal, Otawa e Quebec são as principais cidades do leste do Canadá. Cada uma tem seu encanto e em todas há uma atmosfera acolhedora formada por gente de todo o mundo, que foi acolhida por lá. O Canadá recebe imigrantes de todos os continentes, sem distinção de raça ou religião.

Muralhas ao redor do centro histórico de Quebec.

Muralhas ao redor do centro histórico de Quebec.

Com território de 9 milhões e 984 mil quilômetros quadrados (um Brasil inteiro mais um Estado do Amazonas) o Canadá tem população de apenas 31,2 milhões de habitantes (75 % da população paulista). Faz todo esforço para atrair imigrantes.  Tem elevada qualidade de vida; oferece completo amparo social e educacional. Mas isso nem sempre compensa viver em um país com inverno de temperaturas abaixo de 30 graus negativos. Para se sair de casa é preciso remover a camada de mais de um metro neve, que durante a noite, se acumulou sobre a calçada.  Este é o dia-a-dia no inverno canadense. Especialmente em Quebec que é uma das suas cidades mais frias e, também, a mais europeia. Tem até muralha em estilo medieval, cercando o centro histórico.

Cerimônia de troca da guarda, suntuosa como a que ocorre no Palácio de Buckingham.

Cerimônia de troca da guarda, suntuosa como a que ocorre no Palácio de Buckingham.

Quebec – área metropolitana de 690 mil habitantes é capital da província do mesmo nome, a mais populosa do Canadá – fica em um ponto estratégico, que sempre foi disputado por ingleses e franceses, desde o início da colonização, na primeira metade do século 17. As disputas por Quebec terminaram no século 18, quando a cidade foi definitivamente tomada pelos ingleses, Mas, a animosidade entre os dois povos é mantida viva pelos seus descendentes. Um movimento separatista tenta fazer de Quebec um país independente. A questão já foi tema de dois plebiscitos, em 1980 e 1995. Por diferenças de menos de 1%, foi mantida a unidade com o Canadá, mas o movimento separatista continua articulando um novo plebiscito.

Otawa era apenas um pequeno povoado de madeireiros, quando o Canadá conquistou sua autonomia, em 1867. Toronto, Quebec e Montreal disputavam ser a capital do novo país. Árbitra da disputa, a rainha Vitória, da Inglaterra, optou por Otawa, por estar equidistante de Quebec (polo franco-canadense) e Toronto (polo anglo-canadense) e por ficar distante dos Estados Unidos, que ainda eram uma ameaça ao Canadá, mesmo depois de derrotados na guerra que travaram de 1812 a 1815.

MUSEU OTAWA

Museu da Civilização, em Otawa, traz um pouco da história e da memória canadenses.

Cortada pelos rios Otawa e Rideau, a capital canadense é uma bela cidade, centro de uma região metropolitana de 1,1 milhão de habitantes. Seus destaques são o majestoso edifício do Parlamento e o Museu da Civilização. No grande gramado, em frente ao Parlamento, em todas as manhãs (menos no inverno) há a solenidade de troca da guarda, pomposa como a que acontece no Palácio de Buckingham, em Londres. O Museu da Civilização, um arrojado monumento arquitetônico, retrata toda a epopeia que foi a ocupação das terras canadenses, pelos índios e pelos europeus

Montreal, (3,5 milhões de habitantes na área metropolitana) situada na Província de Quebec, já foi a principal cidade canadense. Por lá passava praticamente tudo que entrava ou saía do Canadá. Seu porto era o ponto final navegável do Rio São Lourenço e, de lá, partiam ferrovias para todas as regiões canadenses.

Nos anos 80 e 90, a hidrovia do São Lourenço chegou aos Grandes Lagos e os navios passaram a alcançar Toronto.  Resultado: Literalmente, Montreal ficou a ver navios. E, para agravar sua situação, uma mudança na legislação trabalhista de Quebec, desagradou os empresários, que passaram a migrar suas indústrias para Toronto, que fica na Província de Ontário, com população de fala inglesa.

Vista da cidade de Toronto.

Vista da cidade de Toronto.

Toronto (área metropolitana de 6,1 milhões de habitantes) hoje é a principal cidade canadense. Situada na beira do Lago Ontário, é muito bem planejada e arborizada. Como Montreal, também tem sua cidade subterrânea. São quilômetros de galerias, repletas de lojas e restaurantes, que interligam, sub-solos de edifícios,  estações de trens e metrô. É por elas que a população consegue circular durante o inverno.

Dizem que as cidades do Canadá, na costa do Pacífico, são ainda mais interessantes. Não sei. Um dia irei até lá e contarei para vocês.

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Manaus-Belém: a mesma

aventura, 30 anos depois

10 de novembro de 2013

Não tem nada a ver com os cruzeiros fluviais pelo Nilo, Yang-Tse, Danúbio, Douro, Volga ou por outros rios menores. Navegar os 1.606 km entre Manaus e Belém não é um programa turístico. É coisa para quem gosta de aventuras. É pra quem é capaz de deixar de lado o conforto de uma boa cama e as gostosuras de uma mesa civilizada, para sentir a emoção de dar um mergulho profundo no interior da Amazônia, sempre majestosa, surpreendente, fascinante.

Fiz esta viagem em janeiro de 83, com minha mulher, Aninha, e meus filhos Luiz Eduardo e Suzana, ainda crianças, Foram três dias e meio no “Augusto Montenegro”, da extinta estatal ENASA, Empresa de Navegação da Amazônia.Gostamos muito da viagem e decidi repeti-la, no mês passado. Agora, só com minha mulher.

O Amazon Star no Porto de Manaus.

O Amazon Star no Porto de Manaus.

Imaginei que – passados quase 31 anos de privatizada a linha, o serviço tivesse melhorado bastante. Enganei-me. Houve poucas melhoras e algumas pioras. Cabines ganharam geladeirinhas e ar condicionado, mas diminuíram muito de tamanho.  O restaurante piorou o serviço e a qualidade da comida. Agora, a grande embarcação tem o chamativo nome de “Amazona Star”. O outro, da mesma linha, é o “Rondônia”. A viagem de 92 horas continua sendo a mesma aventura.

Ela começou às 11 da manhã da quarta feira, 16 de outubro, no congestionado cais flutuante do porto de Manaus. Embarque no meio de uma grande confusão de caminhões, que manobravam  em pouco espaço para carregar e descarregar sacos, engradados, caixas, automóveis, motocicletas etc.

A grande maioria dos passageiros viaja em redes.

A grande maioria dos passageiros viaja em redes.

Arrastando suas malas de rodinhas, levando sacos nas costas ou acompanhando carregadores, os passageiros tinham de driblar a grande bagunça para chegar ao navio. Aí, precisavam enfrentar escadas íngremes e estreitas (o corrimão é de um lado só e elevadores? Nem pensar!…). Muitos degraus altos e estreitos para chegar aos salões em que viaja a maioria dos 756 passageiros, alojada em redes. São dois salões. Um, com ar condicionado e outro, sem. Estes passageiros são moradores da região. Com suas famílias, saltam de uma cidade para outra em busca de melhores condições de trabalho ou para visitar parentes.

Justyna, no Amazonas, a caminho de Ushuaia.

Justyna, no Amazonas, a caminho de Ushuaia.

Junto dessa gente humilde, cheia de esperanças e de crianças, vão outras que vieram de bem longe. Gente de largo espírito de aventura e alta quilometragem, como Justyna Karpeta, 30 anos,  polonesa moradora em Londres, que – com o marido – deixou sua casa em fevereiro. Foi para a Venezuela; depois – de ônibus ou caronas – para a Colômbia, Peru e Bolívia. Entrou no Brasil em Guajará Mirim, RO, e, em Porto Velho. tomou um barco para Manaus. Ela tem um blog em polonês e inglês; e fala um precário espanhol. Ainda quer conhecer o Nordeste, Brasília, Rio, São Paulo, os estados do sul, mais o Uruguai e a Argentina. Planeja voltar para casa, só em julho, depois de conhecer Ushuaia, lá na Terra do Fogo, extremo sul da América do Sul. Como Justyna, também viajam nas redes, dois casais de alemães, um de franceses e outro de argentinos. Turistas brasileiros, só nas cabines e eram apenas quatro casais e dois solteiros.

Acima dos salões de redes, estão as  quarenta e poucas cabines. Camarotes e “suítes”, como são pomposamente chamados os cubículos de 2 por 1,5 m, onde ficamos em beliches (que exigem um exercício de contorcionismo para se  alcançar a cama de cima). As suítes têm ainda uma geladeirinha e um mini-banheiro, com box sem porta e sem ganchos para pendurar toalhas e roupas. Os camarotes são só os cubículos. Cama de casal só existe no ‘Rondônia” em um aposento pouco maior, a “suíte máster” , que é privativa do dono da empresa e, por vezes, é alugada.

Logo que se sai de Manaus, já se encontra o primeiro grande espetáculo: o encontro das águas. O Rio Negro funde-se ao Solimões, forma o Amazonas, mas as águas de um e de outro seguem separadas. À direita, as barrentas, do Solimões. À esquerda, as cristalinas e escuras do Negro.

A seguir, fica evidente porque o Amazonas é chamado de Rio Mar. Na maior parte do percurso até Belém, ele tem, em média, mais de 5 quilômetros de largura. Em frente Santarém, nas temporadas de cheias, as ilhas de vargens ficam submersas e o espelho d’água chega a mais de 50.quilometros.

Quando o navio navega perto de uma margem, a outra é só uma linha no horizonte. Nem dá pra acreditar que aquilo tudo é água doce. Dos dois lados, existem pastagens muito verdes a se perder de vista. Algumas naturais, outras em terras tomadas das selvas, sem se respeitar nem a exigência legal de preservação de matas ciliares.

A outra margem, quase sempre, é só uma linha no horizonte.

A outra margem, quase sempre, é só uma linha no horizonte.

“PIRATINHAS”

Tranquilidade no Estreito de Breves.

Tranquilidade no Estreito de Breves.

À plena velocidade, o navio sulca a mansidão do Estreito de Breves, de uns 500 metros de largura. É um atalho pelo meio do arquipélago de Marajó, entre o Amazonas (que segue diretamente para o Atlântico) e os rios Pará e Tocantins, que vão formar a baia de Guajará, que tem Belém em suas bordas. As margens do estreito estão repletas de selvas, pitorescos coqueiros, barcos e palafitas. Tudo é beleza e tranquilidade. De repente, surgem diversas montarias*, ocupadas por crianças e algumas moças. Elas investem, arriscadamente, contra o navio.

Como hábeis arpoadores, arremessam ganchos de varas de ferro, atados a cordas, procurando alvejar o centro dos grandes pneus, que os barcos levam amarrados em seus bordos, para não se esfolarem, quando atracados aos portos. Atingem o alvo. A pequena embarcação leva um tranco, mas seus pequenos tripulantes nem se assustam.

Piratinhas subindo à bordo do Amazon Star.

Piratinhas subindo à bordo do Amazon Star.

A montaria fica atrelada ao navio e as crianças o escalam e abordam. É uma cena rápida, que prende a respiração e gela a espinha dos passageiros que se apinham nos conveses para ver aquele inesperado espetáculo de ousadia, firmeza e precisão.

– E, se você cair, quando está subindo no navio?

– Eu nado, ora! – responde o garoto Jaílson, (que diz ter 9 anos e parece não ter mais de  7) desdenhando o perigo que correu.

Acostumados a essas abordagens, tripulantes do “Amazon Star” referem-se às crianças como “os piratinhas”. Mas elas não vêm à bordo para saquear ou pedir esmola. Vêm para vender pacotes de camarão seco, frascos de açaí e de palmito. Gastam quase todo o produto das vendas no bar do navio, na compra de sorvetes, refrigerantes e guloseimas Depois, vão para o largo espaço existente na popa, para jogar futebol – usando latinha de cerveja como bola – e se refrescarem sob fortes duchas de água fria. Depois, fazendo algazarra, retornam às montarias ou se atiram no estreito. Somem tão rápido quanto apareceram.

Para “os piratinhas”,é uma festa a passagem dos navios de passageiros, duas vezes por semana. É o contato com algumas delícias da civilização real, que já é propagandeada por aqueles ermos pela televisão e a internet via satélite.

A abordagem das crianças é assunto para uma última noite de conversas, nas mesas do bar. No dia seguinte, as silhuetas dos edifícios de Belém começam a surgir entre as brumas do amanhecer. Mais um pouco e  o “Amazon” está atracado no porto.

Fim da viagem. Começa nova muvuca, para desembarcar todo mundo.

A navegação do maior rio do mundo merece algo melhor. Não o luxo de outros cruzeiros, que poderia elevar os custos, – já muito altos, compatíveis com passagens de avião – e afastar a população local. Mas pelo menos algumas coisas de custo baixo, que demonstrassem um mínimo de preocupação com conforto dos passageiros, aventureiros, ou não.

*Montaria- pequena e típica embarcação amazônica, cujo casco é montado com três tábuas.

Anavilhanas, o mundo

do jeito que foi criado

 30 de outubro de 2013

Lá está o mundo do jeitinho que foi criado. Intocado, selvagem, exuberante, maravilhoso. No Rio Negro, noroeste do Amazonas, na vastidão de uma faixa de 170 km de cumprimento, por 5 a 27 de largura, está o Arquipélago das Anavilhanas, um labirinto de águas e selvas formado por 404 ilhas e incontáveis lagos, paranás, igarapés, igapós – só existentes no período de cheias – e praias quilométricas que só aparecem quando as águas estão baixas.

As selvas avançam sobre as águas.

As selvas avançam sobre as águas.

Até os anos 1990, as Anavilhanas eram consideradas o maior arquipélago fluvial do mundo. Depois, perdeu o título para um vizinho seu, por obra e graça da NASA. Ela examinou fotos de satélite e constatou que Mariuá, a montante, no mesmo Rio Negro, é mais curto, “apenas” 120 km, mas ganha, na quantidade de ilhas: 1.200.

Seco, o igapó vira uma boa trilha para caminhadas.

Seco, o igapó vira uma boa trilha para caminhadas.

Existem duas épocas ideais para se visitar as Anavilhanas. No auge da cheia – maio/junho – quando é possível percorrer, em voadeira, a selva inundada, pelos igapós, as veredas aquáticas que permeiam toda a selva inundada. Aí, é desligar o motor de popa e ir a remo, bem silenciosamente, para poder apreciar pássaros, jacarés, e até grandes mamíferos.

A outra temporada de maravilhas é a do nível mínimo das águas (de 12 a 17 metros abaixo do máximo) em outubro/novembro. Nesta época, as ilhas ganham contornos de praias de areias bem brancas, que, em contraste com o Rio Negro, desenham zebrados de se perder de vista. Encantei-me com esta paisagem há mais de 40 anos, viajando – a serviço – em um pequeno hidroavião. Decidi voltar lá. Agora sem pressa e com minha mulher. Marquei a viagem para outubro. A intensão era aproveitarmos ao máximo a delícia daquelas águas mornas.

Rio alto,  praias pequenas,  mas muito gostosas.

Rio alto, praias pequenas, mas muito gostosas.

Não tivemos sorte. Este ano as enchentes foram muito grandes e as águas demoraram a baixar. Resultado: foi uma época ruim. As águas estavam suficientemente baixas, para não permitir a navegação de voadeiras pelos igapós, mas ainda altas para esconder a grande maioria das praias que  – na seca –   parecem não ter fim.

Seu Ceará, 14 anos de navegação no labirinto.

Seu Ceará, 14 anos de navegação no labirinto.

Mesmo assim, o passeio foi lindo! Passamos um dia inteiro na voadeira comandada pelo seu Ceará. Navegamos águas muito limpas e tranquilas de dezenas de paranás, lagos e igarapés. Pudemos observar que as selvas muito viçosas se despejam sobre as águas, como se não coubessem mais no espaço das ilhas.

Gavião Real, sempre atento.

Gavião Real, sempre atento.

O barulho do motor de popa afugenta os pássaros. É raro, mas é possível ver um ou outro,  mais corajoso, espiando-nos por entre os galhos.

Novo Airão,

o ponto de apoio

As Anavilhanas são um Parque Nacional. O único ponto de apoio para acessá-las é a cidade de Novo Airão, situada na margem direita do Rio Negro, a 175 km de Manaus, por rodovia, ou 130 km, pelo rio.  Lá no centro da cidade, a Pousada Bela Vista -sobre um barranco na beira do rio – organiza passeios pelo arquipélago e outras atrações da região. A uns 500 metros de lá, é possível ver botos cor de rosa, muito mansos, saltando para pegar sardinhas, que lhes são oferecidas por uma tratadora. A moça tem tanta intimidade com os botos, que os chama pelos nomes que ela mesma deu. “Alexandre” é o mais velho e o mais esperto.

“Alexandre” é o mais esperto, o de bico mais aberto.

“Alexandre” é o mais esperto, o de bico mais aberto.

O Zeppelin ainda vive

na bela Friedrichshafen

 23 de outubro de 2013

Boa notícia para os que ainda lamentam que a era dos dirigíveis mais leve que o ar tenha terminado na grande explosão do “LZ-129 Hindenburg”, em 6 de maio de 1937.

Em Friedricshafen o Zeppelin fica entre as estrelas da feira internacional de aviação executiva.

Em Friedricshafen o Zeppelin fica entre as estrelas da feira internacional de aviação executiva.

O Zeppelin ainda está vivo e muito bem, em sua terra natal, Friedrichshafen, no Sul da Alemanha, às margens do Lago Constança. Todo mês de abril, participa da feira internacional de aviões executivos, ao lado dos aparelhos mais modernos do mundo. Durante o resto do ano, menos o auge do inverno, faz propaganda e atende privilegiados passageiros que pagam 200 euros por um voo de pouco mais de meia hora e ainda têm de esperar o embarque em uma fila que chega a durar seis meses.

O Zeppelin sobrevivente é bem menor que o Hindenburg, que tinha 245 metros de comprimento, levava 36 passageiros e 61 tripulantes, e voava a 110 km/h, sustentado por 200 mil m3 de hidrogênio, o gás mais leve que existe, porém altamente inflamável. Até hoje, ainda é uma questão nebulosa a causa da explosão do Hindenburg, ocorrida na base naval de Lakehurst, em Nova Jersey, bem em frente de Nova York. As principais hipóteses são: fagulha acidental, falha técnica na escolha da tinta usada nos invólucros do gás, ou – simplesmente – uma sabotagem. A polêmica já rendeu muitas investigações, estudos científicos, livros e filmes. Na tragédia – tão traumática para os alemães, quanto o naufrágio do “Titanic”, para os britânicos e americanos – morreram 13 passageiros e 22 tripulantes

O Museu Zeppelin, em Friedrichshafen, não gosta de notícia triste, por isso não trata do desastre. Prefere exibir réplicas perfeitas de partes do gigantesco dirigível, como a sala de estar (ou “salão de fumar”), as cabines com beliches, a cozinha, a ampla janela pela qual se via as paisagens percorridas, os enormes motores diesel, as estruturas de alumínio que formavam a carenagem do grande “charuto” e a escada, por onde os passageiros embarcavam.

Na visita a esse museu, dá bem para sentir o quanto era fantástica a viagem neste verdadeiro navio voador.

CIDADE ADORÁVEL

No calorão de agosto, é irresistível a vontade de se refrescar nos repuxos.

No calorão de agosto, é irresistível a vontade de se refrescar nos repuxos.

Friedrichshafen não vive apenas das saudades dos Zepelins. A cidade é lindamente emoldurada pelo majestoso Lago Constança, com suas águas cristalinas, vindas do degelo dos Alpes. No verão, atrai turistas de toda a Europa, para velejar; para andar de lanchas; para comprar roupas e artesanatos. Lá, o esporte predileto da criançada, e até de algumas mães, é brincar nos repuxos d’água, espalhados pelas praças.

Para quem gosta de náutica o Lago Constança é o paraíso.

Para quem gosta de náutica o Lago Constança é o paraíso.

De ferry-boat, em mais ou menos meia hora pode-se atravessar os 12 km do lago e ir a Romanshorn, na Suiça, outra cidade adorável. Não é preciso vistos nem passaportes para esta viagem internacional.

Dos escombros do nazismo, renasceu

a bela, alegre e romântica Nuremberg

14 de outubro de 2013

Nuremberg foi a cidade símbolo do nazismo. Sediou as primeiras grandes concentrações do partido de Hitler. Adotou as primeiras leis de discriminação e confiscos contra os judeus. Foi arrasada por bombardeios aliado, durante a guerra e, depois da derrota nazista, num dos poucos prédios que restaram em pé, nos arrabaldes da cidade, reuniu-se o Tribunal Militar Internacional, que julgou, condenou e executou na forca os principais seguidores do Führer, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Muralhas da Idade Média reconstruídas a partir da segunda metade do século XX

Muralhas da Idade Média reconstruídas a partir da segunda metade do século XX

Com este passado tão tenebroso, é difícil imaginar que esta cidade de mil anos seja hoje uma das mais bonitas, alegres e acolhedoras da Alemanha. E é exatamente isso que ela é. Em um gigantesco trabalho de paciência, tecnologia e arte, vasculharam-se registros de plantas medievais para orientar os trabalhos de juntar os cacos de 4 km de altas muralhas, de magníficas catedrais góticas, de edifícios e palácios.  Assim, como se montasse um gigantesco quebra-cabeça, a velha cidade foi reconstruída com mais encanto e beleza do que ela tinha em seus áureos tempos, na Idade Média, quando foi uma das mais ricas da Europa. Isso, por quê, vastas áreas não reconstruídas transformaram-se em enormes parques recheados de flores e gramados.

As margens arborizadas do limpo rio Pegnitz.

As margens arborizadas do limpo rio Pegnitz.

Um toque romântico é dado pelas águas limpas e calmas do Rio Pegnitz (zero de mau-cheiro, zero de poluição), que corta o centro histórico de Nuremberg. Suas margens, bem arborizadas, estão repletas de bares, cervejarias e restaurantes, onde no verão a população fervilha em um longo “happy hour”, que vai até o fim do dia, lá pelas 22 horas.

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Museus, construções históricas, bares e muita área verde misturam-se às margens do Pegnitz.

Nuremberg tem 500 mil habitantes e fica 170 km ao norte de Munique, a capital da Baviera e um dos principais portais aéreos da Europa.

A cidade tem mais de trinta museus e o mais importante deles é o Museu Nacional Germânico, fundado em 1852, que retrata a cultura alemã, desde a pré-história até os dias atuais. Mostra, também, instrumentos científicos da Idade Média. Em Nuremberg há ainda o Museu dos Brinquedos (Spielzeugmuseum), relembrando a centenária tradição da cidade na manufatura de brinquedos. O Museu dos Transportes expõe trens antigos, inclusive os da primeira linha ferroviária da Alemanha construída a partir de Nuremberg em 1835.

A Memória é elemento presente em cada canto de Nuremberg.

A Memória é elemento presente em cada canto de Nuremberg.

Além disso, a cidade tem mais de uma centena de galerias de arte.

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Porta-aviões, um ótimo investimento.

01 de outubro de 2013

Desde criança, lá pelos meus 12 ou 13 anos, sempre admirei os feitos do governo Juscelino Kubitschek. Tudo me fascinava: a arrancada do processo de industrialização, os primeiros jipes e fuscas “made in Brazil”; Brasília surgindo moderna e majestosa no meio Planalto Central; a Belém-Brasília e outras estradas, rompendo selvas e cerrados e anunciando o começo da ocupação e do desenvolvimento do interior do país.

Filho de político da União Democrática Nacional – principal e praticamente único partido de oposição a JK –, cresci ouvindo críticas aos custos de todo esse arrojo. “É uma maluquice fazer uma capital no meio do deserto, levando cimento e ferro em avião”; “a Belém-Brasília liga o nada a lugar nenhum”; “esses gastos astronômicos estão fazendo disparar a inflação e aumentar dívidas que o país terá de pagar por muitas gerações” – isso é o que diziam meu pai e os correligionários dele, acrescentando mais alguns comentários sobre a “roubalheira” que estaria presente em todas as obras. Eu não dava ouvidos porque, para mim, tudo tinha uma grande justificativa: eram coisas necessárias para tirar o Brasil daquela situação de gigante adormecido em berço esplêndido.

Tudo, não: havia uma coisa que eu não entendia e não engolia: a compra do porta-aviões “Minas Gerais”. Com tantas necessidades prementes, por que nosso país tão pacífico precisava comprar um porta-aviões? Era um escândalo e, ao mesmo tempo, motivo de chacota, como a modinha “Brasil já vai à guerra”, do Juca Chaves, que fez muito sucesso na época, espicaçando o “presidente bossa nova”.

Demorou uns vinte anos para eu me convencer de que a compra daquele sucatão da Inglaterra foi o investimento de melhor retorno econômico, social e político de toda a história republicana. Absurdo? Não, explico. É preciso lembrar o clima em que foi feita a tal compra. Mal havia se sentado na cadeira presidencial, JK enfrentou os levantes de Aragarças e Jacareacanga, com os quais oficiais muito respeitados na Aeronáutica tentaram depor o chefe de governo, sob a alegação de que sua eleição havia sido ilegítima, conforme insistia a UDN. Antes mesmo da posse, em novembro de 55, sob a mesma alegação, o Exército chegou a esboçar um golpe contra o presidente eleito, movimento que foi abortado pelo general Teixeira Lott,  que, por isso, ganhou o então Ministério da Guerra e uma espada de ouro. O Exército ficou quieto. Mas, na Aeronáutica e Marinha, a conspiração continuava e pouca gente acreditava que Juscelino tivesse tranqüilidade para governar, isso se tivesse condições de sobreviver no cargo.

Aí, mineiro, maneiro e matreiro, como ninguém, JK deu seu golpe de mestre: comprou o “Minas Gerais”. A consequência está bem retratada nos versos do Juca: “Porém, há uma peninha/ de quem é o porta-aviões?/ é meu, diz a Marinha/ é meu, diz a Aviação?/ Hah, hah! Revolução!”

“Revolução” não foi apenas rima da modinha satírica. A beligerância começou com palavras ácidas e chegou aos tiros quando, anos depois, a Aeronáutica bombardeou uma base da Marinha que, clandestinamente, treinava pilotos de helicópteros, no litoral do Estado do Rio. Resultado: nesse clima de guerra dentro das próprias Forças Armadas, nenhum almirante, general ou brigadeiro teve condições de articular novas quarteladas para depor JK. Apenas a ala mais radical da UDN, chamada “Banda de Música”, continuava botando a boca no trombone contra o presidente. E, enquanto essa “banda” tocava, cada vez mais desfalcada e desafinada, ele valsava com debutantes, voava pra lá e pra cá, sempre sorridente, entusiasmado e – sobretudo – em paz e sem ressentimentos. Assim, pode fazer o Brasil avançar 50 anos em cinco, como havia prometido no seu Plano de Metas.

Tudo isso, em troca do valor irrelevante,  pago pelo mastodonte flutuante, sobrevivente da 2ª Guerra Mundial. Foi ou não foi um ótimo investimento?

Pena que o presidente João Goulart não tenha entendido o “espírito da coisa”. Preocupado com a animosidade no seio das Forças Armadas, Jango – inocentemente – resolveu a pendenga entre a Marinha e a Aeronáutica. A primeira ficou com o porta-aviões e os helicópteros e, a segunda, com os aviões. Isso aconteceu no fim de 63 ou começo de 64. Meses depois Goulart estava deposto.

Bem que o Juscelino poderia ter explicado ao Jango os motivos da compra do “Minas”. Talvez, não tivéssemos mergulhado em vinte anos de ditadura militar. Mas JK jamais faria isso, pois – afinal – nunca deixaria de ser mineiro, maneiro e matreiro, como ninguém.

Uma pílula tão pequena e

uma revolução tão grande

 23 setembro de 2013

Uma  enorme  revolução começava diante dos meus olhos e, mesmo alertado, não consegui ver a importância que ela tinha, o que só fui perceber muitos anos depois.

Era dezembro de 1970. Já não me lembro de pormenores desta história, mas o essencial permanece muito vivo na minha memória. Há poucos dias eu assumira o cargo de repórter de “O Estado”, vindo de Manaus, onde fui correspondente do jornal. Estava realizando um sonho que alimentava desde o dia em que pus o pé na profissão. Esforçava-me ao máximo para me firmar no cargo e corresponder  à confiança de colegas e superiores, especialmente a do Clovis Rossi, que era o chefe de reportagem e editor da seção Local. Já havia feito alguns trabalhos que mereceram destaque, porque iam além do cumprimento da pauta .

Porém naquele dia, não conseguia ver um jeito nem mesmo de cumprir a pauta. Era para ir a Congonhas, participar de uma entrevista coletiva que seria dada pelo cientista inventor da segunda geração da pílula anticoncepcional, que chegava ao pais para divulgar a nova pílula.

A primeira geração tinha uns dez anos e havia sido recebida com muitas controvérsias, restrições religiosas e – sobretudo – muito enjoo por parte das usuárias. Em síntese, ela provocava uma falsa gravidez, que impedia uma verdadeira. A gravidez era falsa. Mas os sintomas, bem verdadeiros:  enjoos, tonturas,  inchaços, dores de cabeça e todos aqueles suplícios conhecidos pelas futuras mamães.

A nova geração de pílula eliminava esses efeitos indesejados e, por isso, esperava-se que fosse melhor aceita pelas usuárias.

Tudo isso estava escrito no “release” do laboratório farmacêutico fabricante da grande descoberta. Lá também estava um punhado de termos científicos, só compreensíveis por entendidos em genética e ginecologia. Nadinha de nada, que pudesse ajudar alguém que precisava escrever algo verdadeiro, interessante,  objetivo e de fácil entendimento  por homens e mulheres completamente alheios  ao tema.

Não entendo coisa alguma desse assunto. Que diabo de pergunta vou fazer a esse cara? –matutei, a caminho do aeroporto.

O jeito era sair pela tangente. Porém, sem fazer feio perante os colegas que estariam na coletiva. Mesmo sem congestionamentos, que não existiam na  23 de Maio, tive tempo para preparar a pergunta: “o que será mudado com  sua invenção?”

Na entrevista, perdi o medo e disparei: “ What will be changed with your invention?”

“The world!” – ele me respondeu direto, sintético e orgulhoso.

Pedi à interprete que me confirmasse aquela resposta, pois me parecia um absurdo alguém querer mudar o mundo com uma pílula tão pequena.

Após a confirmação, pela interprete, o cientista fez uma longa explanação. Previu que, com uma pílula melhor aceita, a maioria das mulheres poderia escolher quando iria ser mãe e, com segurança, poderia aplicar-se nos estudos  e nas carreiras profissionais.  Com isso poderia disputar o mercado de trabalho em igualdade com os homens.

Deixou de lado a cátedra de farmacologia e passou a uma aula de sociologia, ao discorrer sobre a mulher que surgiria dessa igualdade no mercado de trabalho. Uma pessoa mais livre, mais ousada, mais dona do seu nariz.

Esta seria uma mudança a abranger todo o mundo, explicou.

Mas, mesmo com todas as explicações e projeções, a ideia de mudar o mundo parecia  muito pretensiosa. Apenas um exercício de futurologia para ajudar a vender o novo produto do laboratório, foi o consenso entre os reportes  presentes àquela coletiva e creio que a muitas outros pelo mundo a fora, pois não soube de notícia alguma que trouxesse  as projeções de mudanças feitas pelo cientista.

Fiz apenas uma pequena nota para cumprir aquela pauta e nem me lembro se ela foi publicada.  Naquela época, a redação do Estadão  tinha uns 140 homens e apenas quatro mulheres.  Só vim dar inteira razão ao cientista quando percebi que os homens passaram a ser minoria nas redações.

Aí já não era mais tempo para fazer estardalhaço como aquele “mudar o mundo” que já se tornara uma realidade corriqueira nos mais diversos campos de atividade em quase todo o planeta

Uma cumplicidade caridosa

16 de setembro de 2013

Toda celeuma a respeito da importação de médicos me fez lembrar de uma história ocorrida no fim da década de 60. Para fazer uma reportagem, fui parar em Valpés  (ou São Gabriel da Cachoeira) que fica lá nos confins do Amazonas, dentro da cabeça de cachorro desenhada no mapa pela linha que marca as fronteiras do Brasil com a Colômbia e Venezuela.

Como não havia hotel  no pequeno vilarejo, o jeito foi me “internar” na Santa Casa local. Lá, fiquei muito bem impressionado com um senhor de uns 60 anos, cabelos totalmente brancos, corpo atlético e bem bronzeado,  que – solteiro – morava no hospital  e atendia, muito gentilmente,  quem aparecesse por lá de dia ou de noite. Chamado de “doutor Cabeça Branca”, era o ídolo do vilarejo e muito respeitado pelas freiras e enfermeiras que lá trabalhavam. Era chamado de Iacanga Poranga, pelos índios tucanos, que eram maioria na região.

De volta a Manaus, encontrei-me  com um amigo, o Dr. Portela, médico e coronel do Exército. Comentei, com ele, minha surpresa de ter encontrado um profissional tão solícito e eficiente lá naquele lugar tão isolado de tudo e de todos.  Dr. Portela sorriu e disse: “Eu também encontrei o Iacanga por lá, em viagem de inspeção das unidades de fronteira e fiquei com um drama de consciência”

Por quê? Ele explicou, meio constrangido. “Eu já o conhecia há um 20 anos, desde quando trabalhei no Hospital Souza Aguiar, no Rio. Ele não é médico. É prático de enfermagem. Agora, aposentou-se  e foi trabalhar em Valpés. Não tem salário da Santa Casa e se  contenta com a consideração das pessoas, a praia e a linda paisagem que tem para admirar.   Tenho a obrigação de denunciá-lo por exercício ilegal da medicina. Mas, se fizer isso, aquele povo todo vai ficar sem a mínima assistência, porque médico algum vai querer morar lá”.

Depois, justificou a decisão de não denunciar o cabeça branca: quem trabalhou por 35 anos no principal pronto-socorro do Rio de Janeiro entende mais de Medicina que muito médico recém-formado.

Dr. Portela ficou calado e eu também. Só escrevo esta história hoje, porque não há mais risco de punição a nenhum personagem dela.

 

É preciso mudar as regras das eleições parlamentares

09 de setembro de 2013

Não existe democracia, quando o povo não é legitimamente representado  nas instituições de poder. Podem acontecer  um milhão de passeatas pedindo o fim da corrupção,  a moralização da vida pública, o respeito aos cidadãos e nada disso vai ser realidade, enquanto a maneira de se eleger os integrantes do Poder Legislativo permanecer essa coisa que está aí. Um deputado não representa o povo de uma região, porque, com gastos absurdos, tem votação pulverizada pelo estado inteiro. Não representa um partido, porque pode trocar de legenda como quem troca de camisa, sem o mínimo risco de perder o mandato. E, como a rigor não representa coisa alguma e não tem de prestar contas  ao partido ou aos eleitores, acaba achando muito natural representar seus próprios interesses e os interesses de quem alimenta seu caixa para a próxima eleição.

Enquanto não forem alteradas estas regras que naturalmente conduzem a vida pública para a irresponsabilidade, não adianta querer que todos cobrem de si mesmos um padrão  ético compatível com o bom desempenho da democracia.  A bagunça vai continuar e vai prevalecer sobre as boas intenções populares.

Se o Supremo  for em frente em sua cruzada moralizadora.  a Papuda vai se encher de deputados no pleno exercício de seus mandatos  e, no fim, todo vamos achar que não há outro jeito e tudo tem de continuar como está.

Antes que isso aconteça, é preciso reformar urgentemente o sistema das eleições para o Legislativo. Já há o consenso de que o sistema distrital misto  é o mais adequado. Mas fala-se em voto na lista partidária, o que é a reedição do malfadado “biônico”. Com uma agravante: durante a ditadura militar, só alguns senadores eram “biônicos”.. Esta coisa esdruxula não atingia a Câmara dos Deputados. Pela proposta da lista partidária toda a Câmara seria ocupada por “biônicos”. Não dá pra aguentar uma coisa dessas!

Então, me arrisco a apresentar uma ideia.

Trata  da instituição do voto distrital misto para as eleições de deputados estaduais e federais. O propósito central é dar maior representatividade aos parlamentares – pela eleição distrital – garantindo, ao mesmo tempo, o fortalecimento dos partidos, que poderiam ficar sem grande expressão, caso as disputas ficassem limitadas apenas ao âmbito regional. E mais: não permite a criação de deputados “biônicos”, como seria o caso dos escolhidos nas tais listas partidárias.

A coisa funcionaria da seguinte maneira:

1) Os parlamentares ficariam divididos em duas categorias:

a)   Deputados  eleitos pelos distritos em pleito direto e majoritário (dois turnos), com direito a um mandato por tempo determinado, que será mantido por seu detentor, mesmo no caso de ele vir a mudar de partido..

b)   Representantes dos partidos – parlamentares escolhidos pelos partidos, em convenções estaduais realizadas após as eleições, para preenchimento das vagas que caberão a cada uma das legendas, segundo a votação proporcional recebida no primeiro turno. Tais parlamentares teriam direito a voz e voto, porém não seriam donos de mandatos. Atuariam nos parlamentos como delegados de seus partidos podendo ser substituídos caso não venham a agir de acordo com a orientação da legenda, ou sempre que esta considere do seu interesse alterar os quadros de sua representação na Câmara Federal, ou nas Assembleias. Tais alterações seriam feitas sempre por convenções, o que estimularia o funcionamento dos partidos durante todo o tempo e, não, apenas nas vésperas de eleição.

2) Caberia às Assembleias Legislativas a fixação do número de distritos eleitorais,  consequentemente, o número  de parlamentares federais e estaduais que caberia a cada distrito, segundo o o número de vagas fixado em cada Estado.

3) Para compatibilizar os números diferentes das bancadas estaduais e federais, os distritos poderiam eleger um deputado federal e de um a três estaduais.

Exemplos:

a)   Mato Grosso tem 8 deputados federais e 24 estaduais. Assim, o Estado poderia ser dividido em 5 distritos. Cada um deles elegeria 1 federal e 3 estaduais: Sobrariam 3 vagas federais e 9 estaduais para serem preenchidas por representantes dos partidos.

b)   São Paulo tem 60 federais e 84 estaduais. Assim, o Estado poderia ser dividido em 50 distritos, que elegeriam um federal e um estadual, sobrando 10 vagas na Câmara e 34 na Assembleia para serem preenchidas pelos representantes dos partidos.

4) Como as eleições distritais seriam feitas em dois turnos, a contagem do voto de legenda para a distribuição das vagas dos representantes seria feita no primeiro turno. Isso possibilitaria a verificação da expressão real de cada um dos partidos, que poderia ficar um tanto alterada, no segundo turno, quando normalmente deverão ser feitas as alianças para obtenção da maioria absoluta.

Vantagens do Sistema

Parece nítida a tendência de se adotar o sistema de voto distrital, pelas vantagens que ele tem ao dar maior representatividade aos deputados; diminuir os custos das campanhas eleitorais e estabelecer maior ligação entre o povo e seus representantes.

Porém, a adoção pura e simples do voto distrital nos moldes em que funciona nos Estados Unidos e na Europa, poderá enfraquecer a representação partidária, uma vez que na disputa regional os votos tendem a ser dados mais por preferências pessoais, que partidárias ou ideológicas. Além disso, haveria –  como há em outros países que adotam este sistema – a propensão ao restabelecimento do bipartidarismo, que já provou não ser condizente com as realidades brasileiras.

Há também – no voto distrital puro e simples – o risco de grandes lideranças nacionais virem a ser derrotadas em disputas majoritárias (até o grande Churchill perdeu uma reeleição no seu distrito, após ter levado a Inglaterra à vitória na 2ª Guerra Mundial). Esse risco também existe no atual sistema brasileiro. E é mais grave e injusto para com os pequenos partidos. Neles as principais lideranças acabam sendo sacrificadas na disputa de eleições majoritárias – quase sempre sem nenhuma condição de vencer – para que outras lideranças menores tenham a oportunidade de disputarem eleições parlamentares.

O mesmo risco, tem afugentado grandes lideranças de grandes partidos da disputa de eleições majoritárias (O Ulisses Guimarães nunca disputou o Senado ou o Governo).

No Brasil, é tão grande a falta de lideranças expressivas, que chega a ser um desperdício deixar fora da vida pública por até 4 anos, políticos de grande expressão, que devem ter seus lugares nos parlamentos para garantir a participação de seus grupos e seus ideais no jogo democrático.

O distrital misto, aqui proposto, neutralizaria grande parte desses problemas. Para começar, fortaleceria os partidos políticos pelos seguintes motivos:

a) instituiria a representação – direta dos partidos nos parlamentos, independentemente do humor e conveniências das pessoas eleitas que podem mudar de legenda, ou simplesmente ignorar os programas partidários no desempenho de seus mandatos.

b) obrigaria o funcionamento dos partidos durante todo o tempo, para fiscalizar e até substituir seus representantes nos parlamentos, ao invés de funcionarem apenas nas vésperas de eleições para escolha dos nomes das listas de candidatos.

c) o funcionamento permanente dos partidos estimularia o aumento de filiações e formação dos diretórios municipais e regionais.

d) daria condições para que fossem aproveitados, como representantes, os nomes de expressão partidária que eventualmente venham a perder a eleição em um distrito ou a disputa para o Senado, Governo e Presidência da República, da mesma forma poderiam ser aproveitados os governadores em final de mandato, que ficariam livres do problema de truncarem suas administrações, para se desincompatibilizarem a tempo de disputar uma vaga no Senado ou Câmara.

Para se evitar que as vagas de representantes venham a ser preenchidas por tecnocratas dos partidos, a Lei exigiria que a escolha desses delegados só pudesse recair sobre pessoas que tivessem disputado mandatos, nas últimas eleições. Com isso seriam evitados os “biônicos”.

Creio que tal sistema poderia garantir, de maneira mais justa, a participação de um maior número de lideranças expressivas nos parlamentos, o que contribuiria para maior estabilidade do jogo democrático.

Já apresentei esta ideia a diversos amigos, inclusive parlamentares. Mas ela não foi em frente. Então. Como não contenho minha vontade de mudar as coisas,  resolvi colocá-la em meu blog para debatê-la com os leitores. Vamos  ver no que vai dar…

Se você gostou dela, por favor, repasse-a para seus amigos.

Se não gostou, aponte-me o aspecto que não achou certo. Quem sabe se conversando a gente pode chegar a alguma algo melhor.

7º Portelaço, um festão

para ninguém esquecer

02 de setembro de 2013

Cinco prendas.

Cinco prendas.

Os gaúchos não deixam seus pagos. Para onde vão, levam pedaços da República Rio-Grandense, para – como mudas – plantá-los, nos mais diferentes confins do Brasil e, neles, continuam vivendo seus costumes e cultuando suas tradições – quase sempre, com mais ardor e paixão que em muitos outros lugares do próprio Rio Grande do Sul.

Apresentação de Fandango.

Apresentação de Fandango.

No Norte de Mato Grosso, o “Nortão” , estão  se desenvolvendo e frutificando  muitos pedaços da terra farroupilha. Matupá, Colider, Sinop, Terra Nova do Norte, Nova Guarita, Canarana, Água Boa, Nova Xavantina, Juara, Juína, Guarantã, Alta Floresta, Lucas do Rio Verde e Sorriso diferem-se em tamanho, grau de desenvolvimento e em rapidez  de crescimento. Mas em todos esses lugares há um CTG – Centro de Tradições Gaúchas, onde se mata as saudades do sul com muito chimarrão, churrascos, danças típicas, declamações de poesias, repentes e muita música bem gauchesca. Prendas lindas de saias longas e bem rodadas, peões guapos, de bombacha guaiacas e chapéus pretos de abas largas dão vida e animação às festas, que podem durar dias e noites, quando há algo a ser comemorado.

Poeta Silvio Francisco Lima, o "Bugiu".

Poeta Silvio Francisco Lima, o “Bugiu”.

O Portelaço talvez seja a maior dessas festas. Nasceu da imaginação de Silvio Francisco Lima, o “Bugiu”, poeta, declamador e animador de festas típicas, originário de Tenente Portela, município minifundiário do Norte do Rio Grande do Sul, um do principais exportadores de colonos para Mato Grosso e outros estados. “Bugiu” organizou o Portelaço como um encontro festivo bianual de portelenses espalhados por todo o Brasil.

Lindinha

Gente bonita, gente feliz.

O empreendimento deu certo e o 7º Portelaço aconteceu no domingo, 25 de agosto, em Terra Nova do Norte, um dos cinco municípios resultantes de projetos de colonização, implantados nos anos 70 por Norberto Schwantes, ex-pastor luterano de Tenente Portela. O local escolhido foi o CTG Querência Nova, instalado junto a um belo bosque, relíquia da majestosa selva que cobria toda a região. Lá estavam montadas barracas para venda de artesanato,implementos agrícolas e, também, de orquídeas.

Linda orquídeas.

Linda orquídeas.

Como de costume, a festa começou às sete da manhã, com duas grandes mesas para o café, repletas de frutas, sucos,cucas, chimias, bolos, queijos e pães de vários tipos e com muitas rodas de chimarrão, para os 2,2 mil participantes, que pagaram R$ 50 , cada adulto, por um dia cheio de diversões e comilanças.…………………………………………………………………………………………………………………………………………….

Gauchinho

Gauchinho

Ao café, seguiu-se a “Missa Crioula”, o ritual católico com roupagem totalmente gauchesca: padre com laço de lenço vermelho no pescoço; sermão e diversas outras falas em versos repentistas, músicas sacras  tocadas e cantadas como rancheiras, ofertório de laço, sela, bombachas e muita alegria, simbolizada por um animado fandango.

Aí veio o que todos já esperavam ansiosamente: o almoço, com cardápio de lamber os beiços.  churrasco, arroz tropeiro, farofa e salada.

A homenagem aos pioneiros veio depois, com a entrega da Comenda Desbravador Norberto Shwantes, em uma sessão extraordinária da Assembleia Legislativa. Entre os homenageados, Gertrud Shwantes, viúva de Norberto, e Augusto Dunk, pioneiro de Canarana, com seus quase dois metros bem empertigados, firme e lúcido aos 91 anos de muito trabalho.

Augusto Dunk, pioneiro em Canarana, recebe a Comenda Desbravador Norberto Shwantes

Augusto Dunk, pioneiro em Canarana, recebe a Comenda Desbravador Norberto Shwantes

Gertrud Schwantes, viúva de Norberto Schwantes e homenageada do dia.

Gertrud Schwantes, viúva de Norberto Schwantes e homenageada do dia.

A apresentação dos grupos de dança de CTGs da região veio a seguir, como um espetáculo de graça e elegância. Olhos arregadados em toda a volta. Dos adultos, voltados para a beleza e simpatia das prendas e peões. Das crianças, voltados para os passos e volteios dos dançantes, na tentativa de imitá-los e se prepararem para os espetáculos que darão daqui a alguns anos.

Aprendendo a dançar.

Aprendendo a dançar.

Os Monarcas, sucesso garantido por onde tocam.

Os Monarcas, sucesso garantido por onde tocam.

O festão atingiu seu ponto alto por volta das 4 da tarde, quando começou a apresentação de música e humor da banda “Os Monarcas”, vinda diretamente do Rio Grande do Sul, onde é sucesso garantido em toda festa que vai. Após as primeiras rancheiras, já estava formada uma agitada pista de dança no terreiro de chão batido em frente do palco. O grande aglomerado de casais saracoteantes começou levantar poeira. Para apagá-la, pulverizou-se água pelo chão, dando origem a uma fina camada de lama. Ninguém se importou com isso. Peões de bombacha e prendas de salto alto continuaram coladinhos, repetindo um giro atrás do outro e o baile foi até a madrugada.……………………………………………………………………………………………………………………………………

Prenda e Peão animados dançando Fandango.

Prenda e Peão animados dançando Fandango.

Pé na lama.

Pé na lama.

……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….Agora Agora é esperar o 8º Portelaço, marcado para a última semana de 2015, justamente em Tenente Portela, que foi a origem de toda esta epopeia. Até por lá!

 

Família linda. Continuidade das tradições.

Família linda. Continuidade das tradições.

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Canadá, ares europeus

bem no topo da América

30 de agosto de 2013

Não se pode dizer que o Canadá seja um pedaço da Europa, simplesmente porque o Canadá é muito maior que a Europa

inteira.

Também não se pode dizer que o Canadá é um prolongamento dos Estados Unidos, no rumo das vastidões geladas do Oceano Ártico.

Guarda Real em Otawa

Guarda Real em Otawa

São dois países diferentes, com culturas próprias. O Canadá tem alguns ares europeus, pela pluralidade de línguas (lá o inglês e o francês são idiomas oficiais e, nas ruas, nos parques e no comércio, ouvem-se dezenas de outras línguas faladas por imigrantes de todas as partes do mundo, (especialmente de Portugal). Mais um traço europeu é a afinidade com a monarquia. Embora independente do Reino Unido, desde 1867 – o Canadá tem orgulho de ter a rainha Elizabeth II, como sua soberana, e também uma guarda do Parlamento, em Otawa, parecidíssima com a do Palácio de Buckingham, em Londres.

Canadá e EUA já fizeram uma guerra entre eles, de 1812 a 1815.

“Essa guerra não é muito conhecida porque Hollywood nunca fez filmes sobre ela, pela simples razão de que os Estados Unidos foram derrotados, mesmo tendo vantagens em recursos e na quantidade de soldados em seus exércitos” – diz, com ironia, o professor Paulo Gaspar, guia do Museu da Civilização de Otawa.

A Guerra de 1812 foi sepultada e esquecida pelos dois países, que hoje compartilham pacificamente os 8.891 km  da maior fronteira terrestre do mundo (2.477 km entre o norte do Canadá e o Alaska. mais 6.414 km entre o sul do Canadá e o norte dos EUA.

Cataratas do Niagara

Cataratas do Niagara

Essa fronteira é pontilhada por grandes atrações, como as cataratas do Niagara, o arquipélago das Mil Ilhas e os Grandes Lagos.

As cataratas do Niagara são bem menores que as do Iguaçu, tanto em altura, como no volume médio de água e quantidade de quedas. Mas tem algo que compensa essas inferioridades numéricas: a impressionante beleza de suas águas azuis, límpidas e cristalinas. Realça estas qualidades de Niagara a enorme facilidade de se chegar até elas.

Turistas lotam as embarcações

Turistas lotam as embarcações

Apenas três ou quatro metros separam a calçada da principal avenida de Niagara Falls (a cidade do lado canadense), do ponto em que despenca o enorme caudal, formador de uma densa  cortina de cerração, onde brilham arco-íris que parecem estar ao alcance das nossas mãos. Barcos apinhados com aproximadamente cem turistas, cada um, navegam entre patos selvagens no meio da neblina e dos chuviscos, nas águas tumultuadas e espumadas, logo após as quedas. Tudo é lindo, emocionante, maravilhoso!

Arco-íris ao nosso alcance

Arco-íris ao nosso alcance

Cidade de Niagara on the Lake

Cidade de Niagara on the Lake

A uns 20 km abaixo das cataratas, na foz do Niagara no Lago Ontário, está a cidadezinha de Niagara on the Lake. É encantadora. Já foi aldeia de pescadores e capital do Canadá colonial. É toda construída em estilo vitoriano, bem arborizada e florida como poucos lugares no mundo.

Mansões de veraneio no Arquepélago das Mil Ilhas, ao melhor estilo "Castelo Medieval".

Mansões de veraneio no Arquepélago das Mil Ilhas, ao melhor estilo “Castelo Medieval”.

A menor ponte internacional do mundo.

A menor ponte internacional do mundo.

Outra maravilha nesta parte da fronteira com os EUA é o arquipélago das Mil Ilhas, no São Lourenço. Na verdade, são mais de 1700 ilhotas, que se espalham pelo trecho fluvial entre Toronto e Otawa. Desde o começo do século passado, elas são ocupadas por casas de veraneio. Algumas parecem castelos medievais. Têm até pontes movediças sobre fossos de pedra. Entre duas dessas ilhotas está a menor ponte internacional do mundo. São apenas 4 metros para se ir do Canadá aos EUA, ou vice versa.

Nova era para o jornalismo?

 09 de agosto de 2013

Caros leitores,

Sou um otimista empedernido. Quanto mais notícias ruins eu vejo, mais alternativas  otimistas imagino. E – como acontece com os malucos gabolas – sempre tenho a convicção de que estou certo. Se há alguma dúvida sobre o acerto  da minha projeção, não me preocupo, pois o tempo mostrará que ela está correta.

Desta vez, não foi preciso mais de três dias. Na sexta-feira,  respondi aos lamentos da jovem colega Mayara Rabelo, ex- editora do Jornal da Cidade, aqui de Pinda. Ela reclamava que a Internet, com seus péssimos textos, esta engolindo jornais e revistas, gerando ondas de demissões.

Respondi: “Agora, cabe aos jornalistas levarem os bons textos para a Internet.” Na segunda-feira, estava nos jornais que Jeff Bezos, o magnata do comercio na Internet, comprou o Washington Post por US$ 250 milhões (só 1% da sua fortuna) e disse que não vai fazer demissões, nem grandes alterações no jornal de 136 anos, um dos mais respeitados e tradicionais dos Estados Unidos.

Tenho certeza de que o Bezos está começando a fazer justamente o que eu previa: Levar excelentes jornalistas para fazer ótimos textos na Internet.

O bilionário tem nome parecido com o de um palhaço famoso. Mas não é palhaço, nem bobo. Então, qual o significado de ele ter pagado um quarto de US$ 1bi por um jornal  atolado em crise (perdeu 44% do seu faturamento nos últimos seis anos e 6% da circulação, só no 1º semestre deste ano)?

Pra mim, tá na cara! Ele quer montar o grande império do jornalismo na era da Internet. Ou seja, quer ser o rei das comunicações em escala planetária. Já dispõe da estrutura comercial para dar suporte. Faltavam os bons jornalistas para produzir grandes reportagens, artigos com opiniões para se espalhar por todo o mundo e mais um bom punhado de coisas que só ótimos jornalistas sabem fazer. Para tanto, poderia ter formado uma equipe de profissionais.

Mas isso não é coisa de bilionário. Bezos não iria se preocupar em selecionar e contratar equipe, formar o time e definir estratégia de jogo. Como para ele grana não é problema (é solução para tudo!) resolveu comprar logo o time inteiro, em plena atividade. Não, qualquer time. Mas um dos campeões nacionais com currículo de fazer inveja a colegas  de todo o mundo.

Pronto. Está formada a base de uma nova e gigantesca revolução nas comunicações em todo o mundo. Como estas coisas de internet se alastram  rapidamente, logo, logo ela estará chegando aqui pelo Brasil, basta que tenha sucesso o novo empreendimento do Bezos. E ele não é de errar suas tacadas.

Portanto, um novo jornalismo está nascendo e muitos novos empregos serão criados.

Agora, cá entre nós:

Não é curioso o Bezos ter feito este negócio, logo depois de eu ter mandado o e-mail pra Mayara?…

Acho que ele estava lá ao lado do pessoal da Cia que fica espionando e-mails de todo o planeta e aprovou a minha ideia!

Pena que não dá pra cobrar direitos autorais!…

Abraços.

Priorize o lazer,

priorize a vida!

25 de junho de 2013

“Seus papos sobre viagens me dão muita vontade de também sair por aí. Pena que não tenho tempo” – Este é o comentário mais comum que ouço de amigos meus, leitores do meu blog (http://falaeescrita.wordpress.com/batepapo/) ou das 2 páginas que assino na revista Rodovias & Vias, de Curitiba. A todos, mostro que tempo existe,ou não existe, conforme os  critérios que usamos para  estabelecer prioridades na nossa agenda de trabalho. Aí, o lazer deve estar entre as primeiras, inclusive como garantia de que teremos tempo para as outras tarefas que não estão no topo da lista.

O raciocínio é fácil, mas parece difícil de ser entendido por quem só prioriza o trabalho, a necessidade de ganhar dinheiro e, por vezes, bobos compromissos que se se assume no nosso dia a dia. Eu mesmo levei mais de 40 anos para entender a prioridade do lazer. Cheguei a passar 17 anos sem férias, mergulhado no corre-corre de produzir notícias todos os dias. Sobrevivi a esse sufoco porque, entre uma reportagem e outra, dava uma rápida e boa respirada, em uma viagem, em uma conversa agradável, ou, simplesmente, por cuidar de um  outro assunto. Raramente levava serviço para casa. A profissão me dava o privilégio de ter dias diferentes, com tarefas diferentes e o principal: o que não foi feito naquele dia, quase sempre,já não interessava mais. Portanto, os trabalhos por fazer não se acumulavam. Não ficavam atormentando meus neurônios, não azedavam o meu humor.Fico imaginando o horror que deve ser a vida de mergulhados no trabalho, sem os privilégios que minha profissão me deu. Alguns até gostam e se orgulham de viver a vida em um sofoco contínuo, sem tempo para a família ou para recreações, que qualificam simplesmente de vagabundagens. Aí, vão esticando a corda. E, uma hora,sem se esperar, elas e arrebenta em um piripaco que decreta suas férias para sempre. Aí, ficam sem ser feitas as “mil coisas” que a pessoa nunca iria fazer, e também uma boa parte que ela poderia realizar, se tivesse dado prioridade para alguns momentos de lazer, para refrescar a cuca, reabastecer as baterias  e levar a vida pra frente, numa boa!

Portanto, se você quer produzir mais, Priorize o lazer, priorize a vida!

Cuiabá-Santarém, a

minha velha amiga

17 de junho de 2013

A Cuiabá-Santarém – BR 163 – é velha amiga minha. Como repórter de O Estado de S. Paulo eu a acompanhei, desde sua gestação (a definição de seu traçado em cartas calcadas sobre levantamentos do Projeto Radam – a mais avançada tecnologia de geo-referenciamento, disponível no Brasil do começo dos anos 70; às picadas de topografia na selva, para colocar no chão o que eram riscos nos mapas; depois, os trabalhos de terraplenagem). Aí, seu nascimento – a inauguração dela pelo presidente Ernesto Geisel, em outubro de 1976, quando fui um dos primeiros paisanos a percorre-la integralmente, de ponta a ponta.

É estranho chamar uma estrada de amiga, mas é justamente isso que ela é para mim. Proporcionou ao jovem foca que eu era excelentes oportunidades de produzir boas reportagens, que me abriram portas para ascensão profissional. Especialmente a cobertura da expedição dos irmãos Orlando e Cláudio Villas Boas, que ia à vanguarda da equipe de topografia, buscando contato com os lendários índios gigantes, para transferi-los ao Parque Indígena do Xingu.

Essas reportagens foram aventuras fantásticas, inacreditáveis, fascinantes, E, apesar de cercadas de muitos perigos, nunca me causaram um arranhão.

Agora, tive a grande alegria de aceitar o convite da Rodovias e Vias, para acompanhar sua equipe de reportagem, que foi à BR 163 documentar o asfaltamento da estrada no Estado do Pará, trabalho que, em Mato Grosso, já foi todo feito há mais de 20 anos.Foi uma alegria muito especial, emocionante. Voltei a trechos que percorri, ainda na picada da topografia, em carreta puxada por trator ou, pior,em caminhadas de dias inteiros, tropeçando em cipós, raízes, troncos tombados, em um calor sufocante. Agora, a gloria: mais de 120 por hora, em bom asfalto, numa Doblô com ar condicionado, ouvindo Wagner, Villa Lobos, Luiz Gonzaga…No trecho em obras no Estado do Pará, mais de 800 km, de “rallye”, pistas escorregadias, atoleiros, erosões que comeram aterros, criando verdadeiros precipícios..Resumindo:alto índice de emoções por quilometro.

Este atoleiro no sul do Pará é parte dos 800 km de “ralye”

Este atoleiro no sul do Pará é parte dos 800 km de “ralye”

Na década de 80, enquanto o trecho matogrossense era asfaltado, o paraense era completameste abandonado. Não foi interditado, nem cresceram árvores no meio da pista, como muita gente diz em Cuiabá.. Mas foi suspensa uma linha de ônibus que ligava Santarém a Cuiabá, desde a inauguração da estrada. Motivo: um trecho de aproximadamente 300 qilometros – entre Castelo dos Sonhos e Guarantã (fim do asfalto) só era cruzado em uma semana ou mais, dependendo da sorte de se conseguir ajuda para sair dos buracos e atoleiros.

SAUDADES DA SELVA

A alegria de rever a BR 163 só foi diminuída por uma doída saudade da selva amazônica. Antes, ela estava ali, na beirinha da estrada, exuberante, densa, compacta e ininterrupta pelos mais de mil e duzentos quilômetros, de Sinop a Santarém. Agora, para ver selva, só com um possante binóculo, que possa mostrá-la, atrás de muitos quilômetros de pastagens ou lavouras de soja, milho e algodão.

Pelo menos, estas terras cultivadas proporcionam milhares e milhares de empregos e milhões de toneladas de alimentos, que – em pouco mais de 20 anos – tornaram o Norte de Mato Grosso uma potência mundial na produção de carnes e grãos. Riqueza que proporciona aos novos municípios que nasceram às margens da 163 os melhores índices de distribuição de rendas do Brasil.

A mais de 120 por hora, agora, uma glória

A mais de 120 por hora, agora, uma glória

Triste mesmo é ver que em enormes áreas a selva foi simplesmente devastada, sem beneficiar trabalhadores ou a região. As florestas que não foram simplesmente queimadas sofreram desfalque de suas árvores maiores, no desenfreado extrativismo madeireiro. Assim, a majestosa floresta original, transformou-se em manchas de mata rala, desmilinguida, raquítica.

Em muitos municípios, como Novo Progresso, Sul do Pará, só sobrou floresta no nome de estabelecimentos comerciais: Drogaria Floresta, Padaria Floresta, Depósito de Ferros Floresta etc.

ÁGUAS TURVADAS

Outra amarga e grande saudade que tive nesta viagem foi das águas limpas e cristalinas, de azul muito vivo, do Tapajós. Elas permitiam que se visse o fundo do rio, coberto de areias brancas, como se fossem os azulejos de uma piscina de águas bem tratadas.

As águas do gigante Tapajós – que tem mais de 15 km de largura, na sua desembocadura no Amazonas, em frente Santarém – embora ainda muito belas,deixaram de ser cristalinas por causa dos garimpos de ouro que chafurdaram as grotas de rios menores em toda a região.

Pior, o garimpo deixou de ser uma atividade manual com enxadas, pás e bateiras, manejadas por poucas pessoas. Passou a ser empreendimento de empresas, legais e ilegais que usam enormes dragas para escarafunchar o fundo dos rios. Antes da abertura da estrada essas balsas e o combustível para elas não conseguiam chegar até lá.

Plana, larga, reta. Só falta o asfalto

Plana, larga, reta. Só falta o asfalto

FRUTO DA DITADURA

A Cuiabá–Santarém é irmã gêmea da Transamazônica. A construção de ambas foi o assunto nacional mais noticiado do início dos anos 70. Foi a principal peça de propaganda da ditadura Médici, que apontava as rodovias como “obras épicas” e grande solução para a maioria dos problemas do Nordeste, “com muita gente e pouca água” e da vasta Amazônia, “com muita água e praticamente desabitada”.

Parecia que o governo queria resolver graves problemas socioeconômicos, simplesmente com a aplicação do princípio dos vasos comunicantes. Com esses enfoques governamentais, as notícias sobre as estradas saíam em toda a imprensa brasileira (menos no Estadão, que tinha enfoque próprio e bastante crítico) e em muitos jornais e revistas do exterior. Era o que Médici precisava para ofuscar as denúncias de prisões políticas, torturas e outras violações de direitos humanos fundamentais, pelas quais seu regime começava a ser conhecido internacionalmente.

Para os nacionalistas – especialmente os existentes nas Forças Armadas – as estradas que desenhavam uma grande cruz no mapa do Brasil eram resposta a uma grande preocupação que chegava a ser paranóica: a de que os grandes vazios demográficos da Amazônia viessem a ser invadidos pelos Estados Unidos (então atolados até as orelhas no pântano da Guerra do Vietnã) ou pela força da fome de 700 milhões de chineses.

trecho asfaltado

A BR-163, Cuiabá-Santarém foi a gêmea que deu certo, pelo menos no aspecto econômico-social. Embora fosse a menos falada. tinha uma grande vantagem sobre a Transamazônica: ligava sua região ao Brasil desenvolvido do centro-sul e, assim, era a rota natural para a migração de paranaenses, catarinenses e gaúchos para a Amazônia. Isso atraiu para a região servida pela 163 grandes investimentos de colonizadoras privadas, enquanto a Transamazônica só teve áreas colonizadas pela emperrada máquina estatal do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, atendendo uma população muito mais carente.

Outubro de 2008

Osorno, o “Fujiama”

mais perto de nós

Vulcão Osorno, "versão chilena" do Monte fuji, região de Los Lagos.

Vulcão Osorno, “versão chilena” do Monte Fuji, na região de Los Lagos.

O monte Fuji, ou Fujiama é uma das maravilhas da natureza apreciada e propagandeada por todo o mundo. São marcas do Japão a montanha perfeitamente simétrica e seu cume pontiagudo, coberto pelo gelo permanente, próprio das grandes altitudes. Coisas que valem a pena ser admiradas. Pena que o Japão fica exatamente no outro lado do planeta. Como custa muito chegar até lá, é uma sorte que a natureza tenha feito uma cópia do Fujiama, no sul do Chile, bem mais perto da gente.

É importante notar. que este é um dos raros casos em que a cópia é melhor que o original (nem sei se é cópia pois as duas montanhas podem ter tido até origens simultâneas, há milhões de anos). O Fujiama chileno chama-se Osorno e é a primeira das maravilhas que se vê na travessia dos Andes pela região do lagos, indo-se na direção de oeste para leste.

No alto de uma colina a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, marca da colonização germica do século XIX.

No alto de uma colina, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus marca a colonização germânica do século XIX.

Esta travessia dos Andes é uma outra maneira de se ir a Bariloche. Em vez de um vôo direto de duas horas e pouco, uma semana de aventuras, paisagens, sabores e emoções inesquecíveis. Os pacotes turísticos para lá são um pouco mais amplos. Começam por Santiago, com uma esticada, por terra, a Valparaíso e Viña del Mar. Depois, um voo para o sul, até Puerto Montt e, de lá, vinte minutos de carro até Puerto Varas. Esta pequena cidade é um encanto. Fica de frente para o Osorno e, entre a cidade e o vulcão, está o Lago   Llanquihue, o segundo maior  do Chile e o terceiro da América do Sul. Marca da colonização germânica no Século 19, lá está no alto de uma colina a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. É linda e feita de madeira.

Puerto Varas é o ponto de partida para a travessia dos Andes e a primeira parada é nos  Saltos do Petrohué, um fabuloso emaranhado de corredeiras e cachoeiras de águas cristalinas em meio a matas e pedras negras.

Vista do Monte Pontiagudo

Vista do Monte Pontiagudo

A etapa seguinte é uma navegação de quase duas horas pelo lago de Todos os Santos, ou Esmeralda, cor que têm as águas provenientes dos degelos. Aí surge mais um lindo vulcão, o Pontiagudo. Os vulcões podem ser vistos de dois jeitos: um, ao natural- nítidos, firmes e majestosos; outro, meio fora de foco, trêmulos – refletidos nas águas cristalinas do lago. Não há quem resista à tentação de deixar a aconchegante cabine do catamarã – dotada de calefação para sair ao vento frio do convés e apreciar a paisagem deslumbrante.

Catamarã

Catamarã ancorado no pacato povoado de Peulla.

O catamarã para em Peulla, que segundo ironia do guia turístico, tem oito habitantes: cinco pessoas, dois cachorros e um gato. O povoado – que é a ultima parada em território chileno – limita-se a dois hotéis (um velho e outro novo) mais meia dúzia de casas de funcionários do Parque Florestal e do posto de fronteira. Tem pouca gente, mas tem maravilhas de se perder a conta. O lugar é cercado por montanhas sempre cobertas de neve, tem muitas flores, um mini-zoológico, e um ribeirão de águas calmas, que convida a gente a fazer um passeio de barco. Noite de paz, frio e muitas estrelas. Na manhã seguinte, a viagem prossegue por uma sinuosa estradinha de terra, em um ônibus, rústico, com tração nas 4 rodas. No meio da reserva florestal. Bem no alto, na virada da montanha, está a fronteira do Chile com a Argentina e, logo após, já se vê o magnífico Monte Tronador, que tem este nome pelos estrondos que ele emite com o despencar de grandes blocos de gelo em derretimento.

Uma descida íngreme, e a estradinha leva a Puerto Frias, na beira do lago do mesmo nome. Revista das malas na alfândega argentina, mais 20 minutos de navegação pelo Lago Frias e outros 15 de ônibus, até Puerto Blest. Aí existe um bom restaurante, especializado em trutas e o píer do grande catamarã, que vai até os arrabaldes de Bariloche, navegando o Lago Nahuel Huapi.

Lago cercado por grandes paredões.

Lago cercado por grandes paredões.

No começo, a navegação é feita por um braço reto do lago, cercado por dois paredões de montanhas muito altas, das quais despencam longos fios de água do degelo, em lindas cascatas no meio das árvores. Para completar o cenário, gaivotas dão voos rasantes sobre o catamarã para comer pedaços de pães e bolachas, que os passageiros oferecem para elas. Quem já esteve na Escandinávia, garante que o braço do Nahuel Huapi é semelhante a um fiorde. Independentemente de semelhanças, ele é lindo.

Boas lojas de malhas de tricô, ótimos restaurantes e mirantes, especialmente o do Cerro Catedral, a maior pista de esqui da América do Sul. Bariloche é cidade de mil atrativos e todos ele estão repletos de brasileiros, no inverno e no verão. Por isso, os próprios habitantes apelidaram a cidade de “Brasiloche”.

O lugar certo para a casa

Grande contador de causos, que ele mesmo inventava, fumante de cachimbo e cigarros de palha, ótimo na pontaria de um bodoque para caçar passarinhos. Dito Campos era um velho muito querido e respeitado na Pindamonhangaba dos anos 40/50.

Naquela época, meu pai, Manoel César Ribeiro, comprou umas terras na Serra do Quebra-Cangalha, bem depois do Goiabal, quase chegando no Alto do Macuco. A propriedade era muito feia. Ficava em uma grota ao lado de um grande brejo e tinha uma casa velha meio caindo aos pedaços, no meio de um mato ralo. Papai resolveu transformá-la em uma fazenda modelo. Do brejão, fez um belo lago, com gramado e flores nas margens, em terreno antes ocupado pelo mato em volta da casa. Logo levou para lá alguns patos e gansos que passaram a conviver em harmonia com mergulhões e paturis, vindos não sei de onde. Reformou e ampliou a casa velha, que ganhou uma ampla varanda ao seu redor.

Quando terminou esses trabalhos, viu que, no morro em frente, havia muitos coqueiros e,  nenhum, no lado onde estava a casa.

Não teve dúvidas: juntou um punhado de trabalhadores e, em um carro de boi, foram buscar dois coqueiros adultos para plantar nos lados da casa e completar a paisagem.

A primeira visita que papai recebeu na propriedade – que ganhou o nome de Fazenda NS das Graças – foi  o seu Dito Campos, que – carregando gaiolas e alçapões –  passou por lá em busca de curiós e canarinhos.

Depois de abraçar o amigo, disse com grande convicção:

“Olha Manoel, quando eu soube que você  comprou esta fazenda,  não tive dúvidas de que ia construir sua casa aqui na beira do lago, entre estes dois coqueiros.”

Ninguém gosta de sol na

Terra do Sol Nascente.

Depois de visitar o Japão, ao ver uma gueixa com aquela cara totalmente branca, você pode ficar em dúvida se aquilo é maquiagem, ou se ela é assim memo. De uma coisa você vai ter certeza: ela nunca tomou, nem nunca vai tomar um bom banho de sol, como nossas mulheres adoram.

Ribeirão que corta o centro de Tóquio

Ribeirão que corta o centro de Kioto

Cheguei a Kioto num começo de noite de sábado, em um tórrido verão. Vi que o centro da cidade é cortado por um belo ribeirão de águas cristalinas e encachoeiradas. Pensei: Amanhã estas pedras vão estar lotadas pelo povo da cidade.

Voltei para ver, na manhã de domingo. Surpresa: nenhum banhista na beira do ribeirão. Havia apenas um grupo de mendigos, debaixo de uma ponte, justamente para se abrigar do sol.

No Japão não se vê corpos quase nus dourando-se ao sol. Mas existem muitas outras maravilhas para se admirar.

Tanques com águas cristalinas, repletos de carpas, são recorrentes nos parques e jardins em meio à metrópole.

Tanques com águas cristalinas, repletos de carpas, são recorrentes nos parques e jardins em meio à metrópole.

A começar pelos parques e jardins cuidados com tal esmero, que se convertem em verdadeiras obras de arte. Com cascatas e tanques de águas muito limpas cheias de carpas vermelhas, eles têm a magia de transmitir um clima de tranquilidade, que convida à meditação.

A região metropolitana de Tóquio é a mais densa do mundo. Tem 37 milhões de habitantes. Apesar de todo esse enorme conglomerado humano, lá existem lindas e extensas áreas verdes. A principal delas está justamente no centro da capital.

Fosso da fortaleza que envolve o Palácio Imperial - Área verde no centro de Tóquio.

Fosso da fortaleza que envolve o Palácio Imperial – Área verde no centro de Tóquio.

É uma centenária fortaleza, cercada por fossos e altas muralhas de pedras que envolvem o palácio imperial. Os jardins do palácio têm 3,4 km2, área equivalente à do Central Park, em Nova York. Como parte da residência imperial, estes jardins têm acesso público muito limitado. Seu miolo só é aberto a visitantes dois dias por ano. No ano novo e no aniversário do imperador Akihito (23 de dezembro).

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Palácios estão espalhados por toda Tóquio.

Porém, Tóquio tem outros palácios e jardins que vivem cheios de visitantes, interessados em conhecer como imperadores e shoguns viviam. Era de maneira bem modesta, se comparada à realeza europeia da mesma época. Os palácios japoneses – sempre no meio de lindos bosques e jardins – são construções predominantemente de madeira. Telhados de pontas arrebitadas e largos beirais. Amplos salões forrados de tatame. Nada de mármores; nada de móveis. Apenas algumas arcas, enormes. Tudo simples e harmonioso.

Kinkakuji, ou Pavilhão Dourado, na cidade de Kioto. Com as paredes externas folheadas a ouro, destaca-se em meio à simplicidade japonesa.

Kinkakuji, ou Pavilhão Dourado, na cidade de Kioto. Com as paredes externas folheadas a ouro, destaca-se em meio à simplicidade japonesa.

A exceção à regra da simplicidade está em Kioto, no Kinkakuji, ou Pavilhão Dourado. Ele tem paredes externas folheadas a ouro e é um dos dois mil templos da cidade. Foi construído em 1397 por ordem do samurai Yoshimitsu Ashikaga e reconstruído em 1955, depois de um incêndio provocado por um monge que o considerava ostensivo demais. O Kinkakuji guarda as cinzas de seu samurai-construtor e as dos seus seguidores. Por isso, tornou-se um templo respeitado por todos os japoneses.

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Nos parques japoneses é comum encontrar ciclistas que levam sombrinhas abertas e fixadas nos guidons de suas bicicletas. Quer dizer: “Pedalar, sim. Sol, não”.

Sombra para o ciclista. Bicicletas no Japão vêm acompanhadas de acessórios como os guarda-chuvas.

Sombra para o ciclista. Bicicletas no Japão vêm acompanhadas de acessórios como os guarda-chuvas.

Outra originalidade: os motoristas de taxis usam luvas brancas para dirigir e cobrem os bancos de seus carros com capas de renda branca. Ou seja: algo corriqueiro, como um serviço de taxi é feito com uma sofisticação que não se vê em outros lugares do mundo.

Interior de um taxi no Japão.

Interior de um taxi no Japão.

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Por estas e por outras você vai voltar do Japão com mais uma certeza. Existe uma palavra que é marca de tudo que se fez e que se faz naquele país. A palavra é capricho.

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02 de maio de 2013

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Em S.Paulo, à procura

do“Toninho Meia-meia”

 

Esta história já completou 50 anos. Tenho certeza da data em que ela começou – l2 de fevereiro de l962 – porque era véspera do meu aniversário de 18 anos. Papai era prefeito de Pindamonhangaba e, em convênio com o governo do Estado, havia construído a nova sede do antigo Instituto de Educação “João Gomes de Araújo”, que até hoje – meio século depois – ainda é um dos dois maiores e mais majestosos prédios educacionais da cidade. O outro é o da EE “Alfredo Pujol”, construído em 1902. pelo engenheiro-civil Euclides da Cunha, autor do célebre “Os sertões”..

A nova e bela construção ficava em um loteamento recém-aberto, no que era arrabalde da cidade e fazia-se uma volta de uns 500 metros´para se ir do centro ao novo prédio. Essa volta podia ser eliminada com um prolongamento de uns 50 metros do beco, onde estava o instituto, até uma das vias principais da cidade, a rua Bicudo Leme.

Há mais de um ano, papai tinha grande vontade de fazer esse prolongamento, mas precisava desapropriar o terreno para tal obra e o minguado cofre da prefeitura não tinha dinheiro para tanto. Aí, nesse 12 de fevereiro, sem que se esperasse, o dinheiro surgiu. Então, era fazer a desapropriação – amigável – o mais breve possível, colocar as máquinas para trabalhar e a via estaria ponta até o começo das aulas no início de março. Nesse dia,  logo cedo, Papai foi conversar com a dona do terreno – uma senhora chamada Tarcila, já bem passada dos 80 anos. Para acertar o valor da desapropriação, a escritura, etc. À tarde, – pela sua assessoria jurídica – soube que a escritura também precisava ser assinada pela filha e pelo  genro da idosa, que moravam em São Paulo. Ambos receberiam uma bela bolada. Já bem tarde da noite, papai passou pelo meu quarto e me deu a missão:

– Amanhã, como você vai a São Paulo, você passa, logo cedo, na casa da D. Tarcila, lá perto do Instituto de Educação e pergunta a ela onde moram o genro e a filha dela. Aí, vai até lá e avisa os dois que depois de amanhã, no começo da noite, eu e o Luizinho do cartório estaremos lá para eles assinarem a escritura da desapropriação e receberem o cheque de pagamento. Aí, amanhã, à noite, você me liga para dar o endereço.

Seria muito fácil cumprir essa ordem, se não fosse a profunda falta de memória da D.Tarcila:

—Você sabe que eu não sei? – foi a curiosa pergunta-resposta que ela me deu, quando indaguei o endereço da filha. O mesmo “você sabe que eu não sei?” repetiu-se como uma ladainha após todas as minhas outras perguntas. Qual a profissão do seu genro? Onde ele trabalha? Sua filha tem algum emprego? Em que bairro eles moram?

Por fim, encerrei meu interrogatório com uma pergunta-desabafo, que rendeu uma resposta afirmativa:

Quer dizer que a senhora só sabe que sua filha chama-se Norma, seu genro, Antônio e mais nada?

Não, não!  – ela respondeu, um tanto encabulada por não me fornecer as informações que eu precisava – Eu sei que ele tem um apelido: Toninho Meia-meia.

Ótimo – pensei. Não resolve coisa nenhuma, mas é uma informação a mais… Claro que só para procurar um “Toninho Meia-meia” eu não iria a São Paulo. Não tinha informações mínimas para encontrar o genro sortudo, só com um apelido, em uma cidade que já beirava os 4 milhões de habitantes Porém, eu estava estudando química-industrial, em São Paulo, e precisava ir para lá para acertar questões de matrícula etc.

Lá fui eu, por sorte, de ônibus. Reclinei a poltrona para tirar uma soneca, mas continuava imaginando quem seria o tal Toninho:

Meia-meia é 66, portanto, ele é um homem numerado. Homem numerado pode ser guarda civil ou militar. Possivelmente um sargento que é numerado por uma dezena. Soldado, geralmente é um milhar e oficial não tem núnero… Porém, sargento não deve ser, nem guarda-civil porque pelo menos para economizar o dinheiro da passagem, alguma vez ele teria ido, fardado, visitar a sogra. E ela se lembraria disso. Qual outro tipo de homem numerado existe?

Minha cabeça fervia de conjeturas e eu não conseguia dormir. Nisso alguém me chamou. Era o fiscal da empresa de ônibus querendo ver minha passagem.

Quase gritei eureca, quando vi uma dezena gravada no distintivo da empresa em seu quepe. Pronto: tinha minha resposta o Toninho Meia-meia podia ser um fiscal de ônibus, imaginei. Motorista ou cobrador não seria porque eles são em quantidade bem maior e, por isso, numerados por centenas ou milhares.

Pronto. Tinha descoberto (ou imaginava ter descoberto) a profissão do meu Toninho. Mas, e daí? Ainda era muito pouco… Mas, muito mais que eu sabia quando saí da casa da sogra dele. Esse diferencial me animou a continuar em frente.

Próximo passo: telefonar para as empresas de ônibus da cidade de São Paulo. Já era começo da tarde, quando peguei uma lista “Páginas Amarelas” e me dispus a ligar para todas as empresas de ônibus da cidade, pela ordem alfabética, como estavam na lista. Mas, ligar para dizer o que? Na certa, seria um papo de maluco. Mas não tinha outro jeito.

Enquanto chamava a primeira empresa, descobri um jeito menos maluco de levar o papo com quem me atendesse. Pra começar, pediria que me ligassem para o Departamento de Pessoal. Aí, perguntaria, sem explicações nem rodeiros: Aí trabalha um fiscal de número 66, chamado Antônio e casado com uma senhora chamada Norma?

Ótimo se a resposta fosse um sim ou não. Mas, sempre, era uma outra pergunta: Por que o senhor quer saber? Aí eu tinha de contar a história da desapropriação e da desmemoriada velhinha de Pindamonhangaba. Não raramente, a resposta era: “não fornecemos informações sobre funcionários”.

Por sorte (Ah! Ela nunca me abandona!) não precisei ligar para muitas empresas. Em uma das primeiras – a Auto Viação Brasília –  a moça que me atendeu, muito simpática, pediu um minuto para consultar seus arquivos e me respondeu o esperado sim. Pulei de alegria e perguntei: onde ele mora?

–Aqui na ficha dele está um endereço lá do bairro da Quarta Parada. Mas também está anotado que ele está afastado por licença médica. E o nosso médico que foi visitá-lo no fim do mês passado informou que ele mudou-se de lá.

Tá legal! Achei e perdi o cara no mesmo instante. Mas… nada a lamentar, pois,  isso já era muito. Poderia achá-lo de novo, me animei. Se não tenho o novo endereço, serve o velho. Lá fui eu para a Quarta Parada. Do Centro fui de ônibus até o Brás e lá tomei o subúrbio da Central do Brasil. Na época, Quarta Parada era um fim de mundo que ficava nos confins da Zona Leste da capital a meio caminho de Mogi das Cruzes.

Ter o endereço anotado – rua 3, número tal – pouco adiantou porque os moradores numeravam suas casas como se fizessem apostas no jogo de bicho. Um achava simpático o número 255. O vizinho da direita achava melhor 684; o da esquerda, 1342 e assim por diante. Não havia qualquer tipo de ordem. Tive de andar toda a rua, comprida e poeirenta, até achar o número que eu procurava. Aí – lógico – não bati nele. Bati no vizinho e perguntei a uma senhora gentil que me atendeu: “Aqui ao lado morava a dona Neusa, casada com o senhor Antoninho?”

— Morava e eram muito amigos meus!

— Não sei, não – foi a resposta que ela me deu quando perguntei para onde eles se mudaram. Eu não sei, mas meu marido sabe- acrescentou, para meu alívio. Informou que seu marido fazia pequenos fretes em uma velha caminhonete e levou a mudança do casal para o novo endereço.

Cadê o marido? Não estava em casa. Voltaria no comecinho da noite, quando acabassem os fretes.

Esperei. Exausto, mas muito animado.

Logo após o por do sol, apareceu o marido.

— Eu não sei o endereço… Só sei ir lá – foi a resposta que ele me deu, após um papo um tanto comprido para o meu gosto E passou a me explicar o caminho:

— Você vai até o largo da Estação da Lapa e lá toma o ônibus Vila Nova Cachoeirinha. Ele pega uma estrada comprida e, depois de andar bastante vai passar sobre a ponte de um riozinho. Ao lado, tem um barzinho. Ainda não é nesse lugar. É quase um quilometro pra frente, onde tem uma outra ponte e um outro barzinho. É um riacho trágico: na semana passada choveu muito, teve uma enxurrada e matou uma criança afogada. Aí é só perguntar onde mora o Toninho, que o cara do boteco vai apontar uma casa verde com cerca branca, no começo de uma rua nova que sai da avenida.

Lá fui eu para o outro lado da cidade. Tomei o ônibus Vila Nova Cachoeirinha, quando eram quase 10 horas da noite. O ônibus chacoalhou, chacoalhou e eu dormi. Quando acordei, lá estava a ponte e o barzinho. Desci, fui ao boteco e perguntei: “Foi nesse riacho que morreu uma criança na semana passada?”

“Não. Foi no outro riacho aí na frente”- respondeu um homem que tomava um rabo-de-galo para encerrar o duro dia de batente, felizmente, sem se importar com o motivo daquela minha pergunta.

Caminhei mais uns 800 metros, subindo e descendo um morro e encontrei a outra ponte e o outro boteco. Nem precisei fazer novas perguntas. O farol de um carro, na curva da estrada iluminou bem uma casa verde, com uma grade de ripas de madeira pintadas de branco, no começo de uma rua que não tinha iluminação pública. Só podia ser a casa do Toninho Meia-meia. Finalmente, bati e ele mesmo me atendeu. Dei o recado do meu pai, Toninho ficou alegre e antes que eu corresse para o ponto do ônibus perguntou: “Como é que você conseguiu me achar aqui?”

“É uma história longa. Não dá pra contar agora’ – disse me despedindo para fazer o caminho de volta até o centro da cidade, onde na rua 7 de abril, fui usar a única cabine pública de telefone que a cidade tinha pra ligar para minha casa em Pindamonhangaba.

Mamãe me atendeu, eu deixei o recado para papai, de que eu tinha dado o recado dele ao genro da D. Tarcila: expliquei o caminho, recomendando que papai seguisse o ônibus Vila Nova Cachoeirinha, e mamãe, emocionada, me deu os parabéns pelos meus 18 anos.

Só aí, depois de tanta correria, lembrei-me que era o dia do meu aniversário. Não tive qualquer comemoração naquela data tão importante para mim. Mas, de “Alguém-Lá-de-Cima-Que-Gosta-De-Mim” ganhei um presente que até hoje me enche de orgulho: Achei o Toninho Meia-meia!

05 de junho de 2012

Uma prisão para

ser comemorada

22 de junho de 2012


Está fazendo 50 anos do dia em que fui preso e é uma data a ser comemorada com muita alegria. Realmente foi um dia de muita sorte para mim. Era o dia da volta da Seleção Brasileira, após a conquista do bi-campeonato mundial na Copa do Chile. A chegada do Caravelle da Panair do Brasil estava prevista para as 14 horas em Congonhas. Fui para lá por volta das 10 da manhã.

O  Aeroporto já estava lotado. Teve gente que madrugou por lá. São Paulo inteira estava nas ruas à espera da Seleção. Ao longo de todo o trajeto do Aeroporto ao Estádio do Pacaembu já não havia lugar para mais ninguém junto aos meios-fios, escadarias, muros, ou outros lugares apropriados para ver  e ovacionar o cortejo dos heróicos bi-campeões.  No aeroporto era completamente impossível encontrar uma fresta por onde se pudesse ver a Seleção.

Aí, como sempre, aparecem uns “sabidos” descobrindo a solução do problema. E  a solução encontrada foi  ir se pendurando nos galhos de uma trepadeira “primavera”, existente na calçada externa da estação de passageiros até subir na cobertura da ala norte do aeroporto, onde – então – funcionava o desembarque internacional. Segui os “sabidos” e achei que ia me dar bem. Ali da cobertura, a vista seria esplêndida, pois o Caravelle iria parar a poucos metros do local.

Seria…. se a polícia deixasse aquele povão todo se aglomerando na cobertura daquela ala, ameaçando fazer aquilo tudo desabar na cabeça dos nossos heróis e ilustres pessoas que os aguardavam. No começo a polícia militar (então chamada de Força Pública) agiu com muito bons modos. Pedia aos invasores do telhado que descessem em ordem e segurança. Ninguém descia. Driblava-se um policial aqui, outro alí e todos procuravam ganhar mais um minutinho, pois o Caravelle já estava para chegar. Aí, a polícia perdeu a paciência. Organizou um cordão em uma das estremidades da cobertura e de dá – baixando o cassetete, do jeito que a PM gosta, marchou contra a multidão naquele estilo que anos depois veio a se tornar muito conhecido na repressão a passeatas estudantis, comícios e outros “atos subversivos”.

A subida foi fácil e segura, com a gente se firmando nos galhos robustos da primavera. Mas a descida teve de ser em um salto só, sem planejamento, nem estratégia, porque as bordoadas da polícia não davam tempo para imaginar jeito melhor.

Dei um salto de uns quatro metros do telhado até a calçada. Amorteci a queda com as mãos, mas elas ficaram com as palmas raladas no cimento da calçada. Instintivamente, limpei os ferimentos no peito da camisa clara, que ficou toda estampada de vermelho. Aí, resolvi lavar as mãos. Quando saí do sanitário, na porta, estava acontecendo um sururu. A polícia, que chegou para apartar a briga, achou que a minha camisa suja de sangue era prova suficiente para me culpar da tal confusão que eu nem havia visto. O “Teje preso” foi instantâneo e irrevogável, apesar de todos meus argumentos contrários. Um par de algemas surgiu imediatamente e atrelou meu pulso direito ao esquerdo de um servente de pedreiro, – com a roupa manchada de cimento e cal e uma marmita debaixo do braço – inocente, como eu, mas também preso por causa da confusão.

O Aeroporto não tinha lugar reservado para presos. Então, fomos lavados para o que havia de mais parecido: a sala da Polícia Federal. Cercada por divisórias de compensado, ela tinha uns quatro metros por cinco e um lado envidraçado, dando frente para um corredor estreito, onde ficavam os guichês para carimbar os passaportes de quem chegava ou saía do país. Achei o lugar ótimo. Não poderia desejar outro melhor para ver  de perto a chegada dos atletas bi-campeões. Lógico que eles não iriam carimbar seus passaportes, coisa que super-heróis não fazem, nem nunca vão fazer. Mas teriam de passar pelo tal corredor, que era a única saída do aeroporto.

Não demorou muito e eles vieram. Cercados por uma compacta multidão, mais carregados do que andando, lá estavam Pelé, Garrincha, Zito, Amarildo, Vavá, Feolla, Paulo Machado de Carvalho, atletas e cartolas irmanados no doce delírio do triunfo. A gritaria de vivas era ensurdecedora. Sob certos aspectos a calorosa recepção até parecia hostil. Mas os super-heróis também se deliciavam com ela. Com as mãos atadas pela algema, eu e o servente de pedreiro acenamos para os atletas e, aparentemente, fomos correspondidos por eles. Foi a glória!

Mas nossa deliciosa aventura não terminou por aí. Logo que os jogadores e dirigentes da Seleção passaram pelo corredor e embarcaram no caminhão dos bombeiros, que os levaria até o Pacaembú, nós também embarcamos…

em um fusquinha da Rádio Patrulha, que nos levaria à Central de Polícia, então localizada no Pátio do Colégio, centro da cidade. Lá fomos nós. Sirene ligada, cortando a multidão que delirava e lentamente se arrastava em torno do caminhão dos bombeiros. Quatro ou cinco horas depois, quando passamos pela sede da Federação Paulista de Futebol, na Av. Brigadeiro Luís Antonio, um tenente da polícia parou nossa RP e perguntou ao cabo que a dirigia que tipo de delito tinha sido praticado pelos presos que ele levava. “Briga no Aeroporto, sem ferimentos”, informou o cabo. “Então, solte os dois e pegue outros dois, que trocaram facadas por aqui!” ordenou o tenente. Pronto. Estávamos alegres e soltos no centro da cidade, livres das despesas e do sufoco de pegar um ônibus lotado para fazer o mesmo trajeto. A Seleção só chegou à solenidade de recepção no Pacaembu depois das 10 da noite. Bem antes disso, eu já estava em meu apartamento na Av. São João, já havia tomado minha sopa e estava metido sob as cobertas naquela noite gelada.

São  tantas e tão gratas emoções  que  passados 50 anos daquele dia,  eu ainda me lembro dos mínimos pormenores daquela aventura que transformou a tristeza de uma prisão na alegria de um dia cheio de satisfações deliciosas para se recordar pela vida inteira.

RESUMO DA HISTÓRIA: Sou um cara tão sortudo que até minha prisão não é para ser lamentada. É para ser comemorada!

Há muitas maravilhas

neste Fim do Mundo

Ushuaia fica no extremo sul da América do Sul, lá naquela pontinha do continente em uma ilha quase sempre coberta de gelo, chamada de Terra do Fogo, a mais de 3 mil km de Buenos Aires.  Seus habitantes chamam o lugar de Fim do Mundo, por se tratar da cidade mais meridional do planeta. De lá, no rumo do Polo Sul (+/- 4 mil km), há apenas um pequeno povoado em torno da base naval chilena de Puerto Williams e as bases científicas de diversos países estabelecidas no Continente Antártico, a 1.100 km.

Se considerarmos as seculares convenções geográficas que colocam o norte na parte de cima dos mapas e do globo terrestre, seria mais certo que o lugar fosse apelidado de Debaixo do Mundo. Mas a brava gente argentina não aceita ficar por baixo de jeito nenhum…

Bobagem discutir o apelido mais certo. O importante são as  maravilhas naturais e o grande significado histórico do lugar, conhecido desde 1521, quando Fernão de Magalhães, português a serviço da Espanha, cruzou a região – um lindo labirinto de canais, ilhas, baías e montanhas de cumes sempre cobertos de neve – em busca de uma passagem entre os oceanos Atlântico e o que ele batizou de Pacífico. Encontrada a passagem, ela passou a chamar-se Estreito de Magalhães. O descobridor também batizou a grande ilha a leste da passagem com o nome de Terra do Fogo, em referência à grande quantidade de fogueiras feitas pelos índios Yagan para se aquecerem.

Hoje, a Terra do Fogo é uma das 23 províncias argentinas e Ushuaia é sua capital. A cidade tem aproximadamente 60 mil habitantes (eram 21,5 mil, em 2008) e fica no fundo de uma baía (este o significado da palavra ushuaia, na língua Yagan), cercada por montanhas do fim da Cordilheira dos Andes. A ocupação acelerada e a explosão demográfica são consequências de investimentos industriais e turísticos feitos a partir da criação de uma zona franca, em 1995. Isso gerou uma interessante característica para o extremo sul argentino, ou a Patagônia Austral, como a região é chamada: é grande a presença de jovens em todos os ramos de atividade, notadamente no comércio e no turismo. Geralmente são recém-formados nas mais diversas universidades argentinas, que não encontraram empregos em suas origens e foram aproveitar as oportunidades do ciclo de desenvolvimento das províncias de Santa Cruz e Terra do Fogo.

As atrações

Com uma boa estrutura hoteleira, navios para diversos destinos e jatos diários de e para Buenos Aires, Ushuaia é o principal portal de uma vasta região repleta de parques nacionais que preservam majestosas maravilhas da natureza, como montanhas, lagos, florestas e geleiras (por lá, chamadas de glaciares) – ver mapa.

Na volta de Ushuaia, já há muito o que ver. Um passeio de 4 horas, pelo Canal de Beagle, em um catamarã de 120 passageiros leva ao Farol do Fim do Mundo, a uma ilhota completamente tomada por  gordos e preguiçosos leões marinhos, além de cormorões (aves muito parecidas com pinguins, mas que voam como gaivotas). Outra ilhota está coberta por centenas de milhares de pinguins, que podem ser vistos bem de perto. No horizonte, agudas montanhas nevadas emolduram a paisagem deslumbrante.

Outro passeio original é percorrer 26 km do Parque Nacional da Terra do Fogo, pelo sopé das montanhas, em trajeto junto a um ribeirão límpido e encachoeirado. A condução é um mini-trem “maria-fumaça” com vagões para 24 passageiros no máximo. É o chamado Trem do Fim do Mundo. É o que restou de uma teia ferroviária que chegou a ter mais de 200 km e foi construída no início do século passado, para permitir a exploração de madeira em uma floresta que tinha mais de 60 mil hectares de pinheiros. Este trabalho gigantesco, feito a machadadas. foi executado pelos prisioneiros que vinham de todo o país para a penitenciária local.

Para quem quer ver as coisas do alto, em condução mais moderna. há o passeio de helicóptero, que sai do aeroclube local e sobrevoa um vale, a baía e os picos nevados que cercam a cidade. O vôo de 15 minutos é fantástico e custa US$ 150 por pessoa.

Perito Moreno, o majestoso

encanto do paredão de gelo

Raramente a natureza mostra espetáculos tão lindos e majestosos como no Glaciar Perito Moreno. Um campo de gelo de dezenas de quilômetros quadrados, há séculos, escorrega desde o alto das montanhas até o Lago Argentino, onde forma um paredão com 70 a 90 metros de altura por 4 km de largura. De tempos em tempos,  um pedaço do paredão – com  tamanho equivalente a um prédio de 20 ou 30 andares – despenca sobre o lago causando um enorme estrondo e partindo-se em diversos icebergs. Aí, a gente se arrepia. Não é de frio, é de emoção pelo privilégio de ver este espetáculo tão raro.

Perito Moreno é o maior dos glaciares da região. Ele fica no Parque Nacional dos Glaciares, que tem 356 geleiras e localiza-se no município de El Calafate, Província de Santa Cruz, a 560 km a noroeste de Ushuaia. O glaciar tem este nome em homenagem ao cientista   Francisco Pascasio Moreno, grande estudioso da região, que em 1897 atuou como perito no processo que definiu os limites entre o Chile e a Argentina e foi arbitrado pela Rainha Vitória, da Inglaterra.

13/03/2012

ITÁLIA: Lições de História,

                     lições de vida (6)

Para os arqueólogos, a Sicília é uma festa

Não dá para ir à Sicília sem visitar algum templo, teatro ou cidade inteira descoberta por arqueólogos. Por todos os lados há áreas de pesquisas, que revelam aspectos fascinantes de quase 3 mil anos de vida civilizada. A ilha é uma festa para os arqueólogos.

Agrigento e Siracusa são bons exemplos dessas descobertas que vem sendo feitas nos últimos duzentos anos. Agrigento – nome latino que significa “gente da agricultura” surgiu como uma colônia grega, estabelecida por volta de 700 a.C. Atualmente tem uns 15 mil habitantes. No seu apogeu, cinco séculos antes de Cristo, chegou a ter mais de 200 mil. Nessa época, construiu 21 templos dedicados a deuses gregos. Restos de todos eles já foram identificados e quatro deles estão sendo reerguidos na área chamada Vale dos Templos. São os templos de Juno, o de Hércules, o de Júpiter (considerado o maior templo dórico do mundo) e o da Concórdia. Têm estado de conservação bem melhor que o de similares encontrados na Grécia. Isso impressiona os estudiosos porque os templos gregos eram de mármore e deveriam durar mais. Os de Agrigento são de uma espécie de arenito mais sujeita a erosão.


O arenito de Agrigento durou mais que o mármore, na Grécia

O arenito de Agrigento durou mais que o mármore, na Grécia

Templo de Júpiter, o maior dórico do mundo.

Templo de Júpiter, o maior dórico do mundo.

A cidade ocupa ponto estratégico para o domínio das navegações no Mediterrâneo e tem terras muito férteis. Por isso, sempre foi disputada entre as potências da antiguidade. Foi conquistada pelos romanos, voltou a ser grega, depois árabe e bizantina.

Siracusa tem história semelhante. Também foi grega, romana e árabe. Foi fundada em 734 a.C., como a primeira colônia grega na Sicília. Sua principal relíquia é do período grego: um anfiteatro para 16 mil pessoas, com ótima acústica. Ele não foi construído. Foi escavado em um gigantesco bloco de mármore e servia para apresentações gratuitas de comédias e tragédias. Depois, nos cinco séculos seguintes de domínio romano, o anfiteatro foi adaptado para arena de gladiadores.

O anfiteatro de mármore para 16 mil pessoas não foi esculpido. Foi escavado.

O anfiteatro de mármore para 16 mil pessoas não foi esculpido. Foi escavado.

Para ver mais de perto esses espetáculos sangrentos os romanos construíram uma arena menor.

Siracusa também tem um templo notável: sua catedral católica, que já foi um templo pagão grego, do qual ainda preserva as colunas de mármore, perfeitamente expostas junto às paredes laterais.

 

Etna, o vulcão que não assusta

Em Siracusa, o templo pagão,virou catedral católica, as colunas gregas ficaram do lado de dentro.

Em Siracusa, o templo pagão,virou catedral católica, as colunas gregas ficaram do lado de dentro.

Um formigueiro humano. Homens, mulheres, crianças e idosos – aos milhares – sobem e descem rampas íngremes, na maior animação. Não passeiam em gramados de parques. Caminham pelos cascalhos cinza-escuros que cobrem o cone do Vulcão Etna, o mais alto da Europa, e um dos mais ativos do mundo. Ninguém sente medo ou se assusta com a possibilidade de uma nova erupção. Tomados por uma enorme curiosidade, chegam bem perto das centenas de fendas de onde saem uma fumaça branca e um cheiro de enxofre.

O Teleférico facilita a escalada do Etna.

O Teleférico facilita a escalada do Etna.

O vulcão tem 3.340 metros de altura e pode crescer ou diminuir alguns metros a cada erupção. Ir até uma das suas quatro crateras ativas e sentir o calor da lava incandescente é coisa só para vulcanólogo aventureiro, embora seja desejo da maioria das pessoas que vai até lá. Mas o público pode chegar bem perto do topo. Do nível do mar, até 2 mil metros de altitude, sobe-se em automóveis ou pequenos ônibus, por uma estrada bem asfaltada, mas muito estreita e sinuosa. Daí, até os 2.500 metros, há um teleférico com cabines para seis pessoas. Pode-se subir mais 500 metros em ônibus para 30 passageiros, montados sobre chassis de caminhão especial para qualquer terreno, equipado com tração em todas as rodas. Escalar mais alguns metros fica por conta do fôlego de cada visitante e dos limites impostos pelas autoridades.

Um formigueiro humano sobe e desce as encostas do vulcão.

Um formigueiro humano sobe e desce as encostas do vulcão.

 
Embora o medo não vá até essas alturas, não faltam motivos para ele chegar lá. Abaixo do ponto alcançado pelos ônibus, na cota de 2.920 metros, esta lá o que restou do refúgio “Torre del Filosofo”: uma laje de concreto quase totalmente soterrada por uma erupção de 2002 e uma placa que a identifica e mostra uma foto do vulcão em plena atividade. Não há registros de mortos ou feridos em eventos como este. Em grande parte, a tranquilidade dos visitantes corre por conta do trabalho do Instituto Nacional de Vulcanologia, que – com instrumentos científicos avançados e minucioso monitoramento de pequenos sismos e milimétricas dilatações das fendas do vulcão – é capaz de prever uma grande erupção com mais de um mês de antecedência.

A bagunça que deu certo

Tem muita gente que cita o Japão, a Alemanha ou a Coréia como exemplos de modelo de desenvolvimento a ser seguido pelo Brasil. Acho isso uma bobagem porque estes países têm povos em um nível de disciplina e organização  que jamais será alcançado pelo nosso.

Pra mim, o exemplo mais adequado é o da Itália. Merece ser estudado e copiado. A Itália não se organizou,  nem com todo o fanático rigor do fascismo de Mussolini. Apesar disso, tem posições privilegiadas tanto no ranking das nações mais ricas, como no das que têm melhor qualidade de vida. É o sétimo país mais rico do mundo  Está no 23º  lugar, no índice mundial de Desenvolvimento Humano, posição melhor que a do Reino Unido (26º) e Portugal (40º). Muitos dos problemas italianos são mais graves que os nossos e seus políticos não são melhores que os brasileiros. No entanto, por lá o povo vive bem melhor do que aqui. Resumindo, a Itália é a bagunça que deu certo.

Em 1989, tomei um trem de Roma para Milão. Era o trem das 11 da manhã (lembro-me da hora por causa do samba do Adonirã). Onze e dez, onze e quinze, onze e vinte…   e o trem não saía. Mais alguns minutos, para um outro trem na plataforma ao lado e entra na nossa cabine um advogado, todo afobado. O trem ao lado saiu e o nosso continuou parado.

“Aquele é o trem das 11?” – perguntou o advogado ao médico que já estava na cabine.

“Não. Aquele é o trem das 11 e meia. Este, em que estamos, é o das 11” – respondeu o médico, sem se impressionar com os horários trocados

“ E por que o trem das 11 e meia saiu antes do trem das 11?” – perguntou, irritado, o advogado.

Per che siamo in Italia” – respondeu o médico, muito tranquilamente.

Vinte e dois anos depois, continuei ouvindo o “porque estamos na Itália” como explicação para uma série de coisas que não estão certas. Como os trens que continuam atrasando; como o telefone público que não faz chamada internacional; como a falta de um pequeno cais flutuante para facilitar a passagem de pessoas de lanchas para pequeno barcos a remo, na Gruta Azul, uma das principais atrações turísticas do país; como a horrível poluição visual que provocam os traillers  de lanchonetes, nos limites de Roma com o Vaticano, na entrada da maravilhosa Praça de São Pedro.

Na entrada do Vaticano, a Praça de São Pedro, maravilha projetada por Bernini, fica escondida atrás do trailer de cachorro quente.

Na entrada do Vaticano, a Praça de São Pedro, maravilha projetada por Bernini, fica escondida atrás do trailer de cachorro quente.

O “porque estamos na Itália” não é um lamento, nem mesmo uma crítica. É apenas explicação de algo natural e inevitável. Como se dissesse “Aqui é assim mesmo!” E, se alguém insistir em defender pequenas mudanças ou correções, é capaz de receber como resposta algo como “Está tudo tão bom, que se melhorar, estraga!”, ou uma pergunta: “Se bagunçado também dá certo, para que organizar?”

24/10/2011

ITÁLIA: Lições de História,

                     lições de vida (5)

Sorrento tem um encanto que só indo lá pra conhecer

A praia tem pouca areia e água fria, mas vive apinhada.

A praia tem pouca areia e água fria, mas vive apinhada.

As praias não deveriam ser atraentes, porque para chegar até elas é preciso enfrentar a difícil descida de um precipício. Além disso, são pagas, tem água muito fria, pouca areia e muita gente, pois – inexplicavelmente – vive apinhada. A paisagem não é mais bonita que a de outras cidades estabelecidas sobre penhascos junto ao mar.

Não dá para dizer o que Sorrento tem de melhor. É preciso ir até lá para sentir algumas coisas mágicas que ela tem para encantar as pessoas.

A opereta do Teatro Tasso, um belo passeio pela música romântica italiana.

A opereta do Teatro Tasso, um belo passeio pela música romântica italiana.

Talvez essas coisas mágicas sejam a gentileza de seu povo; a bela opereta Sorrento Musical que o Teatro Tasso apresenta todos os verões; o delicioso sorvete da lanchonete da praça principal ou o passeio de um “trenzinho” turístico, contornando as encostas e visitando uma tradicional vinícola. Seja lá o que for, a mágica é eficiente, pois as ruas de Sorrento ficam completamente lotadas de turistas durante toda a temporada. Vale a pena ir lá para conferir!

Em Capri, vale tudo para ver a Gruta Azul

Capri, entre os paredões de pedra e o mar muito azul, coalhado de iates.

Capri, entre os paredões de pedra e o mar muito azul, coalhado de iates.

As pessoas não vão a Capri para ver as belezas da cidade pregada nos precipícios de rocha branca, nem para provar sua excelente culinária, ou comprar seu belo artesanato. Vão, mesmo, é para ver a Gruta Azul. E é um vale tudo para lograr este objetivo. O desconforto é total e é recomendável usar algum remédio contra enjoo. Do porto de Capri, em uma lancha para umas 20 pessoas, navega-se mais de 2 km, junto a um costão de quase cem metros de altura, até chegar à frente de um buraco na rocha, com espaço livre menor que 1,5 metro acima da superfície da água. É a entrada da Gruta Azul. Junto dela já estão aglomerados dezenas de pequenos barcos a remo, que vão disputar os passageiros das lanchas para fazer um passeio de uns três minutos, no interior da gruta.

O rápido passeio pela gruta vale todas aventras e sacrifícios.

O rápido passeio pela gruta vale todas aventras e sacrifícios.

Passar da lancha para o barco a remo exige um tanto de malabarismo, porque, sobre as ondas, o sobe e desce de ambas as embarcações nem sempre combinam e é grande o risco de se cair n´água. A volta ainda é pior, porque a lancha é mais alta que o barco e a abordagem dela tem de ser feita mais ou menos como os piratas do Caribe abordavam os galeões espanhóis: na raça!

É um salve-se-quem-puder a entrada na gruta. Dezenas de barcos estão embolados e só há espaço para entrar um de cada vez. Todas essas peripécias valem a pena porque são deslumbrantes os poucos minutos na gruta. Dentro dela a escuridão é quase total. Mas a luz do sol vai bem abaixo da superfície e propaga-se pela água cristalina. Chega ao interior da gruta com uma luminosidade azul fosforescente, linda, mágica, impressionante.

De resto, a ilha complementa muito bem a beleza da gruta. Tem dois núcleos urbanos: Capri, junto ao mar, e Ana Capri, no meio das montanhas, a 300 metros de altitude. Os núcleos têm histórias e belezas diferentes, mas ambos são encantadores.

Palermo tem orgulho da sua “Fonte da Vergonha”

No século 15, o rei da Sicília

Sacadas de grade de ferro, marcas da arquitetura de Palermo

Sacadas de grade de ferro, marcas da arquitetura de Palermo

desentendeu-se com as autoridades eclesiais e, para irritá-las, mandou construir em uma praça de Palermo, bem na frente de um convento de freiras, um chafariz ornamentado com umas vinte estátuas de mármore em tamanho natural de mulheres e homens completamente nus. Nenhuma folhinha de parreira foi usada para esconder as partes íntimas…

Nem uma folhinha de parreira entre os nus e nuas na frente do convento

Nem uma folhinha de parreira entre os nus e nuas na frente do convento

Na época, a obra ganhou um apelido que permanece até hoje: “Fonte da Vergonha”. Mas ela não causa vergonha alguma. Palermo tem orgulho de mostrar sua enorme e linda fonte, atribuindo as esculturas perfeitas a grandes mestres, discípulos de Michelangelo.

A Basílica de Monreale impressiona pela sua arquitetura majestosa e pela quantidade de ouro que a ornamenta

A Basílica de Monreale impressiona pela sua arquitetura majestosa e pela quantidade de ouro que a ornamenta

Ainda mais antiga, do século 12, foi outra desavença entre o rei e o bispo de Palermo. Esta motivou a construção, fora da jurisdição do episcopado da capital, do maior e mais rico templo católico da Sicília. A gigante e riquíssima igreja que deveria ser a catedral de Palermo foi construída na cidade vizinha. É a monumental Basílica de Monreale. Tem estilo bizantino e é toda decorada por enormes mosaicos de pedras coloridas, boa parte delas feitas de vidro e folhas de ouro. É um templo que não pode deixar de ser visitado.

Há muito mais coisas para se apreciar na capital da Sicília: a catedral da cidade; os prédios residenciais antigos, com suas típicas e graciosas sacadinhas de grade de ferro; praças bem arborizadas e com monumentos antigos e até uma praia muito gostosa: Montello, que tem água morna e areia macia (raridades por lá!); é frequentada por muita gente e fica a uns 20 km do centro de Palermo.

Próximas semanas:

Para os arqueólogos, a Sicília é uma festa

Etna, o vulcão que não assusta

A bagunça que deu certo

03/10/2011

ITÁLIA: Lições de História,

                     lições de vida (4) 

Roma guarda marcas do seu tempo de centro do mundo

Dia e noite, há sempre uma multidão admirando a Fonte de Trevi

Dia e noite, há sempre uma multidão admirando a Fonte de Trevi

Coliseu, Círculo Máximo, Fórum Romano, Via Ápia, são marcas da Roma capital do Império Romano e, portanto – durante séculos – o centro político do mundo. Estas marcas estão bem preservadas e com outros preciosos cartões postais estão espalhados pela capital italiana. São os pontos mais visitados da cidade, juntamente com o Vaticano, a Fontana diTrevi, a Via Veneto, e os jardins da Vila Borghese.

Entre árvores e mais de perto, a cúpula de São Pedro é ainda mais maravilhosa.

Entre árvores e mais de perto, a cúpula de São Pedro é ainda mais maravilhosa.

No Vaticano, as visitas mais comuns são à Praça de São Pedro e à sua basílica, mas é importante conhecer também os museus, os jardins e a Capela Sistina. Isso é coisa que se deve fazer em passeio programado por agência de turismo, para evitar filas enormes. Os Museus do Vaticano guardam séculos de arte, em esculturas, pinturas e tapeçarias. São preciosidades raríssimas.

Os jardins não têm uma beleza especial por si. Mas são extraordinários por apresentarem uma visão muito original da cúpula da basílica. A fantástica obra projetada por Michelangelo apetece no mesmo plano dos jardins, atrás de grandes árvores e mais próxima de que quando vista da Praça de São Pedro.

( escada em caracol) O edifício dos museus também é uma linda obra de arte

Escada em caracol – o edifício dos museus também é uma linda obra de arte

Na Capela Sistina não se vai ver as pinturas de Michelangelo com a clareza e nitidez com que elas aparecem em reproduções bem feitas de livros e cartazes. O ambiente sagrado é mantido com pouca luz, para não desbotar as pinturas e, no teto alto, elas ficam muito distantes para serem vistas nos seus pormenores. Mas, estar nessa capela nos dá a extraordinária emoção de ficar no lugar sagrado, onde se elegem os papas, bem diante dos originais de obras primas de um dos maiores e mais completos artistas de todos os tempos. É coisa de arrepiar!…

Nápoles, quase 30 séculos como um porto importante

São enormes navios os "ferries" que ligam Nápoles a Palermo em viagem de dez horas

São enormes navios os “ferries” que ligam Nápoles a Palermo em viagem de dez horas

Nápoles começou como um porto grego, no 8º século antes de Cristo e até hoje receber e despachar navios é a sua principal atividade. É um dos maiores portos da Itália. Dele partem e chegam os gigantescos ferriesque fazem a ligação com Palermo, capital de Sicília. Não têm nada a ver com seus homônimos, que operam na costa brasileira. Os ferriesitalianos têm 10 andares, cabines com banheiro privativo para passageiros, restaurante e cassino, além de milhares de vagas para veículos, a maioria grandes carretas. A travessia Nápoles-Palermo (290 km) dura 8 horas.

Bem perto do porto, a bela Praça do Plebiscito.

Bem perto do porto, a bela Praça do Plebiscito.

Nápoles exerce forte influência em todo o sul da Itália e tem aproximadamente um milhão de habitantes. Seu centro histórico está bem preservado e seus destaques são um castelo transformado em museu e a Praça do Plebiscito.

Recentemente, nas escavações para construção de uma estação do metrô junto ao porto, foi encontrado um barco grego de madeira. A embarcação, que pode ter mais de 2 mil anos, ficou bem conservada por ter permanecido durante séculos completamente mergulhada em uma camada de lama. Está sendo restaurada e deverá ser uma das principais atrações da cidade.

No Templo de Apolo, sua estátua de bronze sobreviveu intacta

No Templo de Apolo, sua estátua de bronze sobreviveu intacta

Pompéia: dá para imaginar como ela era rica e alegre

As ruínas de Pompéia permaneceram sepultadas por 1.600 anos, até serem encontradas por acaso. A partir daí, começaram a ser retiradas as cinzas vulcânicas do Vesúvio, que a cobriam desde a grande erupção ocorrida no ano 79 de nossa era. Revelou-se, então, uma cidade muito rica e alegre. Tinha residências enfeitadas por grandes painéis de mosaicos, majestosos jardins e colunas de mármore. Havia termas com água aquecida a lenha, bares, padarias e um enorme mercado, além de templos com estátuas de bronze.

Segundo os arqueólogos ela era o lugar onde os romanos ricos vinham passear ou passar férias. Tinha uns 15 mil habitantes, dos quais 5 mil teriam morrido na erupção.

Atraz das ruinas, lá está o Vezúvio, imponente, majestoso

Atraz das ruinas, lá está o Vezúvio, imponente, majestoso

Acredita-se que envenenados por gases expelidos pelo Vesúvio. Seus corpos foram envolvidos pelas cinzas vulcânicas e se deterioraram completamente. Assim, solidificadas, as cinzas viraram uma espécie de molde. Os arqueólogos os encheram de gesso líquido e obtiveram reproduções exatas de como estavam as pessoas no momento em que morreram. São dramáticas esculturas de gesso.

Graças às cinzas vulcanicas solidificadas, foi possivel moldar  em gesso os corpos das vítmas, exatamente como elas morreram

Graças às cinzas vulcanicas solidificadas, foi possivel moldar em gesso os corpos das vítmas, exatamente como elas morreram

Próximas semanas:

Sorrento tem um encanto que só indo lá pra conhecer

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Palermo tem orgulho da sua “Fonte da Vergonha”

Para os arqueólogos, a Sicília é uma festa

Etna, o vulcão que não assusta

A bagunça que deu certo

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25/09/2011

ITÁLIA: Lições de História,

                     lições de vida (3)

Veneza, o privilégio das águas no lugar do alfalto

hora do rush

Hora do rush em Veneza, uma tranquilidade.

Veneza tem o raríssimo privilégio de ter águas no lugar do asfalto. E, como água tem a magia de dar vida a paisagens, a cidade está sempre cheia de vida e – mais do que isso – está cheia de romance, cheia de amor. Dia e noite, nos estreitos ou nos largos canais, as gôndolas não param de circular com casais enamorados, jovens ou bem maduros. É uma festa em que não faltam as apaixonadas canções italianas, cantadas por vigorosos tenores, acompanhados por violinos e acordeões, transportados, quase sempre, na primeira de um cordão de cinco a dez gôndolas. A música ecoa nas paredes dos velhos casarões e vai longe, bem forte e nítida, sem precisar de amplificador. Outra música, mais sofisticada, toma conta da gigantesca Praça de São Marcos, onde muitos restaurantes mantêm boas orquestras para tocar, ao ar livre, tanto no almoço, como no jantar.

Casal

Rosa e Felipe, 30 anos de casado e um passeio de gôndula para comemorar

A cidade de 270 mil habitantes (divididos em duas partes – nas ilhas –Veneza, propriamente dita, e Murano e no continente – o distrito conhecido pelo nome de Mestre) fervilha durante o verão com aproximadamente cem mil turistas por dia. É tanta gente, que fica difícil visitar a bela basílica de São Marcos, decorada com muito ouro, ou o Palácio dos Doges, os soberanos nos tempos da riquíssima República de Veneza, dominadora do comércio com o Oriente, antes de os portugueses descobrirem as rotas marítimas para lá.

Mesmo que não seja para fugir das aglomerações, vale a pena dar um passeio pela Veneza em que os turistas não têm interesse: a Veneza dos venezianos. Um labirinto de canais e vielas bem estreitas, que não têm palácios, mas é rica em flores nas janelas das casinhas simples.

Veneza

Torre do campanário e cúpulas da Basílica de São Marcos, o centrinho de Veneza

Embora a cidade seja completamente plana, prepare-se para subir e descer uma infinidade de degraus. É que, nos cruzamentos das vielas com os canais, as pontes têm de ter um vão suficientemente alto para que lanchas, gôndolas e seus passageiros possam passar sob elas.

É curioso observar como Veneza resolve, sobre as águas, os problemas iguais aos das cidades que têm asfalto. Em vez de caminhão do lixo, tem o barco do lixo, no lugar do carro de rádio patrulha, tem a lancha de policiamento. Há embarcações que fazem os serviços dos ônibus, e o vaporetto é uma espécie de metrô. Tem diversas linhas e estações, Cada um tem lugar para mais de cem pessoas sentadas, mas viajam lotados, com muita gente de pé.

Próximas semanas:

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17/09/2011

ITÁLIA: Lições de História,

                     lições de vida (2)

Florença, o berço do Renascimento

O Davi original foi para o museu, seu clone ficou ao relento

O Davi original foi para o museu, seu clone ficou ao relento

Graças ao pródigo mecenato da família Médici, que a governou por trezentos anos, Florença foi o berço do Renascimento. Teve entre seus habitantes os geniais Dante Alighieri, Leonardo Da Vinci e Michelangelo Buonarroti. Isso deixou preciosas marcas na cidade, que já foi uma das repúblicas mais ricas do atual território italiano. Florença é a capital e maior cidade da região da Toscana. Tem 370 mil habitantes e impressiona por seus edifícios e templos, inclusive a Grande Sinagoga, conhecida como Templo Maggiore, e considerada uma das mais belas da Europa. Tem obras primas da escultura espalhadas pelas ruas e praças do seu centro histórico. O Davi, que Michelangelo esculpiu entre 1501 e 1504, permaneceu séculos na porta da sede do governo, o Palazzo Vecchio, na Piazza della Signoria. Desde 1873, para ser melhor conservado, está no museu Galleria dell’Accademia, juntamente com outras obras primas e estudos em mármore para outras esculturas, entre elas a Pietá.

A catedral de Santa Maria del Fiore, construção

A majestosa catedral de Santa Maria del Fiore

A majestosa catedral de Santa Maria del Fiore

iniciada em 1296, é a quinta maior igreja da Europa, tem uma cúpula de cem metros de altura e quarenta de diâmetro. Separados do templo, estão o batistério, com a famosa porta de bronze, e a torre do campanário, com 86 metros de altura. Além de toda essa grandiosidade, ela é linda. É revestida em mármore branco com aplicação de desenhos geométricos em granito verde escuro.

Outro marco da arquitetura florentina é a Ponte Vecchio, Ponte Velha, sobre o

Ponte Vecchio

Ponte Vecchio

Rio Arno. É velha, mesmo. Foi construída em 1345, para substituir a anterior, de madeira, carregada por uma enchente em 1333. Como sempre teve muito movimento, desde seus velhos tempos, ela foi e é lugar de concentração de mercadores. As antigas barracas de verduras, carnes e peixes foram se transformando em lojinhas e hoje são refinadas joalherias, A ponte é passeio obrigatório para quem vai a Florença. Todo o centro de Florença também é “Patrimônio da Humanidade” por decisão da Unesco.

Barraca de peixe virou joalheria

Na Ponte Vecchio, barraca de peixe virou joalheria.

Palazzo Vecchio

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Pedras em arcos, marca da velha cidade

Não fossem os automóveis e as vans do transporte coletivo – constantemente subindo e descendo a ladeira que é sua rua principal – e nada teria mudado na aparência de Montepulciano nos últimos quinhentos e tantos anos. A cidade, cercada por uma alta muralha de pedra, mantem a mesma arquitetura de quando foi fundada no século 15. Ainda vive do excelente vinho que seus moradores fazem e oferecem para degustação em adegas centenárias.

Apesar de se manter ancorada nos velhos tempos, Montepulciano não é uma cidade monótona, parada. O lugar atrai muitos turistas, tem bons restaurantes e muita badalação nos festivais de música popular e teatro que, durante os verões, ocupam sua Piazza Maggiore.

Da velha cidade tem-se uma vista  esplêndida

Da velha cidade tem-se uma vista esplêndida

Não perca nas próximas semanas:

Veneza, o privilégio das águas no lugar do alfalto

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ITÁLIA: Lições de História,

                     lições de vida

Existem duas Itálias. Uma tem vida intermitente em manchetes que tratam de escândalos do primeiro-ministro Berlusconi, ou da megadívida do país, que pode se transformar em calote e causar a hecatombe das finanças ocidentais.

A outra Itália é eterna, linda, encantadora, deliciosa. Está lá, espreguiçada sobre o Mediterrâneo, dos Alpes, que a dividem da Suíça, até quase tocar o norte da África. Atrai milhões de turistas de todo o mundo e dá a todos excelentes lições da história que ela viveu e que moldou o jeito de ser de todo o ocidente. Dá também preciosas lições de vida. Principalmente, a de viver saboreando a vida!

Mergulhei nesta Itália de norte a sul, durante 17 dias, aproveitando a sobrevalorização do real e os pacotes turísticos pagos em prestações a perder de vista.

Aqui seguem os pontos mais interessantes desta jornada.

Assis, bem modesta como São Francisco

Basílica de São Francisco

A modesta basílica de    São Francisco

Diante da suntuosidade dos palácios e templos de outras cidades italianas, Assis é bem modesta. Talvez propositalmente, para lembrar a simplicidade de São Francisco, que nasceu e viveu por lá de 1182 a 1226. Sua basílica é bonita, tem arquitetura majestosa, mas não tem nem uma pitada do ouro que ornamenta sua igreja em Salvador, na Bahia.

Basílica

Assis, a cidadezinha atrás do gramado da basílica

Na frente da basílica, há um grande gramado e, atrás dele, lá está o centro da cidade medieval, encarapitado no topo de um monte, com magnífica vista para toda a região. Assis é pequena, tem 5.500 habitantes (o município chega a 24 mil) e é toda cercada por uma muralha de pedras.

Siena, bela praça e rica catedral

O orgulho de Siena é a Piazza del Campo, que seus habitantes proclamam ser a praça mais bonita da Europa. Nela, duas vezes por ano (2 de julho e 16 de agosto) é disputada uma famosa corrida de cavalos, o Palio di Siena. Correm 10 cavalos, representando os bairros da cidade e vem gente de toda a Itália para apostar e torcer por eles.

A praça é cercada por prédios majestosos. O mais belo deles é o Palazzo Pubblico, sede da câmara e prefeitura, construído no século 14, com um campanário em uma torre imponente.

A Catedral de Santa Maria Assunta é reconhecida como um dos melhores exemplos da arquitetura gótica italiana. Foi construída a partir de meados do século 12. Sua fachada, em mármore branco, foi concluída em 1380.

Cerca toda a cidade uma enorme muralha, proteção principal de Siena em suas guerras contra Florença. Toda essa riqueza artística de notável unidade de estilo foi proclamada “Patrimônio da Humanidade” pela Unesco.

50 anos da renúncia de Jânio Quadros:

a grande decepção e o pavio do golpe

O dia 25 deste mês marca os 50 anos da renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República. O episódio causou a maior decepção já registrada na história política nacional e foi o estopim do golpe de 1964, que deu origem a mais de 20 anos de ditadura militar.

Embora não tenha tido maioria absoluta (na época o sistema eleitoral ainda não tinha o segundo turno), Jânio fora eleito com 5,6 milhões de votos, a maior consagração eleitoral já obtida até então, o que significava uma elevada carga de esperanças nas suas costas. Esperança de acabar com a corrupção, como ele prometia, empunhando o símbolo da sua campanha, a vassoura, que iria varrer tudo que havia de sujo na administração federal. Esperança de colocar a máquina pública em ordem, como já havia feito no Estado de São Paulo. Esperança de continuar o progresso e barrar a inflação. Estas e outras esperanças não duraram sete messes, após a posse do presidente em 31 de janeiro.

Lembro-me bem que papai, Manoel Ribeiro, então prefeito de Pindamonhangaba, não engolia a renúncia de Jânio, por quem havia se empenhado na eleição presidencial do ano anterior. Não agüentava mais – a cada conversa com adversários ou com eleitores seus – ser cobrado a respeito do apoio que dera ao “presidente fujão”.

Um dia, estava dirigindo sua caminhonete em uma estrada de roça. Aí, surgiu um cachorro latindo e perseguindo o veículo. O cão já estava com um palmo de língua de fora, quando papail parou diante de uma porteira e eu o desci para abri-la. Nisso, o cachorro alcançou a caminhonete. Parou de latir, deu uma volta em torno dela; fez xixi em uma das rodas e, depois foi embora, com o rabo entre as pernas. Aí, papai não se conteve o desabafo. Sem citar nomes, comentou:

- Tem políticos que fazem o mesmo: perseguem desesperadamente o poder e, quando alcançam, não sabem o que fazer dele.

Guardei bem este comentário que servia para aliviar a decepção e raiva, que eu também sentia pelo ex-presidente. Nunca imaginei estes sentimentos por Jânio, muitos anos depois se transformassem em certa pena.

Isso aconteceu no sábado, 21 de maio de 1977. Logo de manhã, o telefone tocou. Era a Irene Solano, chefe de reportagem do Estadão:

- O Carlos Lacerda morreu. Venha para o jornal que precisamos de todo mundo para preparar uma edição especial.

Quando cheguei à redação, estavam distribuindo aos repórteres as listas de nomes de personalidades que deveriam ser ouvidas por telefone. A ordem era conseguir o maior número possível de depoimentos. Para mim, coube Jânio Quadros e mais meia dúzia de políticos.

Na época, ele estava com seus direitos políticos suspensos pelos militares e raramente seu nome aparecia na imprensa. Aquela edição especial tinha que ouvi-lo, porque Lacerda era justamente o homem que mais ajudou Jânio a ser eleito presidente e, também, o que mais contribuiu para que ele renunciasse à Presidência da República. Com alguma dificuldade, encontrei o telefone do político cassado. Liguei e fui atendido pelo próprio ex-presidente. Disse que queria o seu depoimento e, antes de acrescentar “por telefone”, ele me respondeu naquele seu estilo cerimonioso:

- Venha. Será um prazer recebê-lo!

Não tive como fugir ao convite. Pedi o endereço e lá fui eu para Santo Amaro, no outro lado da cidade. A casa ampla de tijolos à vista tinha muros altos e um largo portão de madeira. Toquei a campainha, uma, duas, três vezes… Nada! Fui ao orelhão da esquina, liguei. Jânio atendeu, disse que a campainha não funcionava, mesmo, e que ele iria abrir o portão.

Atendeu-me muito gentilmente e explicou porque estava só. Dona Eloá tinha ido visitar uma amiga e o casal de empregados – Adão e Eva – estava de folga naquele fim de semana. Levou-me até seu escritório: uma bagunça! Livros e jornais velhos espalhados pelo chão, mesa repleta papéis amontoados. Os livros não tinham qualquer ordem nas estantes e, nelas, pregados com taxinhas, estavam recortes mal feitos de fotos publicadas em jornais, em que Jânio aparecia em momentos importantes de sua vida: recebendo a faixa presidencial das mãos de Juscelino, condecorando Chê Guevara; cumprimentando o marechal Juarez Távora, abraçado a Milton Campos (ex-governador de Minas e um dos candidatos a vice-presidente nas eleições presidenciais de 1960), junto de Fernando Ferrari (outro candidato a vice nas mesmas eleições) e outras personalidades, também já mortas naquela época.

Jânio sentou-se à mesa e um cão collie, muito dócil, postou-se ao seu lado, lambendo a orelha do dono. Fiquei com medo que o animal resolvesse demonstrar o mesmo carinho para comigo. Felizmente, isso não aconteceu.

Bloco de anotações à mão, sentei-me em uma poltrona de couro à frente de Jânio e ele começou a ditar sua declaração:

- Toda a Nação se empobreceu à morte de Carlos Lacerda… Esse “a” é craseado, explicou o ex-professor de português, que continuou ditando pontos, vírgulas e assentos do texto de umas 15 linhas. Quando terminou, pediu-me que lesse. Li, ele aprovou e eu me levantei para me despedir. Jânio fez sinal para eu me sentar:

- Fique mais um pouco. A Eloá já está voltando e vai nos fazer um café…

Era mais um convite irrecusável. Tinha muito de gentileza, mas não era preciso ser psicólogo para saber que aquele apelo estava carregado de vontade de ter alguém simplesmente para conversar. Ou melhor, para ouvir. Deixei de lado a pressa de voltar à redação e fiquei ouvindo o ex-presidente. Durante aproximadamente meia hora, ele contou algumas coisas curiosas e fez algumas observações sem grande relevância sobre o momento político. Depois, por alguns instantes, ficou em silêncio, passeando seu olhar estrábico pelas fotos de jornais pregadas nas estantes. Aí, desabafou:

- O Milton, o Juscelino, o Juarez, o Ferrari… agora, o Carlos. Até o Adhemar me faz falta…

Nesse ínterim, Dona Eloá havia chegado. Fez o café e veio nos servir. Finda a conversa, Jânio foi me levar até o portão. Ao passar pela larga varanda, vi uma mesa de bilhar, coberta por uma lona verde bastante desbotada. Lembrei-me de que o bilhar era o passatempo predileto de Jânio, nos seus breves meses com inquilino do Palácio da Alvorada.

- Presidente, o senhor continua bom de taco? – perguntei.

- Não. Perdi a prática. Faltam-me parceiros para jogar…

Deixei a casa com a sensação de que nunca havia visto alguém em tão dramática solidão. Um homem que vivia cercado de multidões; que tinha sido presidente da República e já não encontrava parceiros para jogar bilhar…

 

Naquele tempo, o fim da ditadura militar era uma possibilidade remota. Jânio já havia passado dos 60 anos e achei que ele jamais voltaria à vida pública. Felizmente, não escrevi nada sobre essa impressão. Quem escreveu, se deu mal. Como um colega que, na mesma época afirmou em um artigo que Jânio estava politicamente morto. Depois, em 1985, quando o ex-presidente estava disputando a eleição (que venceu) para prefeito de São Paulo, lá foi o mesmo jornalista insistir com Jânio para que ele participasse de um debate na TV, com os outros candidatos: Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Matarazzo Suplicy.

Foi recebido com uma pergunta difícil de responder: “Como é que o senhor se sente conversando com um cadáver?

O “Cônsul”

Em 1983, o Brasil começava a sair da ditadura e o Paraguai continuava cada vez mais mergulhado nela. No país vizinho, a censura e a violência da repressão lembravam o sufoco sofrido pelos brasileiros nos anos 70.

Foi nesse clima que fui até lá, em companhia do fotógrafo Jorge Araújo, para fazer para Folha de S. Paulo uma série de reportagens, cujo foco principal era a difícil situação dos brasiguaios. Esses trabalhadores rurais brasileiros, imigrados para o Paraguai em busca de terras boas e baratas para o plantio, ocupavam uma faixa de uns cem quilometros de largura por mais de duzentos de comprimento, ao longo da fronteira com o Brasil.

Desde que cruzamos a Ponte da Amizade – entre Foz do Iguaçu e a antiga Puerto Stroessner, hoje Ciudaddel Leste – fomos ouvindo relatos de arbitrariedades que iam dos mais variados achaques, até torturas e assassinatos com requintes de  brutalidade. Era tal o medo que inspiravam as autoridades guaranis que, para ouvir essas histórias macabras, não podíamos nos identificar como jornalistas. Para todos os efeitos éramos compradores de terras.

Com o equipamento fotográfico guardado no porta-malas da Brasília alugada em Foz, aplicávamos um truque infalível para soltar a língua dos brasiguaios. Bastava entrar em um boteco, pedir uma cerveja, perguntar alguma sobre terras à venda e, depois, comentar com os presentes: “Que lugarzinho pacato! Por aqui não deve acontecer nada!”

“Pacato, coisa nenhuma!” – a resposta vinha rápida, acompanhada de pormenores de um espancamento da polícia contra alguém que tivesse deixado de pagar propinas, ou algum tiroteio para desalojar posseiros.

Foram poucas as pessoas a quem dissemos quem realmente éramos e o que estávamos fazendo no Paraguai. Entre elas, integrantes da Comission de Iglesias, um organismo ecumênico que procurava defender pobres lavradores e perseguidos pela repressão. De todas, tivemos relatos (alguns escritos) do mesmo teor, porém, cada vez mais assustadores.

Jorge escutava calado, se encolhendo como se quisesse desaparecer. “Esse pessoal é exagerado. A coisa não pode ser tão violenta, assim”… Com este argumento – que nem eu acreditava nele – fui acalmandoo Jorge e conseguindo que ele topasse ir adiante. Assim, fomos parar em Assunción, onde fizemos diversas entrevistas bem quentes, inclusive uma com o líder da oposição, Domingos Laino, que se encontrava praticamente preso em sua casa. O Jorge estava cada vez mais arrepiado. Para o começo daquela tarde, tínhamos uma entrevista marcada no Consulado Brasileiro. “Você vai ver que a situação não é tão grave”… disse ao meu companheiro, confiando que o relato de diplomatas brasileiros seria menos alarmante, quando mais não fosse, para preservar as boas relações entre as ditaduras do Brasil e do Paraguai. Doce ilusão…

“A situação é muito mais feia”… foi logo dizendo o vice-cônsul Manique, que nos recebeu e se dispôs a falar, sob a condição de não ser citado na reportagem. Manique enfileirou mais um punhado de barbaridades e, ao encerrar a conversa, deu seu cartão de visita – com timbre do Consulado – a mim e ao Jorge, dizendo: “Aqui eu sou uma espécie de chave de cadeia dos brasileiros. Se vocês tiverem qualquer problema com a polícia, é só pedir para telefonar para o Consulado Brasileiro… Somos muito respeitados por aqui”…

Guardei o cartão como um precioso salvo-conduto. Lembrei a força que tinham os consulados americanos no Brasil e imaginei que seria o mesmo com o nosso em Assunción. Jorge não quis mais saber de conversas. Ao atravessar a rua estreita, entre o consulado e o Hotel Guarany, onde estávamos hospedados, disse uma única frase, rompendo seu silêncio que já durava mais de uma hora: “Chega, estou indo embora!” Subiu ao apartamento, pegou suas coisas e foi para o aeroporto.

Tive muita vontade de fazer o mesmo. Só não fiz porque, maior que o medo, era minha vontade de checar uma história completamente absurda que tinha ouvido de umas três ou quatro fontes: um povoado de brasiguaios chamava-se Capitan Toledo; cresceu e virou Coronel Toledo (ver trecho da reportagem). Não dava para escrever essa história sem ir ao tal povoado.

Peguei um ônibus até Caaguaçu, na rodovia para Foz, e lá cheguei ao anoitecer. Na manhã seguinte tomei um taxi para ir a Coronel Toledo, que ficava a uns 40 quilometros, por uma estradinha de terra. O carro era um Opala azul escuro. Roubado no Brasil, como a grande maioria dos veículos paraguaios. Isso era fácil de constatar porque o carro conservava, no vidro traseiro um adesivo da Itacolomi, concessionária Chevrolet que vendia carrosem São Pauloe, não, no Paraguai.

O motorista era um tipo divertidíssimo. Meio trapalhão, muito falante, bigodes ralos nos cantos da boca, tinha jeito do Cantinflas e parecia fazer tudo para se assemelhar ainda mais com o grande astro da comédia mexicana. Ficou curioso com a presença de um estrangeiro em seu taxi. Fez um interrogatório completo: quem eu era, o que fazia, de onde vinha etc, etc. Não me dei por achado. Respondi com outras perguntas a respeito da região e alguns elogios à terra fértil e à paisagem, um cerradão que ia perdendo espaço para as plantações de soja.

Depois de uma curva na estrada, uma ponte de madeira e uma cancela de um posto de vigilância do exército paraguaio. O “Cantinflas” logo me avisou que haveria revista a procura de armas. Gelei. Não levava um canivete, mas certamente teria problemas com os panfletos “subversivos” que estavam na mala, juntamente com um livro autografado pelo Laino. Já havia passado por situações semelhantes no Brasil e sabia que, no Paraguai, a enrascada seria bem pior. E ali, no meio do mato, não tinha telefone para pedir socorro ao Manique… Até meu apelo chegar a ele a coisa não seria fácil, imaginei. Aí, me veio a idéia salvadora.

Quando o soldado chegou à minha janela, tirei do bolso da camisa o cartão do Manique e disse com ar de autoridade, no melhor portunhol que consegui: “Estoy a serviciodel Consulado Brasileño”.

O soldado pegou o cartão e o levou ao tenente que estava sentado à sombra de uma árvore. O jovem oficial levantou-se imediatamente e veio em direção ao carro. “Se me pedir documentos, estou frito…”pensei, enquanto ele se aproximava. Junto à minha janela, o tenente caprichou uma continência e disse: “Muchogusto, señor consul… Adelante!..” falou, fazendo um gesto largo e gentil  de “pode passar”.

O soldado levantou a cancela e lá fomos nós. Eu, aliviado do susto. “Cantinflas” duplamente emocionado: com a continência do tenente e com a “honra” de estar levando uma “autoridade” brasileira.  Não fez segredo do seu contentamento. Em todos os botecos, armazéns e casas que paramos para conversar com agricultores brasileiros, ele ia à frente para apresentar “elseñorconsulbrasileño”.

A essas alturas, só me restava vestir a fantasia de diplomata. Foi o que eu fiz, anotando atenciosamente e prometendo atender uma série de reivindicações que os brasiguaios tinham a fazer ao governo brasileiro. Inclusive a criação de um vice-consulado em Caaguaçu…

A fantasia de cônsul me salvou a pele e alimentou muitas esperanças de patrícios nossos naquele fim-de-mundo paraguaio. Foi uma mentira que valeu a pena…

(A série de cinco reportagens motivou a apreensão das edições da Folha em todo o Paraguai).

Trancrito do livro Andanças – primavera Editorial

  • Drogas só viajam de avião?

Todo dia está nos jornais: “Polícia apreende quilos ou toneladas de maconha, cocaína, etc no aeroporto…” Nunca aparece apreensão de droga em rodoviárias. Nelas, a polícia não encontra carregamento de traficantes. Não encontra, porque não procura? Muita droga deve estar andando de ônibus, quando mais não seja pela tranquilidade do traficante de rodar o país inteiro sem correr o risco de ter sua bagagem revistada.

Pindamonhangaba, 11 de julho de 2011.

O Zé do Jornal

e o jornal do Zé

A mesma roda de amigos, a mesma profissão, o mesmo amor por Pindamonhangaba. Eu e José Antonio de Oliveira tínhamos muitos pontos em comum. Mas, o que mais nos aproximava era uma outra coincidência de projetos e uma grande diferença de resultados.  Na segunda metade dos anos 70, nós dois nos empenhamos em projetos diferentes de fazer um bom jornal para Pindamonhangaba. O projeto dele deu certo. O meu fracassou redondamente.

O meu projeto era fazer a sociedade de Pindamonhangaba assumir responsabilidade de preservar e garantir autonomia para o semanário mais antigo do Brasil, a Tribuna do Norte que já contava 98 anos de circulação, alojava-se no porão do velho “Palacete 10 de Julho” e sobrevivia às custas da Prefeitura Municipal, de quem era a Imprensa Oficial. O então prefeito Geraldo Alckmin Filho, aceitou minha ideia de criar uma fundação para sustentar o jornal, que deixaria de pertencer à Prefeitura, para ser da comunidade pindamonhangabense. Assumi a direção do jornal e a presidência da fundação. Fiz uma completa modernização gráfica e editorial e achei que a Tribuna teria condições de crescer, atrair mais anúncios e assinantes, conquistar mais autonomia e agilidade. Grande engano. Os anúncios e assinantes não vieram e eu não soube ir buscá-los. Menos de seis meses depois, meu belo projeto estava dando com os burros n’água. Para evitar que o jornal quase centenário falisse nas minhas mãos eu o entreguei de novo à Prefeitura e fui ser repórter da Folha de S. Paulo. Enquanto eu dava por findas minhas peripécias com a Tribuna, José Antonio continuava as dele para consolidar o Jornal da Cidade, que havia fundado três ou quatro anos antes. Por certo enfrentou dificuldades iguais ou maiores que as minhas, mas lutou, persistiu, jamais entregou os pontos. Assim, com inteligência, cara e coragem, conseguiu implantar não só um jornal ágil, vibrante, prestativo. Mas uma rede deles, servindo Pindamonhangaba, Taubaté, Tremembé e Moreira César.

Ser sonhador é traço comum na personalidade de jornalistas. O que é rara é capacidade deles de realizar seus sonhos. Meu amigo Zé tinha essa capacidade de realizar seus sonhos e mais: sonhava com coisas que, para a grande maioria das pessoas, estavam além dos limites da possibilidade de serem realizadas. Quando ainda era muito difícil levantar recursos para manter um semanário em Pindamonhangaba, ele resolveu fazer dois diários, um para Pinda e outro para Taubaté. Quando querer ter uma impressora off-set em preto e branco já era uma grande ousadia, ele comprou uma rotativa com capacidade de reproduzir fotos coloridas.

Foi tão grande a identidade existente entre o criador e sua obra, que ele deixou de ser conhecido por José Antonio de Oliveira, ou pelo apelido afetivo que ganhou por sua elegância, quando chegou a Pinda, ainda muito jovem: Gravatão. Passou a ser simplesmente o “Zé do Jornal”. Por sua vez, o diário não é chamado por Jornal da Cidade. É, simplesmente, o “Jornal do Zé”.

Agora o Zé nos deixou. Vai fazer muita falta para a cidade e à região, como um lutador incansável pelas verdadeiras causas da população; como analista político criterioso e bem informado; como sonhador e realizador de sonhos impossíveis que impulsionam e transformam as cidades. Certamente, vai fazer uma falta enorme para seus amigos, familiares e companheiros de trabalhos. Mas – por contraditório que possa parecer – a falta não será, assim, tão enorme, tão irreparável, justamente para seu jornal.  O Jornal da Cidade já está consolidado, já conquistou a confiança e o respeito dos leitores e anunciantes, já provou que é ferramenta indispensável para promover negócios em todos os ramos e o desenvolvimento para a região. Assim conquistou sua autonomia, independentemente de grupos empresariais ou políticos. E – acima de tudo – formou sua excelente equipe de profissionais, que domina as melhores técnicas e conceitos de como levantar e apurar notícias e de tudo mais que é necessário para fazer um bom jornal Como um filho que chega à sua maioridade, ele está apto a viver sua vida própria. E vai vivê-la, seguindo o ideais e rumos que o nosso querido e inesquecível Zé traçou para o diário, que deixa de ser o “Jornal do Zé”, para ser cada vez mais o jornal da cidade que cresce, que melhora dia a dia e se firma entre as mais desenvolvidas e com melhor qualidade de vida em todo o Estado de São Paulo.

Feliz vida nova, Jornal da Cidade!

Pindamonhangaba, 27 de junho de 2011.

Um terror, felizmente esquecido

        Começou dia 18 e vai até 1º de julho a campanha de vacinação anti-poliomielite. Os papais e as mamães que estão levando seus filhos para tomar as gotinhas salvadoras não têm a mínima ideia do terror que era a pólio, antes da invenção das vacinas contra esta doença. O horror era tão grande que até os sanitaristas brasileiros se apavoravam com uma notícia que, em princípio, deveria deixá-los muito contentes: a progressão dos serviços públicos de saneamento, especialmente o tratamento de água, coleta e tratamento de esgotos. Temiam a melhoria das condições sanitárias da população por causa da ameaça da poliomielite uma doença que se espalhava justamente em países bem saneados. O motivo era muito simples:

Toda criança herda da mãe uma imunização contra a pólio, que dura até seus 3 ou 4 anos. Nesse período, se a criança tem contato com o vírus da pólio. Que se espalha com as fezes, ela adquire a infecção, mas, com uma intensidade tão leve que não chega a afetá-la e serve para imunizá-la para a vida inteira.

Por isso, no Brasil, a pólio era conhecida como “paralisia infantil” e, praticamente, só afetava crianças de famílias mais abastadas, que só iriam ter contato com o vírus, fora de suas casas, quando já tivessem perdido a imunização herdada da mãe. Quanto mais saneado o ambiente, mais tarde era o contato com o vírus. O presidente Flanklin Delano Roosevelt, dos Estados Unidos, só contraiu a pólio aos 39 anos.

Por esta razão. Os sanitaristas brasileiros temiam os avanços dos serviços sanitários, pois eles significavam o risco de epidemias de pólio devastadoras, mais amplas e atingindo todas as faixas de idade.

Felizmente, como Deus é brasileiro, isso não chegou a acontecer porque as vacinas contra a pólio vieram antes da grande expansão dos serviços de água e esgotos, ocorrida nos anos 70. Primeiro foi a Vacina Salk (*), em 1954, depois a Sabin, em 1961.

PS: Não sei se esta história, de sanitaristas com medo de saneamento, está contada em algum livro. Só sei que tomei conhecimento dela em uma entrevista que fizpara O Estado de S. Paulo em 1970, com o professor de Higiene e Saúde Pública Walter Leser, então secretário estadual de Saúde.   Era uma história tão estranha que permaneceu viva na minha cabeça. Por isso pude reescrevê-la mais de 40 anos, sem precisar de qualquer anotação ou consulta.

(*) Jonas Salk não buscava fama ou fortuna através de suas descobertas, e é citado como tendo dito: “A quem pertence a minha vacina? Ao povo! Você pode patentear o sol?

Pindamonhangaba, 20 de junho de 2011.

Agora a roda é cibernética

 Desde criança, sempre gostei de contar histórias. Acabei fazendo desta mania a minha profissão e fui aos mais remotos cafundós deste país, buscar casos para contar nas páginas de O Estado de S. Paulo, do Jornal da Tarde, da Folha deS. Paulo, do Jornal de Brasília, do Correio Braziliense, do meu Jornal da Terra e, ultimamente, da revista Rodovias e Vias. Nos bons tempos dos anos 70 e 80 (“bons tempos”, porque eu era jovem, mas sob o ponto de vista político, eram os “anos de chumbo”) não me bastava contar as histórias nas páginas dos jornais. Elas precisavam ser repetidas, enriquecidas com pormenores de bastidores e comentadas em animadas rodas, noite e madrugada a fora, em torno de copos e garrafas de cerveja, nos botecos que funcionavam como prolongamento das redações.

Hoje, entretendo meus netos, sou um velhinho bem comportado. Durmo cedo, já não posso me encher de cerveja e vivo longe dos meus antigos companheiros de profissão e de bom papo. Mas ainda gosto muito de contar histórias. No ano passado, juntei as que achei mais significativas pelo menos para mim) e, pela Primavera Editorial, publiquei o meu livro Andanças. Agora, minha filha Suzana, que é doutora em História (com agá maiúsculo) me oferece, no blog de sua empresa Fala Escrita, uma nova roda, moderna, infinita, cibernética para eu continuar contando historias. Não vou perder esta oportunidade. Neste Bate-Papo, vou contar casos de todo tipo, novos, antigos, alegres, tristes, nacionais e também estrangeiros, pois vão incluir minhas andanças, como turista. Espero que os leitores gostem e comentem. Assim o Bate-Papo vai ficar bem gostoso, bem animado. Mesmo sem cerveja…

Pindamonhangaba, 19 de junho de 2011.

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Turquia, uma surpresa

muito, muito agradável

Luiz Salgado Ribeiro

A Turquia não estava nos meus planos, mas estava no pacote turístico que incluía Grécia e Egito, justamente os países que sempre tive mais vontade de conhecer. Assim, acabei indo parar naquela terra que já não tem mais sultões, mas continua tendo maravilhas naturais e históricas, que surpreendem e impressionam, tanto pela raridade como pela beleza. Sob o ponto de vista histórico, as surpresas começam pela quantidade e pelo bom estado de conservação de restos milenares de construções e de cidades inteiras erguidas pelos romanos. São relíquias que escaparam da depredação dos povos bárbaros – que dominaram a Europa, mas não atingiram o oriente. Também foram ajudadas em sua preservação pelo fato de o Império Bizantino ou Império Romano do Oriente ter durado mil anos a mais que o Império Romano do Ocidente.

As maravilhas naturais são muitas e, entre elas destacam-se a originalíssimatopografia da Capadócia – no centro do país – e Pamukkale, ou “castelo de algodão”, as formações calcárias de bacias de águas termais, absolutamente brancas, sobrepostas ao longo de centenas de metros da encosta de uma montanha no sudeste da Turquia.

Uma visita à Turquia é uma sequência de queixos caídos. Ela começa quando você desce do avião, em Istambul, centro de uma região metropolitana com mais de 13 milhões de habitantes, dividida entre dois continentes: Europa e Ásia. Esta divisão é feita pelo Estreito de Bósforo, que liga o Mar Negro, ao Mar de Mármara, por onde as embarcações chegam ao Mar Egeu e, de lá, ao Mediterrâneo. Muito utilizado por barcos de vários tipos, o estreito tem aproximadamente 31 km de comprimento por uma largura de 650 metros a 2,5 km. Tem águas limpas e calmas. Está cercado de palácios ricos e majestosos. O Topkapi é o mais rico entre eles. Seu nome significa “porta do canhão”. Foi construído logo após as tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453 e permaneceu como residência dos sultões durante mais de três séculos Hoje é um museu repleto de preciosidades, principalmente joias, entre elas um dos maiores diamantes do mundo, com 83 quilates.

Outro museu importantíssimo é o de Santa Sofia, que já foi basílica e mesquita. Sofia não se refere a uma santa, mas à Sagrada Sabedoria de Deus. E haja sabedoria humana para projetar e construir a enorme abóboda do templo entre os anos de 532 e 537da era cristã. Se com a tecnologia e os recursos de hoje, já seria muito difícil fazer um vão tão majestoso, não dá para imaginar como foi feita esta proeza há quase 1.500 anos e como, durante todos esses séculos, o templo sobreviveu e foi recuperado de incêndios, terremotos, guerras, saques e vandalismos diversos, inclusive de cristãos.

Da sua construção, até 1453, foi a catedral de Constantinopla, antigo nome de Istambul. Depois, os turcos a transformaram em Mesquita. Com camadas de gesso, apagaram seus preciosos mosaicos com figuras sagradas para os cristãos. O templo recebeu quatro minaretes ao seu redor e passou a servir de modelo para a construção de mesquitas espalhadas pelo mundo. Em 1927. Mustafá Ataturk, fundou a República da Turquia, fazendo questão de que ela não se vinculasse a alguma religião. Então, transformou Santa Sofia no Museu da República.

Inspirada em Santa Sofia e em frente dela está a belíssima Mesquita Azul, construída entre 1609 e 1616, revestida internamente por lindos mosaicos azuis e externamente por um vasto jardim repleto de tulipas vermelhas e rosas. Ela é a única mesquita de Istanbul com seis minaretes. Uma história popular diz que isto se deve a uma confusão com as palavras ouro e seis, que, em turco, têm sons semelhantes. O Sultão Ahmed que a mandou construir e a queria mais imponente que Santa Sofia, teria determinado que ela tivesse minaretes de ouro. E entendeu-se que ela deveria ter seis minaretes. Se houve mesmo esta confusão, ela deveria ter sido elogiada pelo sultão, pois proporcionou uma enorme economia para ele.

Outra grande maravilha de Istambul está muito perto do Museu de Santa Sofia, bem escondida sob a terra e com uma porta de acesso muito discreta. É a Cisterma da Basílica ou Yerebatan Sarayi, como se diz Palácio Subterrâneo, em turco. É uma construção majestosa e surpreendente. Tem 336 artísticas colunas demármore com oito metros de altura, sustentando a cobertura de uma área de 10 mil metros quadrados e pode acumular 30 milhões de litros de água.

Como parte de um sistema para garantir o suplemento de água da cidade, mesmo sob cercos de guerra ela é uma das centenas de cisternas de Istambul, mas tem características muito especiais. Foi construída em poucos meses, no ano de 532, e suas colunas foram retiradas de templos pagãos da região da Anatólia. Como se vê, na época, praticava-se o “canibalismo arquitetônico.”                                                                                                            Na proxima edição, o interior da Turquia: Efeso, Capadócia e Pamukkale.

papo

giramundo

12

por

Luiz Salgado Ribeiro

luiz.salgado@hotmail.com

 

Turquia2

Capadócia,só a Lua

pode ser mais exótica

Somente os astronautas que já foram à Lua podem ter pisado e visto de perto alguma paisagem mais exótica, que a das “chaminés de fadas” da Capadócia, no interior da Turquia.  Ninguém mais.

As “chaminés” são cones rosados de poeira vulcânica solidificada e erodida pelos ventos e chuvas, Elas dominam a paisagem por muitos quilômetros e não têmsemelhança com o relevo de outros lugares do mundo. Alguns cones equilibram grandes blocos rochosos em seus cumes. Outros são escavados para dar lugar a casas subterrâneas. Grandes barrancos chegaram a abrigar cidades-esconderijos de cristãos lá pelo quarto século da nossa era e ainda hoje servem para muita gente morar.

As coisas são tão absurdas que a gente chega a não acreditar naquilo que está vendo. Ou também no que está ouvindo. Quando a guia turística falou de ”cidade subterrânea”, achei que era exagero dela. Depois, vi igrejas – bem decoradas com pinturas rupestres – escavadas na poeira vulcânica solidificada, bem como salões e túneis, abertos para todos os lados. Parecia que eu estava no meio de um gigantesco formigueiro. Aquilo realmente era uma “cidade subterrânea”, pois chegou a abrigar mais de 12 mil moradores e possuía mosteiros, padarias e estábulos.

Permanece até hoje costume de escavar a poeira vulcânica solidificada, tanto que ela abriga um grande hotel e umluxuoso restaurante e casa de shows.

A melhor maneira de apreciar esta paisagem extraordinária é sobrevoando-a em um balão de ar quente. Existem muitos deles disputando turistas para um voo de pouco mais de uma hora, a unscem dólares por pessoa. Os balões partem ao amanhecer, quando a atmosfera mais fria facilita a ascensão. Cada um leva 20 passageiros mais o piloto. Todos vão em pé em uma cesta de vime. É um espetáculo lindo a subida ao mesmo tempo de mais de uma dezena de balões coloridos, iluminados, em um céu ainda roxo escuro, onde começa o despontar do sol.

Tudo é calmo e silencioso, mas assustei-me um pouco quando a brisa levou

o nosso balão para bem perto de um grande paredão de rocha. Parecia que íamos bater nele. Aí, o piloto abriu todo o gás, o grande maçarico aumentou a intensidade das chamas e o balão passou a subir mais rapidamente, suplantando, tranquilamente,a escarpa.

O CASTELO DE ALGODÃO

Cleopatra e Marco Antônio teriam se deliciado nessas águas termais, lá por volta de trinta e tantos anos antes de Cristo, garantem os guias turísticos do lugar, apontando como prova, ali mesmo, as ruínas deHierápolis, cidade greco-romana que teria hospedado o ilustre casal e foi famosa em todo o Oriente Médio, como meca de doentes que buscavam cura em águas medicinais.

Pode-se discutir se as águas curam e se Marco Antonio e Cleopatra banharam-se nelas, mas é inquestionável que elas são parte de um cenário único e maravilhoso. Partindo de uma fonte termal situada no meio de uma grande encosta, onde estão as ruinas de Hierápolis,as águas azuis muito límpidas e ricas em minério de cálcio vão formando bacias, absolutamente brancas, em algumas centenas de metros morro abaixo. O nome dessa maravilha é Pamukkale, que, em turco, quer dizer castelo de algodão.

RELÍQUIAS DA ROTA DA SEDA

De oeste a leste, por todo o interior da Turquia, estão espalhadas majestosas relíquias da rota da seda, a milenar ligação entre ocidente e oriente, que perdeu sua importância, quando os portugueses descobriram o caminho marítimo para as Índias, no fim do século XIII.

São os palácios das caravanas, ou Caravan Sarayi, grandes construções de pedra – com chafarizes, salões, aposentos e estábulos – separados uns dos outros pela distâcia de uma jornada de burro ou camelo. Em desertos ou pradarias sem fim, esseseram os pontos de apoio para os mercadores e suas tropas. Há seculos sem ter mais o uso para o qual foram criados, muitos palácios das caravanas viraram ruínas, pelo menos um virou mosteiro dos misticos muçulmanos derviches dançantese outro. um luxuroso hotel em frente ao porto da cidade de veraneio de Kussadassi, no Mar Egeu

CIDADE DOS SANTOS

Pelo menos dois grandes santos da Igreja Católica – São Paulo e São João Evangelista – frequentaram Éfeso, na época bíblica a 2ªmaior cidade do Império Romano, logo após Roma, a capital. E as pedras pisadas por estes santos ainda estão láem uma longa avenida, cercada pelos mármores e granitos que restaram de casas de banho, sanitário público, ricas residências e prédios públicos, em uma das maiores e melhor conservadas ruínas de cidades greco-romanas. Pelo que lá está, dá bem para imaginar como era movimentada esta cidade que chegou a ter 250 mil habitantes e era um dos principais portos do Império Romano;A arena dos gladiadores e o teatro ao ar livre estão muito bem conservados, com seus degraus de granito inteiros e alinhados.  A bela e gigantesca ruína da biblioteca, dáidéia de quanto saber havia por lá.

No alto de uma colina, perto das ruinas de Éfeso está uma capela católica muito frequentada inclusive por muçulmanos que são maioria na Turquia. A tradição diz que o pequeno templo foi instalado na casa em que Nossa Senhora, mãe de Jesus, viveu seus últimos anos. Em uma cerca viva ao lado da capela, féis deixam milhares de bilhetinhos com orações e pedidos especiais de graças.

A Turquia está repleta de maravilhas naturais e históricas. Mas tem uma que não se pode fotografar, mas é sentida pelos visitantes com muita satisfação: é a respeitosae harmoniosa convivência entre muçulmanos e cristãos. Esta, possivelmente, é a maior riqueza do país, que está cercado por outros, onde questões religiosas geram frequentes guerras e genocídios.

Ruya, uma guia exemplar

Minhas boas impressões sobre a Turquia foram reforçadas pela atuação da guia Ruya Akkar,  que cuidou carinhosamente do nosso grupo durante todo o giro pelo país. Ela fala um bom português (passou uns meses no Recife, em um programa de intercâmbio estudantil), é professora de história com mestrado em Antigas Civilizações da Ásia Menor e muito bem humorada. Sempre brincava de nos ensinar palavras e frases em turco.

Ela não fez apenas seu trabalho de guia. Foi muito além disso.  Na noite que chegamosà Capadócia, durante o jantar, uma senhora idosa que integrava nosso grupo lamentou-se, contando que a máquina fotográfica digital,  que ganhara  do neto, parou de funcionar, exibindo um aviso de cardfull . Dissemos a ela, que a câmera não tinha qualquer defeito e, para voltar a funcionar, bastava substituir o cartão cheio por outro novo ou conseguir alguém com um computador capaz de descarregar as fotos do cartão cheio para um CD. Mas onde conseguir uma coisa ou outra com o comércio fechado àquela hora da noite?
Ruya apenas ouviu estas conversas sobre o problema, ninguém pediu nada a ela. Mas, minutos depois, lá estava Ruya apresentando um fotógrafo à senhora, para descarregar as fotos para um CD, que logo ao  amanhecer foi entregue à idosa, juntamente com o cartão livre para as novas fotos que ela bateu, durante os próximos dias. Isso é excelência de serviço prestado.
Muito pode ser dito sobre RuyaAkkar. Mas ela pode ser definida em uma palavra só: “encantadora”. 

 

 

 

papo

giramundo

13

por

Luiz Salgado Ribeiro

luiz.salgado@hotmail.com

 

Liechtenstein, pouca gente

e muito dinheiro invisível

 

 

Liechtenstein é um país de primeira. Quando você engatar a segunda marcha já estará na Áustria ou na Suiça. Como país, é pequeno demais (uma titica de mosquito no mapa-múndi). Mas como lavanderia, é a maior e mais rica do mundo, devido justamente ao tipo de coisa que se lava por lá: dinheiro.

Você não vai ver nem ouvir sinais mínimos das revoadas de bilhões e bilhões de dólares que entram e saem todos os dias do pequeno principado de 35 mil habitantes, queestende seus 160 quilometros quadrados dos altos dos Alpes, na fronteira com a Áustria, ao Reno, na divisa com a Suíça.

A visita é uma decepção para os que gostariam de ver os bilionários por lá, com mulheres lindas e limosines reluzentes: eles manobram suas fortunas pela internete nem se preocupam em saber onde fica o principado.

O que há de interessante para ver por lá são gigantescas esculturas modernas espalhadas por praças e ruas de Vaduz, a capital do principado.

Tem lindos cavalos de bronze polido na praça principal e grandes mulheres gordas em metal escuro, nas ruas transversais, onde estão também figuras geométricas em granito preto.

O palácio do príncipe fica nas montanhas, sobre um enorme desfiladeiro que acaba no centro de Vaduz. Dizem que ele é maravilhoso, mas não cheguei a vê-lo, porque quando passei por lá o edifício estava em reformas.  

Vaduz não parece capital de país rico, mas tem todo jeito do que realmente é: capital de um país muito tranquilo. Tem 5 mil habitantes, ruas sem congestionamentos nem de carro, nem de gente, ladeadas por casarões com fachadas enfeitadas por flores e curiosos objetos de decoração. É um pequeno núcleo urbano sem edifícios altos, cercado pelo verde de florestas, pastagens e lavouras de centeio, salpicadas de casas, igrejas e estábulos.

 

Legendas

Foto 1

 A tranquilidade de Vaduz está retratada na estátua adormecida

Foto 2

O cavalo de bronze enfeita a praça e diverte crianças

Foto 3

Ao pé dos Alpes, a Vaduz de ruas vazias de carros e de gente

Foto4

No cartaz, o palácio do príncipe que não podia ser visitado por causa das reformas (foto abaixo)

Foto5

Em reforma

Fotos 6 e 8

Entre pastagens e lavouras a cidade chega até os pés dos gigantesco penhascos alpinos

Foto7

A igreja e as casas salpicam de branco as lavouras de centeios

 

 

papo

giramundo

14

por

Luiz Salgado Ribeiro

luiz.salgado@hotmail.com

 

Paris mantém charme

de capital do mundo

 

No tempo dos luíses e, também, no de Napoleão, a França era a grande potencia mundial. Nesses duzentos e tantos anos, o mundo mudou muito e a França perdeu sua primazia. Nem tanto porque o país encolheu com a perda de suas colônias, mais, porque outros países se agigantaram e assumiram posições de maior relevância.

Paris, porém, não perdeu seu charme de capital do mundo. Sua grandiosidade de metrópole imperial cristalizou-se em ricos e maravilhosos monumentos, bosques, jardins, museus, pontes, edifícios públicos e igrejas. A “Cidade Luz” também tem sua periferia escura, pobre, feia, Mas na área central, tudo é diferente. Tudo é enorme. Tudo é rico. Tudo é lindo, florido, perfumado. Tudo exala romance.

Não é à toa que Paris é uma das primeiras cidades do mundo no ranking de visitação de turistas. Este ano, com mais de 18 milhões de visitantes, perdeu seu costumeiro 1º lugar para Londres, que deverá atingir 20 milhões com os atrativos das Olimpíadas e as pomposas celebrações do jubileu de diamante da coroação da rainha Elizabeth.

Do seu símbolo máximo, a Torre Eifel – que tem sempre uma fila de horas para se subir nela – aos deliciosos crepes dos botecos do QuartierLatin(onde, há mais de dois séculos, ferveram e ainda fervem as mais acaloradas discussões político-filosóficas),Paris tem milhares de atrações irresistíveis.

Em contraste com a área central, que sofreu um congelamento arquitetônico na “belle-epoque” (virada do século XIX para o XX)e a grande maioria dos prédios não têm mais de seis andares, a quatro quilômetros do Arco do Triunfo, no rumo noroeste, há uma outra Paris, totalmente revolucionária na arquitetura e no urbanismo. É La Défense, onde os moderníssimos arranha-céus de linhas retas, revestidos de espelhos, têm mais de 30 andares e o trânsito é feito por vias subterrâneas. Na superfície, estão grandes praças e colossais esculturas modernas. Há, também um gigantesco arco, formado por salas de escritórios e salões de exposição. Tradicionalistas, os parisienses, em sua maioria, não gostam de La Défense, geralmente não a colocam emroteiros turísticos, nem recomendam visitá-la. Mas vale a pena contrariá-los.

A mostra mais eloquente e mais exata do que foi a França potência imperial, não está no famoso e riquíssimo Museu do Louvre, nas margens do Sena, no centro da cidade. Para ver e sentir essa mostra você terá de ir a uns 40 quilômetros dali. Terá de ir a Versailles. Lá, tudo é luxo, mas você pode ir de trem de subúrbio. É programa para um dia inteiro, ou mais.

O palácio de Versailles, residência dos reis Luis XIV, Luis XV e Luis XVI, tem mais de 400 metros de comprimento e jardins com quase quatro quilômetros de extensão entremeados de palácios menores, bosques, lagos, fontes, esculturas de mármore e de bronze. No seu enorme Salão dos Espelhos – onde foi assinado o armistício que encerrou a 1ª Guerra Mundial e acendeu o pavio da 2ª- o que não é de cristal ou de veludo é de ouro. Para todo lado que se olhe, há coisas preciosas, de arte e de bom gosto. Tudo é deslumbrante…

Depois de uma visita de poucas horas a Versailles a gente entende perfeitamente por que Maria Antonieta – que viveu sua adolescência e juventude por lá – deu aquela resposta estapafúrdia aos pobres que reclamavam não ter pão pra comer. “Por que não comem brioche?” respondeu a jovem e bela rainha que nunca viu sinal algum de pobreza.

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22 respostas para “Bate-papo

  • Yeda Lopes

    Olá Luiz,
    Que bom ver você sempre na ativa, na roda viva das suas andanças e agora, nesta roda cibernética.
    Vamos aguardar suas histórias “eletrônicas” com muita alegria, sabendo que de vez em quando, teremos nosso bate-papo animado por uma boa cervejinha…
    Um grande abraço,
    Yeda

  • Paola Manella

    Bom Vindo Luiz! A esta roda cibernética!
    Ficaremos felizes em ouvir/ler mais um pouco das suas histórias.
    Abraço!

  • Fábio Abreu

    Grande Salgado. Figura ilustre do jornalismo brasileiro! Satisfação em poder ler os “causos” e as andanças, tornando um pouco mais humano, divertido e porque não mais culto este mundo assaz frio dos códigos binários.

    Grande abraço ao amigo.

  • falaeescrita

    É com o maior prazer e orgulho que leio esse texto aqui!
    Espero os próximos!
    Suzana

  • Ludenbergue Gòes

    Bem-vindo ao século XXI, meu caro Salgado, E traga boas histórias, que você sabe contar como poucos. abraços. Góes

  • Fábio Vilela Ribeiro

    Um privilégio contar com este cantinho de bate-papo, mesmo que cibernético, para colocar a nossa prosa em dia! Meu primo mais vivido, mais andado pelo mundo, com os dedos mais calejados pelas milhões ( ou serão bilhões) de palavras que escreveu ao longo dos seus sessenta e poucos anos… Inspiração para um primo que gosta da escrita de boa qualidade desde a mais tenra infância, tendo no primo Luiz o grande incentivador do meu primeiro livro, “Uma Colcha Mineira” (dezembro de 2000), onde relato em 260 paginas os 100 anos da história da família mineira de minha mãe e os causos encrustados nela. Hoje tenho alguns projetos em andamento (4 livros iniciados) Só não tenho o tempo que o primo Luiz dispõe nos tempos atuais. Alguns são de contos. Outros de memórias ( “O décimo filho” , “Memórias de Chico Frô”). Mas aqui vou, enquanto a Oftalmologia brasileira precisar de mim, tentando seguir os ensinamentos e conselhos do primo jornalista e escritor. Escrever sempre!Luiz Ribeiro: um genuíno contador de causos como seus pais, meus amados tios Manoel e Eloyna Ribeiro o foram, herança vinda da nossa vó Luiza Ribeiro. Eita povo bom de prosa!
    Abraço forte e aguardando você e Aninha para, pelo menos, uma taça de vinho juntos! Ah! Ia me esquecendo: Linguiça Cabocla Gourmet para acompanhar!
    Beijo na turminha toda!

  • Artur Coelho

    Oi Luiz. Prazerzão está no teu blog. Somente uma pessoa com seu jaez seria capaz de nos trazer mais estes acontecimentos típicos de sua árdua mas vitoriosa luta como um dos jornalistas mais conhecidos do Estado de São Paulo. Estarei aqui, sempre que me for possível, acompnhado sua “aventuras” que parecem não ter fim..
    Grande Abraço

    Artur Coelho

  • Sircarlos Parra Cruz

    Caro Salgado,

    Em todos estes anos praticando, como se fosse um sacerdócio, o bom jornalismo e dignificando a profissão, você conseguiu reunir uma coleção fantástica de informações, que, é claro, não se esgotou no livro que você escreveu recentemente. Por isso, vou acompanhar atentamente o seu blog para saborear essas deliciosas passagens e casos que você continuará relatando.

    Abraços,

    Sircarlos Parra Cruz

  • Montezuma Cruz

    Salgado: passei o link ao Oscar Ramos Gaspar e renovamos nossos votos de que aqui possamos rever tertúlias e lembranças de suas grandes reportagens. Bom também conversar a respeito da boa colheita do jornalismo dos anos 1970, cujas lições continuam nos inspirando. Disse isso outro dia ao Valdir Sanches – atualmente no “Diário do Comércio” e colaborando com o blog 50anosemtexto do Sérgio Vaz. Essa lição do Jonas Salk é um bálsamo para quem pesquisa as conquistas no campo da saúde no Brasil e no mundo.Abraço

  • Gilberto Gasparetto

    Prezado Salgado,
    é uma grande satisfação poder acompanhar aqui novos escritos e novas andanças. Um grande abraço!

  • José Salles dos Santos Cruz

    Salgado, isto não é um blog, é uma enciclopédia: pelo tamanho e pelo que ensina. Pra quem, como eu, só saiu do Brasil uma vez, para desembarcar em Nova Iorque e seguir para Boston, onde passei algumas semanas dentro de casa, soterrado na neve, seu blog é uma grande viagem.
    Depois leio com mais calma.
    Não sei não, isso está sendo um estímulo pra que eu mude de vida.
    (a culpa vai ser sua, heim?)

  • Fábio Vilela Ribeiro

    Delícia querido primo Luiz: ler e poder viajar com seus relatos e histórias pelo Mundo afora. Lendo sobre o “Fujiyama” chileno, me transportei para aqueles lagos e cordilheiras geladas entre Chile e Argentina. Quero que conheças San Martin de Los Andes, a cidade que escolhi, para que depois dos 60 anos, possa passar ao menos1 mês por ano, junto com a Meinha, terminando os meus livros que comecei a escrever e hoje, pela correria do dia a dia, não consigo termina-los. Forte e caloroso abraço Di! Beijo na Ana!

  • Rubens Zaidan

    Salgado, bom saber que tem esse espaço para criar. E contar aos internautas boas histórias,sacadas etc. Quem sabe, não é o embrião, do Andanças 2? Águas tranquilas e profundas para navegar
    ,

    grande abraço

    e parabéns

    Rubens Zaidan

  • rogério Magalhães

    Oh! Luiz…como diria meu pai,”formidável!”…ao ler o seu blog, tenho a impressão de estar ao seu lado, ouvindo (Aliás, como vizinho, continuo
    literalmente a seu lado)…parabéns!

  • Ana Cristina

    Sr Luiz ,antes de sermeu Aluno VC é meu Professor ……..Adorei estar lendo suas historias e principalmente pela liçao de Vida que vc deu para minha filha indo na Escola dela.Ela adorou…….Que bom vc fazer parte da minha vida.Parabens……….

    Ana Cristina Roveda Guimaraes Parola – Tina

  • Claudio Luiz de Carvalho

    Amigo Luiz,
    Além de bom contador de história (histórias mesmo, vividas, percebidas, observadas e guardadas para a posteridade por meio de sua incansável e perfeita pena), você é um amigo dileto, que não se esquece daqueles com os quais conviveu e convive.
    Seu texto é incrivelmente lúcido, impressionantemente rico, claramente verdadeiro. Traz sua capacidade de relatar o que vive e o que viveu, sem deixar de enriquecê-lo com o que observa de diferente em relação a outros autores. Não posso dizer que fiquei surpreso em você “adentrar” na era cibernética, porque é um eterno jovem moderno. Por meio de suas histórias e mesmo fora de Pindamonhangaba há tanto tempo, na labua dessa gostosa vida de jornalista, seus escritos me fazem recordar, com ânimo e alegria, o tempo em que vivi nessa cidade fantástica. Agradeço-lhe por isto e o cumprimento por esse trabalho tão necessário á história da vida de todos nós.
    Forte abraço!

  • João e Éia

    Oi Di!
    Legal, Cara!
    Assino embaixo de tudo que foi postado cumprimentando você.
    Tenha a certeza de que cada um de nós se orgulha muito de você, pela sua história de vida e pelas “saborosas” histórias da vida que sempre tem mais uma prá nos contar.
    Contar uma história não é difícil, mas ter a capacidade de observar de maneira diferente e a partir daí, contar uma história colorida, brilhante, viva, que toca e prende … só poucos. Você é um deles, é uma fonte que não seca nunca, sempre vamos querer beber ainda mais dela.
    Parabéns!
    Beijos João e Éia.

  • Rubens Zaidan

    Uma “invasão” e tanto e sempre o pessoal invadido acaba ganhando com a “ocupação”. No Interior de Sp, cidades de médio e grande porte também já contam com CTGs. Além de entretenimento e confraternização, lembram a unidade cultural gaúcha que ajudou a defender o sul de invasões históricas. Bela história,

    abs

    Rubens Zaidan

  • joão antenor de melo leite

    A história do Portelaço é um pouco diferente, nasceu de forma diferente, acho que deveria o senhor Luiz Salgado buscar a fonte certa, obter melhores informações. De uma reunião de amigos essa festa virou “palco” de algumas pessoas ganhar dinheiro e encher seus próprios bolsos uma pena. Um dia a verdade vai voltar pois permanece viva na mente dos bons Portelenses.

    • falaeescrita

      Entusiasmado com o festão que encontrei em Terra Nova, resolvi fazer uma reportagem. Não uma investigação! Ninguém me falou da tal “reunião de amigos” a que se refere o leitor. Mas, se o sr. Mello Leite tem alguma coisa a informar sobre ela, convido-o a ocupar este espaço, que sempre estará aberto a comentários e contestações.

      Luiz Salgado Ribeiro.

  • Nereu e Regina

    Gostamos muito, pode continuar enviando, aproveitem bem a viagem, abrs ,Nereu e Regina

  • Esther Milstein

    Caros Liuz e Ana, apesar do breve contato, temos vcs tambem na nossa lembrança de viagem. Como prometido estou aqui em seu blog para poder acompanhar suas experiencias e aguardar o historico da grande viagem ao Alaska.Lembranças a Ana e forte abraço a voces.Esther

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